O TALENTO E O "CHARME"

Maria Alexandra Aguiar da Fonseca, nasceu em Gondomar, na Vila Maria, em 28 de Janeiro de 1948.
Esse dia está, de uma forma muito especial, gravado na minha memória. Passei horas, com o Nestó e a Madalena, a olhar os céus, através do vitral gigante, que marcava o patamar de divisão entre o primeiro e o segundo piso da casa da Avó, e que oferecia a mais ampla das vistas para detectar a chegada da cegonha. A cegonha, segundo nos disseram, traria a criancinha pelos ares. A irmã ou irmão do Nestó, a minha prima ou primo. Esperamos, como imaginam, em vão... E eu, a certa altura, já farta da longa espera, resolvi ir fazer visita à Tia Lola, no preciso momento em que nascia a menina! Foi um segundo alvoroço, a acrescer ao principal... Toda a gente (por tal se entendendo, pelo menos, o Tio Manuel, a Tia Clarinha, a minha Mãe e a Avó Maria...) julgou que a terrível e imprevisível criancinha tinha visto o que não era próprio para a sua idade... Engano! Disso não tenho qualquer recordação. Só do facto, bastante suspeito, de me mandarem embora, com tanta pressa e tanta vozearia, tipo "olha a menina!". Fiquei com curiosidade. Saí e esperei apenas uns minutos para voltar aquele palco demovimentações misteriosas e interessantes. Dessa segunda vez, surpreendi o Tio Manuel - que, como acontecera comigo e com a Lecas, fazia o papel de médico parteiro, com eficiência - a bater no bebé, suspenso pelos pés e fiquei indignadíssima! A chorar, perante a aparente barbaridade de um Tio, até aí tão simpático, fui defender a recém nascida, batendo eu no agressor... Um bébé gordinho e muito vermelhusco. Quando recuperou desse transe genesíaco, revelou-se a mais bonita das meninas, com a sua testa muito alta (dizem que denuncia proporcional grau de inteligência e, no caso dela, é rigorosamente verdade), e os seus enormes e expressivos olhos verdes. Este é o "meu" princípio da "sua" história.
Parabéns,
Manela
CV BREVE
Escola primária a peregrinar pelo país, com os pais: Freixeda, Sortelha, Espinho (dois meses) e, de novo, Sortelha. Exame da 4ª classe na Guarda.
Curso da Escola Industrial: Porto (Escola Aurélia de Sousa), Setúbal e, depois, Lisboa (Escola Josefa de Óbidos).
Apesar do direccionamento técnico do curso e dos 19 a matemática, tendia para as letras. Escreveu inspirados poemas desde os 11 anos e até aos 40. Estão compilados pela Docas.
Profissão
Em Novembro de 64, o 1º emprego. Tinha 16 anos. Foi secretária de um milionário, Charles Simoulin, que morava ao lado do rei Humberto de Itália. Queria adopta-la, queria que continuasse a estudar. A Tia Lola não permitiu.
Concorreu depois à CUF. Entre mais de 1000 candidatos, escolheram 3, sem cunhas, através de testes psicotécnicos - um deles a Xana. O ordenado era enorme, tudo corria muito bem até que a mãe decide ir para Luanda, sem lhe deixar alternativa - teve de seguir com ela e perdeu o lugar...
Em Angola, foi secretária do dr. Pinto de Andrade no Instituto da Indústia da Pesca. Por trabalhar com ele, chegou a ser chamada à PIDE...
Estava, de novo, bem integrada e satisfeitíssima, quando a mãe resolveu voltar a Lisboa. Mais um recomeço! De início, à falta de melhor, vendia enciclopédias da Caxton. Logo depois foi secretária do dr. Roger Carp, até que a mãe a faz regressar com ela a Angola. Por algum tempo. Depois, reinserida em Lisboa, sem trabalho, viu o anúncio de um concurso para a Trefilaria. Noutro vasto conjunto de candidatos, foi seleccionada e gozou de mais um sumptuoso estatuto remuneratório. O casamento, ao fim de poucos anos, levou-a para outra cidade - Leiria. Procurou novo emprego - Nissan, Montepio.
Começou, então, um percurso de emigração: França, onde vivia a Docas, por poucos meses. África do Sul, Joanesburgo. Primeira colocação numa agência de viagens, segunda na empresa do comendador Bernardino Faria. Esteve prestes a entrar na redacção do jornal "Século de Juanesburgo", mas desistiu dessa experiência, porque já pensava no retorno à pátria.
Em Lisboa e arredores, nova carreira: secretária ou dama de companhia de milionárias.
Primeiro, por escassos meses, uma excêntrica Mariazinha Braga, de quem poderá contar histórias divertidíssimas, seguidamente uma verdadeira Senhora de quem gostou muito: Dona Eugénia de Mello, com quem esteve 6 anos. Um acidente, uma operação ao ombro, deixou-a "de baixa" durante 18 meses. Foi substituída, é claro. Mas, quando recuperou, o cunhado de Dona Eugénia, José Manuel de Mello, contratou-a para tomar conta da Quinta dos Perdidos, no Alentejo. Outra época aurea! Tinha uma casa linda, gostava do trabalho, do ambiente, dos animais.
Uma mirabolante oferta de emprego de um misterioso milionário francês - com fabuloso vencimento! - convenceu-a a deixar a Quinta dos Perdidos. Em má hora...
Não chegou a concretizar-se!
Solução: emigrar, mais uma vez. Inglaterra, onde a contrataram como governanta e a puseram a lavar pratos, o que, naturalmentem recusou, de imediato. Suiça, onde foi secretária de uma cantora de ópera (casada com um milionário), na altura em que a Ana estava casada com o espanhol Yuste. A separação da Ana e a vinda para Lisboa, logo depois do nascimento da Laura, fá-la perder outra magnífica colocação. A cantora era simpática, apreciava as suas qualidades e pagava bem por tarefas muito agradáveis.
Durante estes 5 anos tem sido, sobretudo, a Avó da Laura. De momento, está apenas à espera da reforma - o que não quer dizer que novas e extraordinárias oportunidades não possam surgir!





Publicada por Maria Manuela Aguiar em
15:35
Comentários
Maria Manuela Aguiar disse...
61 anos. Quem diria!Eu, bem mais velha, continuo a lembrar-me, sobretudo, dos tempos da infância Imaginem a menina com 9 meses. Ao colo da Tia Lina, na sala de jantar da Avó. Vem Inês, a terrível, fazer festas ao bebé. Começa devagar, acariciando as duas bochechas. Depois, aperta, mais e mais. E a criancinha, sentindo-se "apertada", levanta uma mão, já relativamente grande e forte, e dá-lhe uma sonora bofetada!
... A menina cresceu rapidamente. Aos 10 tinha quase a altura que tem hoje (passe o ligeiro exagero). E era toda despachada. Sabia o que queria. Por essa altura, um dia, veio comigo para casa dos meus Avós, em Avintes, e não havia "menu" que lhe agradasse - muito menos os bifes com batatas fritas, que, ali, eram a receita-chapa, quando a Lecas e eu tínhamos aquela idade . Estava eu muito preocupada, quando ela viu batatas cozidas - um "must" na dieta do meu Avô Manuel - e disse que era aquilo que lhe apetecia.Reguei as batatinhas, abundantemente, com azeite, e a Xana, para nossa tranquilidade e satisfação, repetiu várias vezes. Só depois vim a saber que esse era o seu prato favorito! Simplesmente batatas. A navegar em azeite!
Para quem não aprecia, particularmente, os prazeres da boa mesa - como é o meu caso - parecerá estranho que continue a recordar histórias ligadas á gastronomia.Mas as histórias são, já o povo o diz, como as cerejas. Interligam-se. Esta passa-se uns 10 anos mais tarde. A Xana estava de férias, connosco, em Espinho e íamos almoçar à Tia Lena, no meu 1º carro, que era um "Viva", de cor clara e assentos azuis.Resolvemos levar, para oferecer aos Tios, uma grande quantidade de papos de anjo, com óptimo aspecto. (O Tio David era grande adepto de doçaria, mas a Tia Lena controlava as suas dietas, com muito cuidado, embora, também, com suficientes excepções). Eu conduzia. A Xana levava o embrulho nos joelhos. Uma de nós, por altura da Granja, perguntou à outra: "Os papos de anjo são muitos. Vamos comer um cada uma?"Assim fizemos.Eram, de facto muito frescos, recém chegados de Aveiro.Achamos que podíamos repetir - só mais um... E, logo de seguida, outro, e outro, e outro... Até que a Xana me disse: "Agora já são poucos. É melhor acabarmos com eles". Assim fizemos. E não perdemos o apetite para o excelente almoço da Tia Lena. Juventude!
Como a Xana foi minha madrinha de casamento, a primeira cadelinha que o Manel e eu compramos em conjunto (ainda em lua de mel), uma linda perdigueira portuguesa, recebeu o seu nome. Ela gosta de cães, e por isso, aceitou, de bom grado, a homenagem. Mas, quando a perdigueira cresceu, tornou-se difícil segurá-la dentro de casa, e, com imensa pena, acabámos por dá-la a um caçador.Havia que comprar um sucessor.Fomos a um horto, perto do mercado do Bolhão - que desde que me lembro de aí passar, pela mão da Avó Maria, também vendia cachorrinhos supostamente de raça - e empreendemos a difícil escolha perante uma irrequieta e numerosa ninhada de "fox terriers". Eu queria trazer um magro e ladino, mas a Xana insistia na beleza da cadelinha mais gorda. Aceitei o conselho e regressamos a casa, no tal Vauxall Viva, a Xana de fox ao colo.Mas, a meio caminho, eu reconsiderei, e resolvi ir fazer a troca pelo meu preferido. Quando já estava perto da loja, a Xana grita: "Para! Para, que a cadelinha está a sentir-se mal. Vai vomitar".E, realmente, assim parecia. Parei. O animal tossia, engasgado, com ar muito doente. Condoí-me, fiz a vontade à Xana. Decidi: "Bem. Fica essa!"É incrível, mas é verdade. A "fox" percebeu que estava "salva". Curou-se, instantaneamente, não hesitando em dar claras mostras da sua felicidade recuperada.Era a raínha das cadelas espertas! A minha Mãe considerava-a "gente". (não era 100 por cento pura, mas tinha um formoso e expressivo focinho, preto e bege).Chamava-se Docas. Porém, nessa época, a Docas não era muito dada a cães... E ficava furiosa, se respondia ao chamamento "Docas!" e nós lhe dizíamos: "Estamos a falar com a fox".