sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

João Miguel LETRA MÚSICA NATAL

Música de Natal Caixa de entrada João Miguel Aguiar quarta, 24/12, 18:11 (há 2 dias) para mim Olá Manuela, Aqui vai a letra que fiz para a tal música de Natal. Até já! Beijinhos, João Miguel Letra "Ainda estamos aqui", João Aguiar [Introdução] [Verso 1] Na nossa memória há cadeiras vazias, Mas nenhuma fica por lembrar. Há vozes antigas na lenha que arde, Há passos no chão que não deixam de andar. A Avó Maria sorri no silêncio, O Avô Serafim prefere cantar, A Avó Carolina reza baixinho, Para que o tempo nos saiba juntar. [Pré-Refrão 1] E mesmo ausentes, eu sei bem quem são, Vivem no gesto, no nome, no pão… [Refrão 1] Porque eles ficam quando a noite cai, No que somos, no que nos traz. Quem partiu não se foi de vez, Enquanto houver amor, Natal outra vez. Erguemos um copo, dizemos amém, Ainda estamos aqui — por eles também. [Verso 2] A prima Lecas ri nas memórias, O Tio Mário está a operar, O Pai conta-nos histórias, Que o tempo insiste em relembrar. A Tia Giginha faz-nos tanta falta, O Tio João só foi lá fora fumar, A Tia Lena e o Tio David, São raízes que não deixamos de lembrar. [Pré-Refrão 2] E cada nome dito em voz baixa É um abraço que o céu nos encaixa… [Refrão 2] Porque eles ficam quando a noite cai, No que somos, no que nos traz. Quem partiu não se foi de vez, Enquanto houver amor, Natal outra vez. Erguemos um copo, dizemos amém, Ainda estamos aqui — por eles também. [Verso 3] A Tia Lola canta p'ra nós, A Tia Giginha começa a tocar, A Avó Maria acende uma vela, Que o Tio Zé vai viajar. São tantos nomes, tantas vidas, Entre muitos que o coração sabe dizer, Família é isto: uma história comprida Que não acaba de renascer. [Refrão Final] Porque eles ficam quando a noite cai, No que somos, no que nos traz. Quem partiu não se foi de vez, Enquanto houver amor, Natal outra vez. Hoje a saudade senta-se à mesa também, Mas brinda connosco — ainda estamos aqui, Por eles. Por nós. Por quem ainda vem. Mas brinda connosco — ainda estamos aqui, Por eles. Por nós. Por quem ainda vem.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

DOCAS DE PASSAGEM POR MUITOS LUGARES apresentação de Ivone Ferreira

Lançamento do livro “DOCAS, de Passagem Por Tantos Lugares” 29 de março de 2025 AMM – FACE, Espinho Breve apreciação Quando começa a nossa Vida? A Vida de cada um ou de cada uma de nós? Para alguns, quando nascem; para outros, quando encontram um propósito, um amor ou, simplesmente, quando escolhem ser felizes. Para outros, ainda, a vida começa quando decidem vivê-la plenamente, aproveitando cada momento e aceitando desaios com coragem. Para a Maria Eduarda Aguiar da Fonseca, que, a partir de agora, passo a tratar por DOCAS, a vida começou e recomeçou vezes sem conta. Quando nasceu, quando encontrou propósitos e ideais, quando viveu a realidade de uma comunhão solene, ao lado do irmão Nestó , que ela considerou o momento social mais alto do tempo que passou em Freixeda, ou quando, de repente, só porque sim, porque era essa a sua vontade irreprimı́vel, tomou a “decisão radical” de ir fazer a festa dos seus 20 anos com o pai, que estava em Luanda. Imaginem a DOCAS, imaginem-se como a DOCAS, que nos obriga a ir lá atrás, ao baú da memória, com estas recordações: “Alguém me retratou no aeroporto da Portela, talvez a minha mãe, de saia justa e sapatos de tacão alto. Quem viaja assim equipada como quem vai para o escritório? E logo eu que sempre me considerei tão prática... Mas ninguém andava de jeans e sapatilhas, naquele Portugal tão arcaico e tão convencional.” Ela é, sem dúvida, uma “Mulher entre Mundos”. A viver cada momento diferente, cada lugar para onde a levavam, ou para onde queria ir. Porquê? Muitas vezes, só porque sim. E não será essa a melhor maneira de partir e de chegar? De começar, de recomeçar? 1 Ainda pequenina, levaram-na pelas minas, “algumas em locais que não constam do mapa”, porque o seu pai, engenheiro de minas, residiu em várias delas, devido à proissão. “Desde as minas da Escarvada, no Douro, da Bejanca, no Minho, à Freixeda, em Trás os montes, da Bica na Beira Alta a Cercal no Alentejo...” Das minas, em lugares quase sem nome, voa até Luanda, a grande capital portuguesa de Africa, como lhe chamavam... “Estava na minha fase áurea, única e irrepetível, a consumir a idade dos meus vinte anos, sem obrigações nem canseiras, sem querer saber o que viria depois. Não me foi di ícil encontrar emprego e apaixonar-me um pouco por África. E também me apaixonei, muito, pelo homem que seria num futuro ainda distante, um amor forte e duradouro da minha vida, o Fernando.” Aı́ está outra forma de começar a viver: encontrar um grande amor! E na sua história há , claro, esta história de amor, um amor tantas vezes contrariado, mas com tanta intensidade, com idas e vindas, com admiração mútua, tão fora do tradicional, “daqueles tempos”, como a própria Docas conta. “Fui a primeira mulher da família a viver uma “união de facto”. (União de facto... lembram-se do peso destas duas palavras? Já ninguém diz, atualmente, que isto seja algo pouco comum, mas há umas décadas, sabem o que provava? Que a mulher, sobretudo a mulher, era uma mulher de coragem, que aguentava olhares de soslaio, alguns comentários escondidos e em voz baixa, e a reprovação envergonhada, mas maledicente, da sociedade). Dessa relação, Docas revela que “O segredo da nossa surpreendente, mas conseguida compatibilidade, foi o facto de nunca termos tentado modi icar-nos mutuamente. Eu mantive sempre a simplicidade que tanto aprecio (...), ele, pelo contrário, era um requintado colecionador de antiguidades, sempre bem vestido e bem parecido! Quando eu aparecia com algum vestuário elegante, a Manela (a prima, digo eu, que está aqui connosco) comentava, de imediato: “Foi o Fernando quem escolheu esse fatinho?” 2 Lembra, nestas suas memórias, o emprego na “Caixa de Doenças Proissionais” e o seu destacamento para o Instituto de Emigração, quando a mesma prima Manuela foi Secretária de Estado. Juntando as viagens que fazia com o Fernando, nos verões, pela Europa, com os percursos de carro, por quase todo o Portugal, para estar perto dos familiares, e as viagens que teve de fazer, em serviço, construı́mos essa imagem de mulher entre mundos, “de passagem por tantos lugares” que é o tı́tulo deste livro de memórias, de vidas, de usos e costumes, de pensamentos, de relexões, mas sobretudo, de verdades cheias de sentimentos, cheias de emoções. A sua escrita é muito clara, leve e cheia de um humor, de um sorriso, de uma alegria que transborda em cada parágrafo, contando histórias de tios, primas, ou do irmão Nestó , dentro da sua própria história. E na sua história, há , claro, a faceta mais marcante de DOCAS, após a reforma. A DOCAS tinha um propósito que registou no seu livro, no capı́tulo “A minha segunda vida”. E a segunda vida seria como? Pelas suas palavras: “O meu projeto de vida futura era não fazer nada, mas a inal, acabei por dar início à mais ativa, criativa e empolgante fase da minha vida: a pintar!” Ela que não queria fazer nada, ainal, voltou a ter uma nova vida e recomeçou a pintar a acrı́lico. Foi a Pintura e essas tantas outras atividades que, com certeza, a izeram escrever ainda “Aproximava-me dos 70 anos e não sentia a idade” e mais à f rente “esses anos intensos deram-me tudo o que podia ter desejado e ainda mais” ... Mas nem tudo foi um caminho livre de espinhos para Docas. Como ela própria descreve, com uma lucidez brilhante, real e, talvez, conformada, “Sendo o destino o que é, tantas vezes feito de acasos, lançou-me subitamente, num novo ciclo, o “ciclo das doenças” ... E esse é o ciclo mais duro, mais escuro, mais difı́cil para DOCAS. Como já referi, descreve-o com pormenor suiciente para, com ela, sentirmos a dor, a angústia, o medo que perpassou aquando da descoberta de um 3 cancro de mama, mas também a sua coragem e a resiliência, o apoio de alguns amigos e uma nova Vida que construiu... O tempo passa e a DOCAS, hoje, retrospetiva a sua vida, ou as suas vidas, na cronologia das exposições de pintura que foi realizando, numa relexão interessantı́ssima sobre os tı́tulos dessas exposições. Escreve assim, na página 146 do seu livro: “Parece que pressenti a sequência do meu futuro na cronologia das exposições realizadas desde a fase da “Passagem da Luz” ou do “Movimento” à “Aridez” inal...” E depois, ainda, “Quero viver cada dia, sem prensar no amanhã. Mas com o melhor do passado, muito presente. Gosto mais de olhar os meus acrílicos agora do que gostava dantes. (...) “ No livro seguem-se fotos de qualidade de algumas das suas obras que servem de epı́logo inal. “Com alguns deles me despeço desta escrita de memórias, porque creio que falam mais do que quaisquer palavras.” Tem razão, DOCAS, uma imagem vale sempre mais do que mil palavras, e, por isso, creio ser a altura de terminar esta apresentação, não sem lhe dizer que adorei ler o seu livro e que, obras como esta, fazem parte da História social, cultural e das mentalidades, fazem parte da História da Vida Privada de Portugal, do chamado “mundo ocidental”, cuja forma de viver e de ser passa por um perı́odo tão conturbado. Obrigada por este testemunho, que aconselho vivamente. A sua vida, as suas Vidas, são realmente uma viagem no tempo e, como diz Henry Miller: "O destino de uma viagem nunca é um lugar, mas uma nova forma de ver as coisas." A sua forma de ver as coisas, de viver as Vidas, está excelentemente retratada neste “DOCAS, de passagem por tantos lugares”. Que bom! Parabéns. Ivone Dias Ferreira Vila Nova de Gaia, 29 de março de 2025 4

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

ASSIM ERA ELA apresentação do livro no Porto

Short Bio: João Miguel Aguiar é atualmente Investigador integrado e Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Gestão e Tecnologia (ISLA-Gaia), onde dirige a licenciatura em Multimédia. João é licenciado em Sociologia e mestre em Ciências da Comunicação, ambos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e doutorado em Media Digitais - Indústria, Públicos e Mercados (2018) pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e pela Universidade NOVA de Lisboa, em colaboração com a Universidade do Texas em Austin. João Aguiar foi também investigador no programa UT Austin | Portugal, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). João Aguiar trabalha na área dos Processos Sociais, Humanidades Digitais, com ênfase nas Ciências e Tecnologias da Comunicação e dos Media Digitais. Nas suas atividades de investigação tem colaborado com diversos investigadores de diferentes áreas, sendo autor de vários trabalhos científicos. Foi ainda professor auxiliar convidado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e professor auxiliar na Universidade Fernando Pessoa. Um anexo • Verificado pelo Gmail Muito boa tarde, Com muito gosto agradeço o honroso convite para esta apresentação e cumprimento cordialmente todas e todos os presentes. É com profunda honra — e uma emoção difícil de disfarçar — que apresento esta fotobiografia Minha Mãe. Assim era Ela, da autoria de Maria Manuela Aguiar, integrada na coleção Mulheres Entre Mundos, da Associação Mulher Migrante. Uma coleção que preserva percursos femininos marcados pela mobilidade, pela resiliência e pela memória. Não vos falo apenas como apresentador: falo como sobrinho e afilhado da grande mulher aqui celebrada — alguém que cresceu dentro da sua presença luminosa, da sua inteligência afetiva e dessa cumplicidade rara que só o amor familiar verdadeiro permite. Na verdade, este livro é mais do que memória: é um território de pertença. É um gesto de amor, uma restituição afetiva e histórica da vida de Maria Antónia Barbosa Aguiar, a Mariazinha, ou, para muitos sobrinhos, a eterna Tia Giginha. Para mim, é ainda mais — é a celebração de uma das presenças fundadoras da minha vida: a minha tia, minha madrinha, e uma das pessoas com quem partilhei uma cumplicidade rara e inesquecível. A narrativa conduz-nos desde as raízes da família Barbosa Aguiar, entre Portugal e o Brasil, revelando a infância da “Mariazinha”, nascida em São Cosme de Gondomar, a 28 de agosto de 1920, depois de uma viagem silenciosa no ventre da mãe, que regressava do Rio de Janeiro. O texto restitui-nos o universo simbólico da mítica Villa Maria — esse espaço emocional onde a infância, a festa e o luto coexistiram. Onde se aprendeu que a felicidade é feita de detalhes: da casa imponente, da sombra dos roseirais, dos pomares, mas principalmente da família, dos recitais improvisados, do teatro amador, das celebrações em conjunto e da alegria que atravessava gerações. Com a Tia sempre presente, com o seu riso contagiante, a sua energia inesgotável, o humor atrevido que nenhuma adversidade conseguiu silenciar. Uma mulher que “tinha da vida apenas vontade de vida” — como escreve a Manuela — mas que carregou também a dor irreparável da perda. Da perda precoce do pai em 1926, da perda da filha Lecas, transformando o sofrimento numa força silenciosa, jamais em amargura. A fotobiografia acompanha o casamento com o seu João, as tertúlias familiares, as romarias, os veraneios em Espinho e aquela elegância natural que a fazia simultaneamente conservadora e iconoclasta — capaz de respeitar tradições, mas sem deixar de enfrentar a moralidade tradicional. Ler estas páginas é reencontrar uma mulher que viveu 98 anos sem nunca desistir de ser inteira: generosa sem ostentação, alegre sem ingenuidade, firme sem dureza. Uma mulher que não cabia nos estereótipos do seu tempo — nem nos de hoje. Nas páginas que percorremos — feitas de cartas, retratos, postais, memórias orais e arquivos familiares — reencontramos não apenas uma biografia, mas uma história social de Gondomar, das suas famílias, das migrações atlânticas, das transformações culturais do século XX e do século XXI. Este livro preserva o que raramente fica registado: o modo como uma vida comum se torna absolutamente extraordinária. É, portanto, mais do que memória: é legado. Não apenas para a família, mas para Gondomar, para a diáspora portuguesa e para a história das mulheres que, sem procurarem palco, acabaram por merecê-lo. E como ela o merecia… Agradeço à Associação Mulher Migrante por reconhecer que vidas como a da Tia Giginha não são apenas privadas — são património. E agradeço-vos por estarem aqui, a testemunhar este reencontro entre a história e o afeto. Um gesto de continuidade entre o passado e o futuro. E, para mim, é também um reencontro íntimo: o privilégio de ver, nas imagens e nas palavras, aquilo que sempre soube — que ela era assim, exatamente assim, e que continuará a sê-lo enquanto houver memória para a nomear. João Miguel Aguiar Fundação Engº António de Almeida, Porto, 29 de novembro de 2025