asceu em Avintes, em 6 de Junho de 1918.
O primeiro filho de Olívia Fernandes Capela e de Manuel Dias Moreira - herdando o nome do Avô paterno, João Dias Moreira. Os outros Avós: Quitéria Francisca Pinto, e, do lado materno, Joaquina Fernandes e João Capela (abreviando apelidos, que, com exactidão desconheço).
Um menino precioso, disputado pelas várias famílias de onde provém !
Teve irmãos , que morreram em pequenos, e, assim, continuou "filho único", sempre à procura de maneiras de escapar à superprotecção de sua Mãe. E conseguiu, muitas vezes. O colégio dos Carvalhos, onde passou os 11 anos da escola e liceu, ajudou-o a levar uma vida mais independente, fora de uma casa sem crianças, entre rapazes da sua idade, e, por outro lado, sendo uma das melhores instituições de ensino do Porto e do País, a desenvolver tanto o talento para as letras como o gosto pelo desporto. Um atleta completo, bom no atletismo, em corrida - um "sprinter" nato - e nos jogos mais colectivos, como o futebol. O futebol seria, para sempre, mais tarde como mero espectador, uma das suas paixões. Portista, o mais possível!
Falava do colégio com nostalgia. Adaptou-se excelentemente ao que diziam ser uma Escola, que impunha a disciplina, tanto quanto cultivava a qualidade de ensino. O Pai - é curioso! - não se queixava de nenhum excesso de mestres e directores. Bem pelo contrário. Parece ter sido muito feliz, e muito popular, com colegas e professores, por igual.
As línguas e literaturas eram a sua matéria preferida. Incluindo o latim e os celebrados autores latinos...
Lia Ovídio e Virgílio, no original, "e por gosto", como me dizia muitas vezes, quando, nos últimos anos do Liceu, no Porto, no "Rainha Santa Isabel" eu andava de mal com as declinações e mais empecilhos gramaticais dessa língua antiga... Custava-me a compreender que isso fosse possível, embora aceitasse que fosse. Coisas que não estavam ao meu alcance, como variadíssimas outras - por exemplo, a arte da criação musical ou da invenção científica.
Ler em latim parecia-me um feito notável. "Por gosto", entrava no domínio iniciático do verdadeiro mistério.
Mas que é útil saber latim, como "conditio sine qua non" para bem escrever português, isso é!
O meu Pai corrigia-me artigos, discursos, manifestos de campanha eleitoral, enfim, tudo o que eu escrevia, para fins muito diversificados, colocava as vírgulas, onde elas deviam estar...
Era um perito a redigir em português...
E um Poeta, também . Repentista! Nos seus tempos de juventude, os amigos pediam-lhe, que versejasse umas estrofes bonitas, para dedicarem, como prova de inspiração amorosa, às suas namoradas. E o João estava sempre pronto - produzia as quadras na hora, à mesa do café. O amigo pagava-lhe, por gentileza, um simples cafezinho e partia, feito poeta.
O cafezinho e o cigarrinho (duas embalagens por dia...) foram dois vícios que nunca abandonou.
As suas namoradas, essas, recebiam sonetos genuinamente de autor, repassados de sentimento verdadeiro, sem descurar a métrica perfeita.
Havia muitos dedicados à Celina Viana, sua primeira mulher, que se perderam. E outros tantos recebidos pela segunda, a Mª Antónia Aguiar, minha Mãe, por ela conservados, religiosamente, e por mim editados, depois da sua morte ("Intimo", um título que já estava escolhido por ele - só que foi adiando a revisão dos textos, até ser tarde, e a publicação acabou por constituir a nossa pequena homenagem póstuma).
Em Avintes, convivia com os primos, o António, a Maria Angélica e o Chico. Também com os do ramo "Capela", Alda, Alberto, Maria Helena e Manuel, os filhos da Tia Clementina. As férias de verão traziam-no para Espinho - frequentemente, com alguns desses parentes.
E havia os amigos do colégio, como o Danilo, o Licínio, e o Henrique Estima, que era mesmo de Espinho.
Divertiam-se imenso! Lembro-me de ouvir contar que, muitas vezes, o Pai fazia de inglês, para beneficiarem do tratamento preferencial que os de cá gostam de dar aos "estrangeiros". Na altura, falava bem a língua e o aspecto não podia ser mais convincente, mais "british". O pior é que era dado a distracções, e a reacção dos interlocutores ao sentirem-se "gozados", nem sempre era a melhor. Pena não me recordar dos pormenores dessas histórias cómicas, tantas vezes ouvidas em menina. Falta de recolhas em vídeo, que ainda não existia. Só havia filmes - e o único que tinha máquina de filmar era o Chico, grande cinéfilo - fã de Charlot - e produtor amador. É possível que a prima Nini e a filha, a Esperancinha, ainda guardem algumas cópias. De qualquer modo, mais tardias, em relação ao período juvenil dos episódios do "falso" inglês...
O longo internato nos Carvalhos foi interrompido por um ano - a antigo 6º do liceu - em que o pai quis experimentar a liberdade maior do Liceu Rodrigues de Freitas no Porto. O ano foi muito animado, mas chumbou... Entre outras coisas porque, consta, terá namorado a namorada de um dos professores, que não perdoou. Mas, acho eu, sobretudo, porque estudou pouco e mal ... Andou na "boémia" estudantil!
Foi ele mesmo que pediu o regresso ao colégio, onde tudo voltou à normalidade.
Terminou o Liceu e preparava-se para realizar o sonho paterno de tirar o seu curso em Coimbra.
Não o curso de Direito, como o Avô Manuel preferiria, mas o de Letras.
Todavia, acabou por trocar a vida de estudante por um casamento precoce e muito romântico. Uma cerimónia faustosa, com a presença de meia Avintes! O Avô Manuel, eufórico, a fazer um discurso empolgado (relato do António, em Toronto, há poucos anos).
A noiva chamava-se Celina. Lindíssima. Personalidade forte. Mulher moderna, divertida, atraente. Tanto, tanto, que parece que os pretendentes abundavam. Entre eles o próprio António, que me deu , numa das últimas das nossas conversas em Toronto, um retrato bem diferente do que eu tinha de personagem mítica -o que aqui deixo, nestes poucos adjectivos.
A minha ideia anterior baseava-se, exclusivamente, no retrato guardado pelos meus Avós. Aí, ela aparecia-me mais como uma deslumbrante "star" de Hollywood. Serena e majestosa.
Nas palavras do António, era precisamente o contrário: uma menina alegre, simples e desportiva. Que gostava, naturalmente de vestir pelo último figurino.
A família tinha fortuna brasileira, e a mansão mais bonita da Rua 5 de Outubro, que é, digamos, salvaguardando as diferenças (ou, como diz o povo, "mal comparando"), uma espécie de "Campos Elísios" de Avintes.
As famílias favoreciam o projecto dos jovens. O meu Pai, ao tempo, era, também, filho de gente rica. E bonito rapaz! Tinha apenas 19 anos e ela 21.
O que apressou o casamento foi, insolitamente, a doença da Celina. Tuberculosa, em fase avançada... Insistia em casar com o João, nem que fosse por um dia !
Uma grande paixão, que eu considero comovente. Uma "Love Story" , que ainda não tinha sido filmada. Ficção e realidade podem andar próximas, como sabemos.
Ela morreu 7 ou 8 meses depois, deixando recordações e saudades em todos os que a conheceram. Ainda me lembro de ver o seu grande retrato, na sala de visitas dos meus Avós!
Foi retirado por pressão da minha mãe. Nunca percebi essa "competição" com uma noiva morta... Ainda por cima, também era uma mulher bonita, moderna e "carismática" - não havia razões para sofrer de qualquer complexo.
Retomando a cronologia da narrativa: o Pai, viúvo aos 20 anos, poderia, então, ter deixado o emprego (na Câmara de Gaia) e rumado à Universidade de Coimbra. Faltou-lhe o ânimo. Compreensível.
Conheceu a minha Mãe, dois anos depois, na capelinha do Monte da Virgem, onde a Avó Olívia o levou a uma cerimónia religiosa. Lá estava, também, a Avó Maria com as 3 filhas solteiras - Mariazinha, Lólita e Lena.
Foi à Mariazinha que o João veio oferecer, no largo da capela, uma miniatura de sapatinhos de couro, que se vendiam na feira, montada, festivamente, ali ao lado. Maneira do começar uma conversa, que ia durar, por muito tempo.
O namoro foi bem aceite pela Avó Maria. Um jovem culto e sociável, muito religioso, herdeiro único de uma fortuna razoável... O que desejar mais?
Tornou-se visita da casa. Passou férias de verão com a família Aguiar, em Brânzelo.
O pedido de casamento foi feito do verão de 1941, e o casamento realizou-se na Vila Maria, em 15 de Novembro desse ano.
Em 1942 nasci eu, em 1943, a Lecas.
Faltou um menino (e a Lecas e eu bem gostiarámos de ter tido um irmãozinho...). E eu digo isto, porque acho que o Pai era daqueles homens que sentia a falta de um rapaz! Não que fosse "machista", porque não era nada. E misógino também não. Assim, por exemplo, na minha geração, a Docas foi a sua preferida, entre sobrinhas e sobrinhos.
Mas, nas gerações seguintes "adoptou", como neto, o João Miguel (mais tarde, por "afinidade" o Hélder), e, como bisneto, o Tózinho.
Era eu ainda criança, quando o Pai mudou de emprego, para o Grémio dos Ourives do Norte, que funcionava, e funciona, num palacete enorme, perto da Biblioteca Nacional do Porto e do Jardim S. Lázaro. Nunca teve um alto vencimento, nem grandes benesses, mas foi um funcionário exemplar, seriíssimo e respeitadíssimo, e fez uma progressão que o levou, por mérito, ao topo de carreira - a secretário-geral, já depois de ter completado um bacharelato (em Administração de Empresas) e uma licenciatura (Sociologia) no ISCTE.
É verdade: foi, na família um precursor da mentalidade que permite terminar estudos universitários na meia idade! E só lhe fez bem. Rejuvenesceu, ganhou novos (em todos os sentidos) amigos, novos interesses. Exercitou as células cinzentas, aprendeu com óptimos professores - como Vasco Pulido Valente, que ele considerava, de todos, o mais brilhante.
A festa de fim de curso, foi um memorável banquete no restaurante " A Brasileira", que era propriedade de um colega de curso.
A Mãe alinhava em tudo, acompanhava-o para aulas (intensivas, dadas em fim-de-semana, em Lisboa, aos "voluntários nortenhos), para exames e para comemorações. Fez as mesmas amizades - só lhe faltou fazer também uma licenciatura...
Foi um bem para os dois - ainda e sempre muito marcados pela morte da Madalena, em 1964, precisamente quando o pai dava os primeiros passos nesse projecto.
No final dos anos 60, o pai foi convidado para administrador do "Diário do Norte", coisa que lhe agradou bastante, apesar da situação financeira do jornal não prognosticar um longo futuro no cargo. Estava em representação do "Grémio", que era um dos grandes accionistas, e, pela sua parte, fez o que pode.
Foi, profissionalmente, impecável. E, também, um verdadeiro "homem de família".
A minha Mãe e ele eram inseparáveis - praticamente, nem ao café ele ia sozinho. Essa situação só veio a modificar-se no Porto, nos anos 60, por influência "sulista" da Maria do Carmo Razzini. E apenas no que respeita à "autonomia " para ir tomar um café, ao fim da tarde, ou depois do jantar, quando a Mãe estava ocupada com qualquer tarefa doméstica, ou em convívio com a Maria do Carmo. Mas ele gostava de companhia, e, se eu estivesse por perto, convidava-me a ir com ele.
Já antes, desde os meus 10 anos, o acompanhava, regularmente, ao estádio das Antas.
Entendia-me muito bem com ele, e até mais na fase adulta do que em criança ou em jovem. Num primeiro tempo, a Mãe era mais acessível, mais próxima, mais animada. O Pai tendia a proibir mais, a dar menos margem de liberdade. Mas, quando tinha certezas, confiava. Foi ele o aliado que me permitiu ir passar dois meses de férias, sozinha, a Inglaterra, com apenas 16 anos - entregue, é claro, aos cuidados de uma freirinha, por recomendação da Madre King. Ao facto não seria totalmente alheio a sua anglofilia, acentuada desde os tempos da guerra.
O pior defeito do Pai era, talvez, o seu proverbial pessimismo. O ser também pouco afoito, pouco dado a aventuras, a gastos considerados excessivos, faceta que a Mãe, que era, precisamente, o seu contrário, no mais alto e imprudente grau, sempre verberou.
Vim a concluir, sem sombra de dúvida, que, no casal, era ele a pessoa mais razoável, mais estável, mais paciente. A Maria Antónia é um turbilhão, um excesso vivo entre a grande tempestade e a grande bonança. Um caso difícil de gerir - mais ainda para alguém, tão discreto, tão "convencional" - ao menos por contraste com a excentricidade assumida de muitos dos Aguiar.
Foi o casamento entre uma radical, uma extremista, e um moderado, um reformista.
Do ponto de vista de comportamento, de temperamento e até, por sinal, também, do ponto de vista político... Ela monárquica, marcelista, " reaccionária". Ele democrata, centro -direita, PPD-Mas partilhavam muitos gostos - por exemplo, pelo cinema, pela música, pelo teatro, pelas corridas de automóveis, pelas férias na praia, pelo convívio constante com a família, irmãos e cunhados, primos, amigos.
Muitos momentos bons, vividos nesse círculo!
Só tarde tiveram casa própria, ao fim de 16 anos de casamento. Moraram, primeiro, na Vila Maria, com a Avó, depois com a Tia Rosaura, em casas grandes demais para essas senhoras sós, viúvas. Solução confortável, porque aliviava a Maria Antónia de ocupações pouco do seu agrado - as chamadas tarefas domésticas, ainda que com o concurso de empregada ou mulher-a-dias - e era a mais económica, poupando rendas a pagar a um senhorio.
Foi por pressão da Lecas e minha - queríamos viver no Porto - que arrendaram o andar na Rua Latino Coelho, perto do Marquês de Pombal e do Colégio da Paz.
Anos depois, arrendaram um segundo apartamento, em Espinho, onde passávamos o verão e os fins-de-semana. O pai adorava Espinho, o mar o sol, as esplanadas, os cafés.
Conseguiu convencer a mãe a deixar o Porto. Fixaram-se, definitivamente, no andar bastante espaçoso da Rua 16, que tinha uma bela vista sobre o oceano. Trouxeram, naturalmente, a Tia Rosaura e a em pregada Olívia, que já moravam connosco em Latino Coelho.
Depois da morte da Avó Olívia, no início da década de 80, reconstruíram a velha casa da Rua 7.
Aqui o Pai viveu os anos da reforma, à beira-mar, nas tertúlias de café, com bons amigos, que envelheciam como ele, mas mais do que ele...
O Pai gostava muito do convívio com os mais novos!
Conservou, sempre, até ao último dia, um espírito muito jovem, e um grande interesse pela política, pelo futebol, por tudo o que acontecia no mundo, perto ou longe.
Não conheceu a decadência intelectual, nem, a bem dizer, física. Conservou a inteligência, a lucidez, o seu especial sentido de humor. A religiosidade. A fé.
Não tinha medo da morte. Morreu como queria - sem sofrimento, de repente. De um devastador ataque cardíaco. A meio de uma frase, sem que nada o fizesse prever. Estava bem disposto, a comentar um artigo de Marcelo Rebelo de Sousa, de quem era admirador.
Era um domingo de Páscoa. Tínhamos passado uma tarde muito agradável, em Gondomar, em casa do Mário. Falou-se de uma próxima ida a Fátima, em excursão ou peregrinação familiar, que o pai não perdia por nada deste mundo. Eu conduzi o carro. Viemos num instante, com a estrada quase deserta. O Pai foi arrumar o Peugeot na garagem e, depois, tomar um café. Desencontrámo-nos - eu andei à beira-mar. Chegámos à hora de jantar - um jantar logo interrompido...
Se fosse vivo, teria 91 anos. Como eu gostava de estar hoje a festejar esse aniversário...
Publicada por Maria Manuela Aguiar em 12:37 71 comentários:
Paulo disse...
Do tio João guardo uma recordação de uma pessoa serena, reservada, amável, de sorriso fácil e com um especial sentido de humor. Como gostava muito de café, mal chegava a nossa casa apressava-me a oferecer-lhe um, que ele aceitava sempre agradecido. Recordo-o de cigarro na mão, fosse no café em Espinho ou na nossa sala em Gondomar (depois no jardim, para não incomodar, quando passou a ser politicamente incorrecto fumar junto aos não fumadores). A minha mãe (não consigo deixar de falar dela)considerava-o muito e era retribuída com igual consideração, e todos nós lhe tínhamos grande amizade. Era muito nosso amigo e também eu tenho pena de não podermos festejar o seu 91.º aniversário.
Quarta-feira, 10 Junho, 2009
Rosa Maria Gayoso disse...
Lembro-me bem do Tio João tinha imensa paciência para nós crianças. Era a única pessoa que em miúda me conseguia levar ao mar Eu tinha uma confiança cega nele porque me agarrava pela mão e por maior que fosse a onda não me deixava cair
Lembro-me também que quando a noite eu ia com o Guilherme e os meus primos Mimi e Ferrer ter com ele ao Café Palácio ele ficava em pânico se o Guilherme se afastava um pouco Ia logo procura-lo Era um grande amigo e eu estimava-o muito.
Quarta-feira, 10 Junho, 2009
Lé disse...
Tão querido o meu Tio João, de quem tenho muitas saudades, um amigo inesquecível, estava sempre pronto para acompanhar as suas sobrinhas Lélé e Nónó. Quando pequeninas iamos ter com ele ao Grémio dos Ourives e de lá para Espinho passar uns dias, ele adorava a nossa companhia. Conversava o tempo todo e fazia-nos as vontades. Já mais velhinhas acompanhava-nos para todo o lado, adorava sair com as sobrinhas, uma de cada lado dos seus braços, e dizia: “ que bem acompanhado que eu estou “ . Com ele íamos à missa, ao cigarrinho e ao já célebre cafezinho. Estava sempre pronto para dois dedos de conversa e pronto para ouvir as nossas queixas, ultimamente no café “Ninho do Amor”.
Muitas saudades! Meu tio Jão
Quarta-feira, 10 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Vou começar pelo meu "hobby" favorito, que é comentar os comentários, sobretudo quando são, como estes 3, tão verdadeiros e sentidos.
É que eles lembram-me imagens do passado, mais vivas e mais nítidas do que as as do dia de ontem ou de hoje. Sinal de velhice, é claro.
Era em casa da Meira e do Mário que habitualmente passávamos as tardes de sábado. Anos e anos a fio, enquanto o meu Pai estava entre nós. Sim, ele sentia a necessidade desse convívio, dessa amizade e não dispensava o passeio de Espinho a Gondomar. A Meira, sempre com o seu sorriso bonito e natural, o Mário, um conversador nato, brilhante e polivalente, que , apesar das suas absorventes tarefas como médico (na investigação, no ensino, na gestão de serviços hospitalares, nos transplantes, no "aconselhamento" de sucessivas equipas ministeriais) encontrava tempo para nós, naquelas tardes inteiras de descontraída conversa sobre coisas, situações e pessoa, as mais diversas - nomeadamente da nossa, então, mais animada cena política.
E, logo à chegada, lá estava o Paulo preparado para fazer um delicioso café, que ele próprio se encarregava de servir, com a máxima eficiência e requinte!
Eu, na altura, era, tal como o meu Pai, uma grande consumidora de café, e, por isso, sou testemunha da prontidão e da qualidade da sua prestação.
Era um facto, que eu registava, com infinita satisfação e apreço: o facto de numa família de quatro filhos, sendo 3 raparigas - aliás, todas, como a Meira, excepcionais donas de casa, e diligentíssimas - fosse o rapaz o que se antecipava a oferecer-nos o cafézinho.
Ele pode até ser conservador e contrário aos ideais "feministas", de um ponto de vista teórico, mas é dos homens mais naturalmente "praticantes da igualdade" que eu conheço, neste país e na sua geração!
Por isso a Marta é uma mulher com imensa sorte. E eu sei que a Meira se orgulhava, muito justamente, desta maneira de ser do seu filho!
É também por isso que eu adoro o Paulo, e que nos entendemos tão bem nos nossos constantes desentendimentos "políticos".
!
Segunda-feira, 22 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Pois era mesmo assim, como recorda a Rosa Maria, a vida do meu Pai em Espinho: o mar, o café Palácio, os amigos.
Foi ele quem convenceu o resto da família a vir para Espinho, de vez.
O Café Palácio era uma espécie de segunda casa, onde nas férias, e depois de reformado, todos os dias, passava a maior parte do tempo, tomando cafés atrás de cafés.
Companheiros constantes, a D. Mimi e o senhor Ferrer, os primos e padrinhos de casamento da Rosa Maria. Um casal absolutamente fantástico.
Ela tão bonita, chique e inteligente, e tão divertida! Que trio formava com a D. Arlete e a minha Mãe (ainda no "velho" Palácio, quando o hotel, onde estava enquadrado, já há muito
tinha encerrado e estava condenado à demolição)!
O Sr. Ferrer, que tinha vivido na América, era o homem mais habilidoso e mais prestável à face da terra. Riquíssimo, mas o mais despretensioso possível. Tornou-se como um irmão do meu Pai!
Ah! Os banhos de mar da Rosinha!
Era assim, era... Tinha um enorme medo de ser arrastada até à costa brasileira, e só confiava mesmo no meu Pai, que, é claro, nunca foi pessoa de pregar partidas ou de se distrair com uma onda gigante inesperada. Curiosamente não sabia nadar - só "boiar" - mas mergulhava no mar de Espinho, por mais altas e impetuosas que fossem as vagas, como um verdadeiro especialista, que até era. Vinha passar o verão a Espinho, já para a casa da R. 7, desde que nasceu, conhecia o mar como um autêntico espinhense.
Contava que, em novo, uma vez, nas marés vivas, o banheiro proibiu o mergulho a toda a gente, excepto a dois ou três, que considerou aptos a enfrentar aquele furioso oceano - um dos quais, evidentemente, o meu Pai...
E, depois da pequena Rosa Maria, os cuidados e os afectos transferiram-se, como seria de esperar, para o pequeno e irrequieto Guilherme!
Segunda-feira, 22 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Nó e Lé eram visitas assíduas, nas nossas férias espinhenses, às quais traziam grande animação.
O meu Pai encantava-se com as meninas. Possivelmente revivia os tempos idos em que a Lecas e eu eramos daquelas idades!
Umas autênticas netas!
Ele tinha uma bela voz e gostava muito de música. Elas eram um festival de música permanente. Sabiam sempre as canções da Eurovisão, de cor e salteadas. Para além de todas as canções tradicionais. Umas artistas!
Foram crescendo, as habilidades já eram outras, a relação e a conversação evoluiu, mas manteve a mesma força e afectividade.
Não sei se tinha a ver com o signo (Gémeos), ou com a sua muito própria idiossincrasia, mas o meu Pai sempre se sentiu particularmente bem entre os mais jovens e sempre foi extremamente popular entre os jovens.
E não porque fosse exuberante ou excêntrico - não era - mas porque "a corrente passava".
Tornou-se mais "moderno", mais atento à actualidade, à medida que os anos corriam. E, como diz a Lé, adorava conversar!
Lia muito, era um "viciado" em televisão. Nunca se deixou envelhecer. Só fisicamente, porque para isso, não há remédio. Mas andava bem, e muito.
De espírito, eu diria que rejuvenesceu, sem esforço. Tornou-se mais igual a si próprio.
Acho que mereceu partir sem ter conhecido o declínio. e a dependência. Não teria gostado de dar trabalho a ninguém.
Segunda-feira, 22 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Grande conversador - todos os que o conheceram estarão de acordo sobre isto.
Não obstante ser um pouco gago.
Ouvi contar que não era, inicialmente. Mas alguém, numa estúpida brincadeira o terá deixado só num barco à deriva, no rio Douro, e o susto foi tal, que o menino ficou a gaguejar.
Não sei se foi mesmo assim que as coisas se passaram. Certo é que não havia precedentes na família.
O problema acentuava-se quando estava mais nervoso. Era bem pior no tempo em que eu era criança e jovem. Depois, atenuou-se, a ponto de quase desaparecer na velhice.
Na altura em que éramos adolescentes, a Lecas e eu,não sei quem o convenceu de que a melhor terapia era ler em voz alta, em público. Desgraçadamente, o público alvo éramos nós!
Uma chatice!
O primeiro livro escolhido era um dos seus favorito, "Dom Camilo e o seu pequeno mundo". Eu também achava as histórias hilariantes, mas preferia lê-las directamente, sem a simpática mediação de um Pai gago...
Terça-feira, 23 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Os seus gostos literários eram muito variados - dos clássicos latinos aos inevitáveis Eça, Herculano ou Garret, aos brasileiros (Erico Veríssimo, Jorge Amado...), que a Mãe coleccionava, passando pelos humoristas como Guarescci e o seu Dom Camilo ou o Jerome K. Jerome, dos "três homens num bote (sem falar no cão)". Um livro que eu lia e relia, sempre rindo até às lágrimas.
Mas também se entretinha com os meus policiais...
Terça-feira, 23 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Já não tinha paciência para ler os policiais no original em inglês, essa língua que falava bem, quando jovem, e não podia aproveitar as muitas centenas de livros que eu trago, em quantidades industriais, das minhas viagens pelo mundo anglófono.
As traduções da "Vampiro" deixam, quase sempre, muito a desejar, mas eu descobri outras bem melhores da Gradiva e outras. Eram presentes que ele apreciava imenso. Era um leitor compulsivo.
Um dia atrevi-me a oferecer-lhe uma dessas belas traduções da minha escritora favorita - depois de Agatha Christie, que, por acaso o Pai não apreciava especialmente... - Sara Paretsky, convencida de que ele a acharia demasiado ousada~
Mas não! Disse-me: "Ela não é só uma grande escritora policial. É uma grande escritora".
Também acho.
Terça-feira, 23 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Outros escritores policiais, que ambos lemos, abundantemente: Ellery Queen e os infindáveis casos de "Perry Mason".
Terça-feira, 23 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Música, também gostava muito de música, tinha "bom ouvido" e cantava, com uma belíssima voz.
Não sei porquê - até porque cantava muitas vezes e com reportório variado, EM FESTAS, QUANDO ESTAVA PARTICULARMENTE BEM DISPOSTO, COMO ERA COSTUME ESTAR EM FESTAS - mas lembro-me sempre da sua interpretação de uma modinha brasileira que dizia, mais ou menos isto:
Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
Oh, abram alas,
Que eu quero passar
bla, bla, (quer dizer que me esqueci da estrofe...
Eu quero farrear!
Não sei se tinha a ver com o facto de a Mãe ser uma adepta declarada do amarelo.
Uma coisa que aprendi nesse tempo foi que os gagos não gaguejam a cantar!
À Mãe associo, os fados da Amália ("Confesso que te amei, confesso" e os outros todos), à Tia Lola a versão espanhola das canções da Amália ( Los Piconeros, Carmencita, Maria Dolores...), à Tia Lina "O luar do sertâo".
As três podiam ter feito carreira artística!
A Tia Lena não cantava, mas tocava piano. A Mãe também - com preferência por Chopin.
O Pai era o homem do violino - não no telhado, todavia. Não tão prendado como a mulher e as cunhadas, mas gostava do seu violino. Emprestou-o, um dia a um amigo do Tio Serafim, de Gondomar, e nunca mais o viu. Em compensação falava muito dele.
Para matar saudades, resolveu , num serão em casa da Meira, experimentar o violoncelo da Lisa, recém chegado de Londres. Partiu-lhe, de imediato, uma corda. Nunca o vi tão atrapalhado, apesar da Meira logo minimizar o desaire...
Quinta-feira, 25 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O Pai era, de facto, muito mais divertido em festas de família do que no cinzento quotidiano, nos dias em que, por dever de ofício, tinha de aturar, sei lá o quê e quem, no Grémio dos Ourives. Possivelmente, tudo corria "nos conformes", o Pai era competente e rigoroso - e a sua "second-in-command", a D. Corina senhora excepcional - mas dava para perceber que o Grémio não era uma festa...
Havia sempre problemas e complicações, que uma certa tendência do Pai para o pessimismo ampliava. Se neste particular tivesse saído a ele, a política teria sido, para mim, uma sucessão de ordálias germânicas, em vez de uma espécie de arraial minhoto, tão ao meu gosto.
O Pai, no dia a dia, se permitia, em abundância, café, imenso café, acompanhado de muitos cigarros, e alguns copos de água. Nada de vinho!
Porém em ambiente de animação e convívio social, gostava do seu whisky, do seu copo de bom tinto, do seu "champagne", e logo via os problemas todos sumirem no horizonte. Tornava-se o espírito e a alma da reunião!
A Mãe costumava dizer que só com um copo de vinho ele ficava "uma pessoa normal". Uma pessoa tipo Aguiar!
Quinta-feira, 25 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Normal, era a palavra, porque, na realidade, nunca exagerou.
Mas é verdade que todos os seus receios, cautelas excessivas e hesitações, desapareciam como por encanto ou magia.
Temia as velocidades, mas haviam de vê-lo, no trajecto de ida, vagarosamente, a queixar-se do mau estado da estrada, dos traiçoeiros buracos, um perigo para a barra da direcção ou as jantes, e, depois, no regresso, rápido e destro, driblando os buracos a 100km/hora!
Um ás!
Quinta-feira, 25 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Em 50 ou mais anos de condução nunca teve desastres a conduzir. Sinistrado só quando eram os outros os pilotos...
o mais espectacular aconteceu com o Tio Serafim, a caminho do estádio da Constituição. Ninguém mais se magoou, no despiste, contra um muro de Valbom. Só o Pai que encostou um braço estendido contra a porta, na eminência do choque, claro, partiu o braço. Foi para o hospital, onde lhe puseram um bizarro aparelho, sobre o qual estendia o braço, envolvido em ligaduras. Coisa volumosíssima!
O António Reis, que, por acaso o viu passar, quando estava na praça da Batalha foi informar, depois, os meus Avós, em Avintes: Vi o João passar num carro. Levava um grande ramo de flores brancas.
Quinta-feira, 25 Junho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Não havia dúvida que no hospital público o tinham tratado com a máxima incompetência. Cheio de dores o Pai resolveu recorrer`"à privada" - e lembrou-se de um amigo do colégio dos Carvalhos que era um dos mais famosos ortopedistas do país. O Dr. Abel Portal.
Hesitou um pouco, porque, no colégio se tinham zangado, ou o Abel se tinha zangado com ele e outros porque lhe tinham "assaltado" umas reservas de queijos que trazia de casa e guardava numa dispensa.
Quando o amigo o recebeu com um
grande abraço, percebeu que os seus receios eram infundados. As "partidas" de rapazes, à distância de anos, eram, afinal, um traço de união e uma divertida memória dos bons velhos tempos.
E o Dr. Portal foi, de facto, "the right man in the right place", in the right moment.
O braço estava uma desgraça. Teve de lho partir de novo, e de reconstruir o enfiamento dos ossos.
Dessa vez, o paciente chegou a casa engessado, como era devido, e sem dores.
Curou-se, no prazo normal, e ficou perfeito!
Conservo bem viva a recordação desses episódios, sobretudo da sua primeira chegada à casa da Pedreira, de braço estendido, sobre o volumoso suporte, a que as ligaduras davam a cor branca.
Aterradora imagem!
Com os meus 7 anos e o susto, chorei e rezei a todos os santos... E a Lecas, idem.
Segunda-feira, 06 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Não sei em que circunstâncias, muitos anos mais tarde, tinha eu vinte e poucos anos, partiu um pulso. Dessa vez rumou, de imediato, a S. João da Madeira, à "endireita de Cesar", que o tratou de uma forma impecável. Pouco tempo antes, uma mulher, que vinha a rolar subterraneamente no mar das marés vivas de Espinho, quando eu saltava, como deve ser, a uma onda alterosa, partira-me um dedo do pé.
Fui, primeiro, vítima de inépcia no hospital da terra, e recorri, depois, como toda a gente sensata, à tal senhora. Salvou-me!
O Pai, de início, muito contra essa saída dos roteiros "oficiais", converteu-se, e ele próprio a procurou para o tratar, nesse acidente. Em boa hora.
Segunda-feira, 06 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Terceira fractura muito tempo depois, já com 74 ou 75 anos. Dessa vez, a rótula. Em Gondomar, quando me dava instruções para arrumar o carro, perto de casa do Mário.TROPEÇOU NUMA PEDRINHA E CAÍU MAL.
Dizia o Tio David, como a minha Mãe lembra, agora, muitas vezes que os velhos tropeçam até numa folha de papel.
Foi mais ou menos isso que aconteceu naquela tarde.
Valeram-lhe o Mário e o Paulo, que o levaram logo para o Hospital de Santo António, onde foi muitíssimo bem tratado.
Apesar da idade, recuperou bem e rapidamente.
Ainda andou de canadianas,e, de seguida, de bengala, porque não dispensava as idas ao café...
E o gesso tornou-se popularíssimo entre a criançada. O Tózinho fartou-se de desenhar naquele atractivo material branco, com o Pai achar muita graça, como achava a tudo o que o menino fazia.
Segunda-feira, 06 Julho, 2009
Anónimo disse...
Maria Antónia Aguiar disse:
O que eu me ri,quando o joão partiu o pulso - isto é, antes de saber que ele tinha partido o pulso!
Tudo começou com uma grande guerra entre as cadelas, Mora e Endora, que já era habitual. Nós corríamos logo a separa-las e, na confusão, muitas vezes éramos mordidos, por engano. Costumava ser eu, a ir atrás delas. Nesse dia, o João antecipou-se, a persegui-las pelo comprido corredor fora. Mas não tinha já a minha agilidade e, lá no fundo, escorregou e bateu, em cheio, numa porta. Parecia um filme cómico.
O pior é que ele começou a gritar: parti o pulso!
Eu não acreditei, mas de facto, a
mão pendia. Bem insisti para que ele se esforçasse por levantar a mão, mas ele tinha razão. Lá fomos para S. João da Madeira, para a "endireita", que lhe pôs os ossos no sítio. Curou-se depressa e bem.
Morávamos, ainda, na rua 16.
Terça-feira, 07 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O Pai foi, fundamentalmente, um homem saudável, com algumas excepções. E refiro-me às 3 fracturas, a duas operações, afinal, reduzidas a uma, e a um internamento nos cuidados intensivos, depois de uma crise cardíaca- esta grave, e, à distância de meia dúzia de anos, mesmo fatal...
O episódio mais feliz é o da cirurgia que não aconteceu. A uma fístula. É coisa dolorosa, e o Pai hesitou, adiou, adiou, mas, finalmente, aceitou submeter-se ao bisturi.
Foi internado e, antes de ir para a sala de operações, o médico foi fazer-lhe um último exame e... não via fístula nenhuma!
Fístula procura-se!
Mais exames confirmam o sumiço, na hora certa. Valeu a pena hesitar e retardar. Um "wait and see", providencial.
Terça-feira, 07 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
A operação inevitável e inevitada foi, já acima dos 70, à próstata, no, então, simpático e pequeno hospital de Espinho. Correu muito bem, com algum inevitável e inevitado sofrimento, e foi, sobretudo, um grande acontecimento social! Deste ponto de vista, um momento positivamente memorável.
Era director do Hospital o nosso amigo Dr. Fael, e médico cardiologista, o amigo de infância, Dr. Henrique Estima. Apareciam lá, conversavam. Vinham imensos amigos comuns, de Espinho, família e mais família. Não havia um momento de ócio, durante o dia. Á noite, via televisão, num pequeno aparelho emprestado, muito adequado, pelo Senhor Vitó.
Nem foi preciso compra-lo, na Casa Vitó - o que eu me aprontava para fazer, naturalmente. São alturas em que os Pais apreciam um presentinho.
O quarto particular era simples, mas acolhedor - "cozy".
O Pai esquecia-se de ter dores, a maior parte do tempo.
Aliás, não era homem para se queixar. Um pouco pessimista noutros campos, mas não em questões de saúde.
Terça-feira, 07 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Eu não sou somente a única do quarteto familiar que não sabe cantar - como já disse, Mãe e Pai tinham vozes lindas, afinadíssimas e a Lecas, nem se fale. Era um espanto, podia ter pisado tido sucesso em qualquer palco...Eu cheguei a fazer parte de unm coro do colégio, com a intervenção amiga de uma freirinha, com a condição de "fazer de conta" que cantava, mas sem soltar som algum...
O mesmo se diga, no dominio da moda: todos, menos eu, faziam questão de vestir bem e só coisas boas. A Lecas e a Mãe, muito visível ou ostensivamente - o Pai na versão discreta, mas nem por isso menos exigente.
Sapatos do (amigo) Danilo, de Santa Catarina, ou da Gonçalves, em Santo António. Fatos feitos por medida no Arménio, que, nos últimos tempos, já só trabalhava para meia dúzia de antigos clientes. Gravatas de seda italiana. Bons perfumes, embora sem fixação num determinado, Isqueiro Ronson, de ouro - oferta minha - que, porém, não podia usar no dia a dia, tal como as canetas de ouro, porque era muito distraído, e perdia tudo, de guarda-chuvas a canetas ou isqueiros.
Uma vez até me perdeu, na praia, o Sr, Pickwick, na versão portuguesa.
Terça-feira, 07 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Quero dizer, o Sr. Pickwick de Charles Dickens. Fiquei furiosa, e fui comprar o original inglês.
Mas, aí, não sou assim tão diferente do Pai - também perco canetas, etc. etc. e nunca sei onde tenho nada, nem sequer os meus papéis. Em sítio certo, só mesmo o IRS.
Terça-feira, 07 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Quando chego, ainda hoje, à estação de Espinho, sinto-me, especialmente, orfã. É que o Pai estava sempre, sempre, à minha espera, no cais. Mesmo quando o comboio vinha atrasado e ainda não havia telemóvel, para prevenir. Chego cá e continuo a vê-lo, sorridente, numa plataforma.
Um espinhense, em Espinho, aguardando a viajante compulsiva.
Pronto a comentar os últimos desenvolvimentos da vida política. Mais bem informado do que eu.
Terça-feira, 07 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Voltemos aos tempos do João Moreira menino e moço - o que não é possível na vida, mas fácil no vai-vem da memória.
Sei que nasceu numa casa do Outeiro, onde os Avós, então, moravam. Não sei qual, ou sequer se ainda existe. Nunca tivemos a curiosidade de querer conhece-la. Uma pena!...
Creio que era arrendada, e os Avós compraram, pouco depois, a casa da Rua 5 de Outubro, uma das primeiras que encontra, numa subida íngreme, quem vem do Porto. ou de Oliveira do Douro, pela estrada antiga.
Ao lado, numa quinta, com frente para a primeira transversal da 5 de Outubro, à direita, vivia uma família, que se tornou família, para o Pai. O Coronel Novais e Silva, mulher e dois filhos, Maria Beatriz e António Júlio. Ela um pouco mais velha, ele um pouco mais novo do que o Joãozinho. Companheiros constantes de brincadeira, quase irmãos! Uma sorte para aquele filho único...
O terreno dos Avós, com muro alto para a rua, e perfeitamente rectangular e plano, estava separado da quinta por um declive de 6 ou 7 metros, em quase toda a extensão do rectângulo, salvo os últimos metros, em que a divisória era um outro muro alto. Porém, facilmente transposto por escadas de madeira, encostadas de ambas as bandas, em simetria.
Mesmo depois de terem ido para o Porto, muitos anos mais tarde, e de terem vendido a quinta a um casal do Minho, nunca as escadinhas foram retiradas. Contudo, eu não conheci esses outros vizinhos, também bons amigos dos Avós. Ele, o vizinho, morreu e a viúva foi viver com uns sobrinhos. Sempre conheci o casarão vazio. Ìamos lá quando queríamos - era uma extensão de jardim para as nossas aventuras, com os seus caminhos que desciam e subiam abruptamente. Bonito! Não sei porque razão os Avós não a quiseram comprar. Era o que eu teria feito. De qualquer modo, tomavam conta dela - e, em retribuição, podiam naturalmente utilizá-la em festas, quando quisessem. Foi lá que se fizeram as festas da comunhão da Lecas, e a minha.
No dia a dia, porém, a casa não nos interessava nada. O mirante, e o grande tanque de água puríssima, sim!
Imagino que o Pai e os amigos correriam, como nós, pela mesmas escadas e veredas. Em muitas décadas, nada, ali, mudou.
As pessoas felizes não têm história.
E, como a relação entre os meninos, nesses anos 20 e 30, era perfeita, não há grandes episódios, que tenham ficado para recordar.
Mas já há histórias divertidas, passadas com o Coronel, que era severo, e tratava o meu Pai, tal como se fosse um dos dele, pondo-o na ordem (mais ou menos militarizada...) - e, às vezes, muito nervoso.
Vou conta-las amanha, porque hoje já é tarde.
Perdi demasiado tempo com a "contextualização"...
Quarta-feira, 08 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O Pai contava as histórias com muita graça e inúmeros pormenores.
Eu só recordo que essas narrativas nos divertiam, e que as ouvi várias vezes, em benefício de diferentes audiências, mas detalhes não é comigo...
Ainda por cima, estou a lembrar-me apenas deduas, ambas ocorridas numa fase mais tardia, quando o Coronel já morava no Porto, e o Pai ía de visita, almoçar ou jantar.
Um dia, logo à entrada, confundiu os presentes e começou por cumprimentar a criada, com um aperto de mão. Hoje, suponho, isso nem chocariam, mas, na altura era uma suprema "gaffe"...
Uma outra, ainda agora é - e sempre será... - uma terrível infelicidade, um acidente arrepiante. Quando espetou, energicamente, o garfo numa azeitona, ela voou para o centro da mesa.
Acrescento uma terceira, que se passou com o António (Reis), o primo direito super distraído, e tinha uma ínfima possibilidade de acontecer com o Pai. Não fazia o seu género.
Foi um telefonema do António para o Coronel.Falou disto e daquilo, perguntou pela saúde de todos os Novais e Silva, e preparava-se para continuar, já um pouco à procura de assunto, quando o coronel lhe perguntou, também, pela família.
"Estão todos muito bem, todos óptimos!", respondia o António.
E o Coronel, habituado a ir direito aos assuntos, perguntou-lhe a razão do telefonema. Ao que o António, enfim, "focalizado", como agora se diz, informou:
"Venho dizer ao Senhor Coronel que morreu a minha Avó".
Domingo, 12 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Com o António Júlio, que também atigiu, cedo, o posto de coronel - e que foi, antes do 25 de Abril,. Governador Militar de Lisboa - o Pai manteve contacto e grande amizade até ao fim da vida.
A última vez que se encontraram, terá sido em Espinho, na Páscoa de 2008. Foi, pelo menos, a última em que estive presente, e até lhes tirei umas belas fotografias, na esplanada do café Palácio. ao Pai, António Júlio e Mulher, Gladys - uma "inglesa" (ou portuguesa de ascendência inglesa, daqueles ingleses vindos para cultivar e exportar o nosso "port wine" - muito simpática, por sinal)com quem casou, já não muito novo, mas a tempo de terem 3 ou 4 filhos.
Eu fui mantendo correspondência com o Coronel, ao menos pelo Natal. Gostava dele, e o passado, a ligação "fraterna" com o Pai, fazia dele uma espécie de Tio. A ausência de resposta, desde há alguns anos, leva-me a pensar que já não estará por cá. Nem ouso perguntar...
Domingo, 12 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Os amigos do Pai, aqueles com quem ele mantinha contacto, eram todos muito simpáticos. Dava-me esplendidamente com eles, e eles comigo. Mesmo quando eram de outros quadrantes ideológicos - e muitos eram, em regra, mais à direita - passavam o tempo a discutir política comigo, mesmo antes de eu ter sido aliciada para uma vida de confusão e agitação em governos e coisas aparentadas. Em boa verdade, eu até achava a política mais interessante de fora, do que de dentro... Alguns deles eram treinadores de bancada, neste particular domínio. Caso do meu Pai, sempre mais actualizado do que eu, sempre interessadíssimo na evolução dos acontecimentos, quando ela era vertiginosa, depois do 25 de Abril, e quando o ritmo abrandou.Mas outros tinham feito política no ancien régime - um deputado da ANP, o responsável da UN em Gaia. Ambos "gente boa"! Há gente boa à direita, como à esquerda.
Muitas vezes estive horas a conversar numa mesa de café, em que era a única mulher.
O Pai era um "habitué" de cafés, como espaço-tertúlia, mas também como bebida.
Pois é - cafézinhos fortes e cigarros, fortes também, eram os seus únicos vícios. Exagerava! Mais valia dosear por outros pecadilhos ...
Segunda-feira, 13 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O antigo deputado, o advogado Dr.Homem Ferreira era muito sereno e tinha sentido de humor. Contava sempre histórias da política com graça e um certo distanciamento. Era tudo menos um fanático.
O antigo dirigente da UN, o Dr. Ramos Pereira, era outro político, e, depois, ex-político, que convivia bem em debate de ideias, por diferentes que fossem. Também não era muito prosélito. Podia até achar que o interlocutor estava errado, ou era pouco esclarecido, para não dizer pior, mas não ía dizer.lho na cara, e "comprar uma briga", Era dem educado e civilizadao - e, igualmente, muito trocista. Às vezes, até me fazia lembrar o Tio Manuel, em versão muito mais branda.
Por acaso, ele e o Tio( um verdadeiro esquerdista, comparativamente) eram amigos.
Fomos, muitas vezes, a casa do dr Ramos Pereira nos Carvalhos. A mulher, a Misinha, era uma simpatia. Discutia política mais energicamente do que o marido, sobretudo depois do 25 de Abril. Nessa altura, o tema era "incontornável", fazia parte da nossa vida quotidiana. Agora, já não...
Outro amigo encantador era o Dr António Mendes, médico e um "histórico" do PPD. Creio que foi o 1º ou dos 1ºs presidentes do partido em Espinho. Com esse,a s gargalhadas eram obrigatórias, irresistível e constantemente.
Anos mais tarde, a morte de dois dos nove filhos, tirou~lhe essa alegria tão espontânea.
Muito, muito divertido, outro médico (também colega do Colégio dos Carvalhos): o Dr. Angelo Vieira Araújo. Poeta, compositor e cantor de alguns dos mais belo fados de Coimbra de todos os tempos. Um perfeito coimbrão!
Segunda-feira, 13 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O Dr Homem Ferreira e o Dr Vieira Araújo eram veraneantes em Espinho, com segundas casas aqui, ou aqui perto.
O Dr Mendes, o Dr Estima, o Sr. Ferrer, o mais jovem Sá Couto (cuja opinião o Pai tinha em alta conta!) eram residentes na cidade, faziam parte da tertúlia que reunia quotidianamente.
O Dr. Ramos Pereira era assíduo. No verão, tinha casa na Rua 8, mas, ao longo do ano, estava perto e ía aparecendo, com regularidade. Não faltava aos fins-de-semana!
O grupo dos fins-de-semana incluía, também o Dr. Fael (com a mulher, Maria Fael, que, tal como a Misinha, era muito divertida e se dava, optimamente, com a Mãe).
Se falo nestes amigos, nesta convivência, é porque marcaram a vida do Pai - ou dos Pais - foram parte do encanto ou da magia de Espinho, justificaram a escolha que tinham feito por esta terra de encontros, de cafés, de esplanadas, de ar livre e maresia.
Claro, à maneira tradicional portuguesa, era frequente os homens ocuparem uma mesa de café ao lado daquela em que as senhoras falavam de outras coisas - e, às vezes, até não, porque, no "verão quente" de 1975, por exemplo, eu fazia os meus vaticínio, sucessivamente, em cada uma das mesas.
Mas convém não exagerara a imagem lusa de apartheid de sexo. Estávamos no norte de Portugal, não num emirato do Golfo... Todos se davam bem, e, em certas alturas constituíam grupos mistos, sobretudo se eram só 2 ou 3 casais.
Em grande número, a tendência era para o "alinhamento de género"...
A Mãe com a Dona Mimi Ferrer, a Dona Suzete Estima, a Misinha, a Maria Fael e a irmã. Anos antes, nas décadas 50 e 60, também com a Dona Arlete Gayoso, a Dona Fernanda Guedes, mãe da Graça, a Milé e a avó, a Maria José Lencastre...
Gente que, a mim, me faz muita falta. Sem eles, sem elas, Espinho perdeu grande parte do seu encanto (nostálgico).
Agora, quase não vou aos cafés. Excepto, de passagem, quando as primas e os primos se reunem na "Latina", depois que "O nosso Café" fechou as portas.
Falei do círculo de amigos - dos principais, embora houvesse outros, pois a lista não é completa - mas a família estava, também, muito presente, para felicidade dos meus pais e sua filha.
Aos fins-de-semana, o normal seria estar com os amigos de manhã e receber os parentes à tarde.
O Mário, a Meira, o Tónio, a Xaninha, com os meninos. A Tia Lena e o Tio David, o Tio Serafim. O Tio Tónio, que acabou por se converter a Espinho, e comprou uma casa, mesmo à beira-mar.Tia Lola. Tio Zé, quando vinha de visita, das Américas, Amélia e António, idem, do Canadá. Tia Francisca Reis e Mª Angélica, também fãs de Espinho, no verão.
A Tia Lena e Tio David vinham de férias, em Agosto, anos a fio. A Meira e o Mário, também.
Quando comprei um andar na Rua 7, eram meus convidados.
Os meninos do Tónio sempre vieram passar, pelo menos, alguns dias.
Oh! Bons tempos. Boa companhia!
Terça-feira, 14 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Nos últimos anos de vida do Pai, os meus convidados de Agosto eram a Nónó, o Helder, e, desde 1992, o Tózinho.
Um mês em cheio, para o Pai!
Para além do mais - a grande amizade, nomeadamente - O Pai adorava conversar com o Hélder, horas e horas. Era uma daquelas pessoas, com as quais se dava "como Deus com os anjos".
Terça-feira, 14 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Memoráveis, durante um largo período, por essa altura em que por cá passavam um mês de férias, para além de umas tardes de sábado, os lanches, com "joaquinzinhos" fritos e "champagne" - exótica combinação, inventada pela mãe e muito apreciada pelos meus primos (ou sobrinhos dela).
Mais tarde, o convívio das tardes de sábado, que deliciava o pai, transitou, geograficamente, para Gondomar, com os mesmos protagonistas. Sem "joaquinzinhos", mas com coisas, certamente, melhores - a Meira podia dar aulas de culinária, em grande estilo (e, em casa, "fez escola"!).
Terça-feira, 14 Julho, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Já falei da peregrinação a Fátima, com a Meira e família - dezenas de alegres peregrinos, pois se trata, como os Aguiares, de família enorme e muito unida, para além de ser muito divertida - dias muito felizes para os Pais.
Nesta 3ª idade, a única outra excursão em que se envolviam era a ida a Chaves, com o Tio David e com a Tia Lena. Para as termas. Isto é, os Tios faziam tratamento de águas e os Pais "faziam companhia". Divertiam-se imenso, excursionavam por Espanha, frequentavam os óptimos restaurantes, gostavam do hotel, aproveitavam para ir a compras no comércio local...
Terça-feira, 14 Julho, 2009
Anónimo disse...
Maria Antónia disse:
Foram viagens inesquecíveis, essas de Fátima, com a Meira e o Mário. Todos os anos!
Eramos muitos, e havia tempo para tudo, para as missas e orações, com o Padre Carlos,para os passeios , para as tais compras - como os lenços de seda dos padres italianos - para os espectáculos de teatro, encenados pela Nita, para conversarmos e para descansarmos.
Domingo, 09 Agosto, 2009
Anónimo disse...
Manuela disse:
Naquele dia de Páscoa, em que morreu, ao jantar, tínhamos estado a tarde toda em casa do Mário, em Gondomar.
A peregrinação a Fátima era uns dias depois. Lembro-me de que o Pai estava preocupado. Já não se sentia muito à vontade para conduzir, e receava desencontrar-se com o resto do grupo. A maioria, para simplificar, seguia num autocarro alugado pela família, mas o Pai gostava de levar o carro. Passei o tempo a tranquilizá-lo. Acho que pensava lá ir e trazer, eu, o carro de volta. E, na ida, o Paulo esperava-o não sei em que estação de serviço...
Estava tudo pronto para a viagem que não faria.
Domingo, 09 Agosto, 2009
Anónimo disse...
Docas disse: O tio João fez os versos que recitei na minha primeira comunhão, na igreja da Freixeida na minha primeira comunhão. Todas as tardes, a minha Mãe chamava-me, para durante algum tempo eu ensaiar e decorar os versos ditos sem gaguejar e segundo a opinião dos tios, declamados com muito sentimento:
I - Nossa Senhora, vestida
de branco, no nosso altar.
Aos vossos pés, brancas flores
Vimos hoje desfolhar.
II - Brancas como as nossas almas.
Que vos vamos ofertar
Tão puras que vão, Senhora,
Vosso Filho comungar.
III - Cobri-as com vosso manto
feito de Sol e Luar
Dos caminhos da Virtude
Não as deixeis transviar
IV - E a esta Terra que é vossa
E também o nosso lar
Abençoai-os, Senhora,
Sem nunca as desamparar
V - Por vosso Filho, Jesus,
Que morreu por nos amar
Brancas flores - as nossas almas -
Não deixeis de as cuidar.
VI - Olhai por elas, oh Mãe!
Não venha ninguém roubar
O Tesouro da brancura
Onde Jesus vai morar.
Freixeida, 1954
Lembro-me que o tio João, achava muita graça, quando eu dizia: "oh Mãe!". Era exactamente o mesmo tom com que chamava a minha Mãe, no dia-a-dia, segundo o comentário do tio João. Provavelmente, também, porque eu era uma das suas sobrinhas predilectas...
A comunhão solene (minha, do Nestó e de todas as crianças da aldeia, foi uma grande festa - a primeira e única que se realizou na Freixeda. Um grande acontecimento!
Toda a família e amigos mais próximos se deslocaram à Freixeda nessa dia. O tio João, tia Mariazinha, Manuela e Lecas, ainda ficaram mais alguns dias em nossa casa, de férias. Uma grande alegria! Demos grandes passeios no jipe da mina, pelos arredores. Tomávamos banho no rio Tua, em Frechas. Era Verão - andávamos à vontade pelos montes, com grande preocupação da tia Mariazinha, não fosse cairmos nalgum poço. Sempre que saíamos de casa, ela gritava: levem um casaco que pode fazer frio.
O tio João ficava sempre muito preocupado, quando o meu Pai se perdia naqueles caminhos e depois ia à sorte: Meninos, viramos à esquerda, ou à direita? E nós, contentes, respondíamos também à sorte! Esta descontracção não fazia, propriamente, o género do tio João...
Segunda-feira, 10 Agosto, 2009
Anónimo disse...
Docas disse: Quando vinha a Espinho, de férias, ia muitas vezes ao café com o tio João. Gostava muito de tomar vários cafés, durante o dia.
Sempre muito gentil, com um sorriso amável e, aparentemente, muito calmo.
Quando estavamos dentro de casa, a tia não deixava ninguém fumar na sala. E nós, os dois, lá iamos para o jardim fumar o nosso cigarrito, quer fizesse frio ou calor, chuva ou sol...
A tia protestava muito com ele, mas o tio João achava-lhe graça - sempre o vi encolher os ombros e sorrir, perante os "desatinos" da tia. A tia Mariazinha, também devia saber que o tio João, encarava os seus disparates com ternura e o tio João percebia que a maior parte das vezes não era para a levar a sério... Um casal que se entendia bem, apesar de todos os altos e baixos da vida!
Segunda-feira, 10 Agosto, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Foram férias absolutamente maravilhosas, essas da Freixêda-54.
Uma das excursões mais repetidas era para a nossa "praia" privativa no rio Tua. Um lugar lindo, pouco frequentado, excepto por nós, e muito seguro para desportos - natação e pesca.
Aí aprendi a nadar!
O meu Pai e a Lecas, não!
Eram iguais: sabiam boiar, mas, ao menor movimento de pés ou braços, afundavam...
Pescar, não consegui, nem com muito isco. O Nestó lançava a cana, mesmo sem nada, para atrair os peixinhos e trazia logo um pequeno ou grande, dependurado...
Há uma bela fotografia do meu Pai, junto aos palheiros, que ficavam perto da casa dos Tios, mas não no rio. Aí o fotógrafo era sempre ele.
Segunda-feira, 10 Agosto, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Tudo é bom para lembrar o Pai, nestes dias ou noites do ano a que damos um significado especial.
Hoje foi a propósito das batatas que acompanham o inevitável bacalhau. Batatas cozidas em demasia, "à la Olívia Pecegueiro"...
Eu até gosto, mas o Pai detestava.
Considerava esse deslize culinário como uma espécie de "ofensa pessoal", no dizer da Mãe. Em quase tudo o resto era bem mais transigente!
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Foi numa festa, mas talvez não num revéillon ( e daí não sei - talvez sim...) que se passou aquele episódio que o Pai contava com muita graça.
Não esperem que eu me lembre dos pormenores!
Indo aos "finalmente":
Era uma festa em Oliveira do Douro, nos tempos em que o Pai ainda era estudante no Colégio dos Carvalhos e tinha por ali bastantes amigos. Convidaram-no a acompanhá-los, e o João Moreira não recusou. Quando chega à entrada do salão depara com este aviso afixado da forma mais visível
PEDE-SE ÀS EXCELENTÍSSIMAS DAMAS PARA VIREM CALÇADAS
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Recordo-me de outra festa, mas esta de alto nível, ainda que com poucas damas ( elegantemente calçadas, claro, sem precisão de incitamento).
A festa do centenário do FCP, celebrada no pavilhão das Antas. Na qualidade não tanto de portista - que essa não dá direito a estes convires... - mas de Vice - Presidente da Assembleia da República, ou coisa semelhante, estive presente e até me coube a honra de partir o bolo.
Presidia à comemoração O PR General Ramalho Eanes. À despedida apresentei-lhe o Pai, que não era propriamente "Eanista", mas que, como é natural, cumprimentava de bom grado um PR.
Diz-lhe o General:
Aprecio muito a sua filha. É das poucas pessoas que está na política para trabalhar!
Desde essa hora o Pai converteu-se ao "Eanismo". Eu já estava convertida, se não ao Eanismo a Eanas, como pessoa. Mas fiquei ainda mais!
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Outro encontro com uma personalidade política relevante, que encantou o Pai, aconteceu num comício do PSD no Pavilhão do Académico do Porto. A personalidade era o Doutor Mota Pinto.
Esse disse-lhe, simplesmente, com um grande sorriso:
Então é o Pai da nossa Manelinha?
O Pai ficou rendido!
E o que tem mais graça é que o Doutor Mota Pinto nunca me chamava "Manelinha", mas Manuela, como toda a gente. Foi uma maneira simpática e significativa de expressar a proximidade.
Do que o Doutor Mota Pinto era muito capaz e a maioria dos políticos definitivamente não é - porque são postiços, oportunistas e pouco se preocupam com as pessoas. A amizade genuína raras vezes entra no terreno da política.
MP foi, de resto, de todos os que conheci, a maior excepção a essa regra.
Alguém, um dia, avançou com um slogan sobre ele, nestes termos:
Mota Pinto, o homem que é bom conhecer de perto.
Concordo!
A última vez que o vi, talvez 2 semanas antes da sua morte, foi no casino de Espinho. Jantámos , em pequeno grupo, com ele e a Maria Fernanda (os pais e eu, a Mª Luisa e não sei quem mais).
Foi divertidíssimo!
A Mãe disse aquelas frases radicais que costuma dizer, e o Doutor Mota Pinto comentou:
"Agora já sei a quem sai a Manelinha!".
De novo "Manelinha" - diminutivo reservada só para a conversa com os meus pais...
Mais tarde, a Mãe, que o adorou e ficou chocadíssima com a sua morte súbita, confessou que, para evitar esse desgosto, até preferia não o ter encontrado naquele convívio inesquecível. E último...
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Por falar em catedráticos de Coimbra:
O sonho do meu Pai era que eu me doutorasse. E mal ele sabia que quem mais me encorajou nessa senda foi precisamente o Doutor Mota Pinto, nos tempos em que eu era assistente da Faculdade de Direito.
"Não custa nada. É só tirar um bocadinho, todos os dias ao convívio com os amigos",
No caso dele assim foi, mas ele era um génio, e eu não.
E não cumpri o sonho do Pai...
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Grande desilusão constituiu para o pai a apresentação a Cavaco, à saída de um almoço do PSD naquele restaurante à beira-mar onde foi a festa de casamento do Carlos e da Bela (anos mais tarde!).
O Prof. limitou-se a um aperto de mão e um seco "muito gosto"...
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
Os Pais também conhecera, no jantar de gala da inauguração do Hotel Solverde, o PR Mário Soares. Sei que gostaram dele, mas não recordo a conversa. Acho que nem fui eu que fiz as apresentações.
Noite memorávavel!
Com muitos episódios delirantes -
o mais engraçado de todos foi a Mãe e a Dona Suzete terem visto e chamado a nossa atenção para os dois amigos de infância estarem sentados num sofá, de perna cruzada, a mostrar meias e sapetos, com os quais havia coisa errada. O Pai exibia sapatos castanhos, em vez de pretos, como convinha, a condizer com o fato. E o Doutor Estima tinha um enorme buraco nas finíssimas peúgas de seda negra! Parece que os estou a ver, completamente absorvidos em animada conversa e alheados da nossa presença e das nossas gargalhadas.
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O Pai reencontrou, assim, em Espinho o seu mais antigo amigo de infância. Muitas tardes divertidas passamos na sua bela mansão da Rua 28.
Espinho, para onde o pai vinha, no verão, desde que nasceu.
Passava horas sem fim na areia, ao sol, na esperança de ficar moreno.
Mas não!
A cara tornava-se cada vez mais britanicamente vermelha, assim como o peito - mas as pernas permaneciam de um branco imaculado!
Do início ao fim da época de praia.
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O pai faz-me muita falta, e dele me lembro constantemente.
Era, também, um bom companheiro.
Agora não tenho que me emende a pontuação nos textos...
Uma vez, até escrevemos um artigo a meias, sobre as maravilhas da ourivesaria, sobre a filigrana de Gondomar, para uma revista sobre o Portugal turístico e cultural.
Vou procurar esse nosso escrito...
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
E os versos que o Pai fez para a campanha do Freitas do Amaral?
Belo slogan!
Vou procura-los, também.
Quinta-feira, 31 Dezembro, 2009
Maria Manuela Aguiar disse...
O Pai e eu chegamos a ser "colegas de curso" no Instituto de Estudos Sociais.
Começava ele, aos 46 anos, a série de graus académicos que conseguiu e estava eu no 4º ano de direito, em Coimbra. Decidi fazer sociologia "a latere", como voluntária, em Lisboa. Tinha equivalências nas cadeiras jurídicas e ainda concluí, com sucesso, dois ou três cadeiras. Mas desisti, porque o 4º ano era demasiado absorvente e dei-lhe toda a prioridade. O Pai continuou, vitoriosamente!
Quando, depois de acabado Direito, me ofereceram emprego em Lisboa (por sinal, através do Secretário- Geral do Instituto, isto é, através do pai, indirectamente), ele presseguia os estudos. Depois do bacharelato em administração de empresas, a licenciatura em sociologia...
Muitos dos meus colegas do Centro de Estudos ou amigos foram seus professores. Um deles era o marido da Branca, o doutor Pinto Coelho do Amaral. Especialista de Fiscal, muito inteligente e com um sentido de humor mordaz. Quando, a certa altura, me encontrou no átrio do "Instituto", à procura de indicação sobre as notas de um exame do Pai, saíu-se com esta tirada:
Então agora está convertida em "encarregada de educação" do seu Pai?
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Um dos maiores insucessos foi provocado por um mau conselho que o Manel e eu lhe demos.
O Manel, para aguentar a época de exames, depois de um anos de boémia coimbrã tomava doses e doses de anfetaminas. Coisa muito vulgar, entre estudantes desse tempo. Comprava-se nas farmácias, nuns pequenos tubos verdes. Era, de qualquer modo, uma espécie de "doping"... O Manel resistiu a altas dosagens, ano após ano.
Até eu experimentei tomar meio comprimido - mínimo dos mínimos! - antes do exame de Finanças, com o Teixeira Ribeiro e fiquei uma super aluna, com a memória potenciada não sei quantas vezes. Até visualizava páginas inteiras da sebenta.
Um milagre prodigioso, incrível!
O pior é que, depois,andei 2 ou 3 dias com imensas dores de cabeça. Não fiquei cliente. Usei só em mais 1 ou 2 exames, daqueles em que me sentia particularmente inferiorizada - já não me lembro quais. Não aguentava, enquanto o Manel e muitos outros, sim, consumiam tubos e tubos das minúsculas mas mortíferas pílulas, que só não resolviam o problema das matérias que os cábulas não tinham mesmo estudado, de todo.
Entusiasmado com os relatos de tais performances, resolve o pai experimentar e remédio. O Manel providencia, ele engole uma única pílula e lá vai para a sala de aula.
Um desastre!
Não conseguia sequer ler as perguntas. Vía as linhas todas a fugir, e em duplicado. Tentava fechar um olho e olhar só com o outro. Continuava a ver linhas a dobrar. Desistiu, ao fim de algum tempo e nunca mais repetiu a dose!
Nunca tínhamos tido notícia de semelhante reacção entre a população estudantil de Coimbra. Seria uma questão de idade, que era o dobro da nossa?
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
O Pai ía muitas vezes a aulas intensivas de fim de semana, destinadas aos alunos voluntários do Porto, que eram dezenas. Por vezes de carro. Noutras, enchiam uma camionete e vinham em excursão com as mulheres, caso da Mãe e outras. Davam-se todos muito bem, entre eles, quase todos trintões ou quarentões, e com os jovens de Lisboa. Foram tempos felizes, embora muito trabalhosos, porque o cs cursos eram "puxados", nomeadamente o último, no ISCTE.
Teve excelentes e exigentes mestres. O seu preferido era o Vasco Pulido Valente. Dava aulas brilhantíssimas, segundo ele. Fascinante! Imagino - ainda agora gosto de o ouvir, ou ler.
O Pai foi um precursor - agora o Tó, o Carlos e o João Miguel, também já na casa dos 40, seguem o exemplo, com a suas licenciaturas tiradas com a mesma tenacidade.
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Logo depois do 25 de Abril de 74, uma vez, o Pai foi de carro, sozinho e regressou comigo. Fomos prevenidos de que havia tumultos em Leiria e que a estrada estava cortada.
Muni-me de um mapa, a estudar alternativas. Por exemplo, por Tomar, pelo interior. Era um desvio incómodo...
De comum acordo, resolvemos prosseguir, até vermos a estrada efectivamente bloqueada. Nessa altura, esperavamos poder dar meia volta e procurar, pelo litoral ou interior, a alternativa "B" ou "C", porque ainda não havia auto-estradas, das quais não a saída quase nunca é fácil.
Fomos andando, andando, em perfeita normalidade. Assim chegámos a Leiria, atravessamos a cidade, calma e tranquila, rumámos a norte e até Espinho viemos sem o menor problema de trânsito, ou outro. Nada de especial!
Mistério...
Soubemos, depois, pela tv, que os graves incidentes tiveram fim imediato logo que a sede do PCP, que estava situada, com a cidade inteira em pé de guerra, foi incendiada.
Atingido o objectivo, foram todos para casa - incluindo os foragidos comunistas, suponho. Não houve mortos nem feridos, mas a sede do PC leiriense desapareceu do mapa.
Não foi um caso isolado, mas foi paradigmático...
Que viagem, à aventura, sem nada de aventuroso acontecer!
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Quando o Pai começou a perder muito cabelo, decidiu cortá-lo rente, o que lhe dava um ar definitivamente militar.
Quando o Manel estava na tropa, como miliciano, e o Pai entrava no quartel, para o ir buscar, ou quando ía com ele para meter gasolina no carro, faziam-lhe sempre a continência!
Por acaso, ele nunca fez sequer o serviço militar, mas que tinha ar de coronel, como o seu amigo de infância António Júlio (que chegou a essa patente e foi governador militar de Lisboa), lá isso tinha!
Dava um belo militar de alta patente - num filme ou telenovela...
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Em boa verdade, entendia-me muito melhor com o Pai na idade adulta do que na adolescência.
Ele era, nesses tempos mais recuados, dado a temores e a falta de suficiente confiança das filhas - ou super protector, ou o que queiram... Nós achavamos que ele não tinha motivos para isso!
Um dos momentos em que ficou furioso comigo, foi quando eu, nas férias em Espinho, em 58, interpelei uma colega que considerava responsável pela perseguição que uma facção das freiras me moveu. Intrigas, ditos, informações "pidescas" passavam por ela - a única a quem eu tinha contado, mais ou menos de propósito, determinados factos, testando os canais de circulação de informação interna... Isso mesmo lhe disse, em forma silogística, terminando por lhe dar uma bofetada, que saíu com força excessiva e lhe causou um hematoma... Queixou-se ao pai, que veio pedir satisfações ao meu pai.
Felizmente, com a conivência da mãe, já eu estava "refugiada" em casa dos Pachecos em Miramar e assim escapei às reprimendas.
Por essa altura, o Pai encontrou no Porto o Padre Leão e contou-lhe o sucedido, com o seu ar compungido.
O Padre Leão, que ainda não estava a par da notícia, mas que sabia bem demais como as coisas funcionavam com os tais "clãs" pouco respeitáveis de respeitáveis Doroteias, para surpresa do meu pai, com uma grande gargalhada e disse-lhe:
"Fez ela muito bem! Em vez de uma bofetada devia ter dado duas!"
Depois desta conversa o Pai nem se atreveu a falar-me do caso.
Ou seja, nunca chegou a abordá-lo comigo...
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Sempre considerei o Padre Leão um Homem extraordinário - culto, discreto, compreensivo, pouco complacente com os excessos e irrealismos de algumas freiras ( a quem não dava confiança e impunha respeito...), rápido e interessante nas homilias e nas missas, mesmo nas missas solenes, que duravam metade do tempo habitual.
Um fora de série!
Foi muito nosso amigo - conselheiro tanto nos aspectos religiosos e morais, como em questões de administração de bens.
A missa de 7º dia que celebrou na capelinha de Espinho foi a única realmente dedicada ao Pai, no sentido de lhe render homenagem, de pôr em destaque a sua personalidade.
Fez-lhe o elogio em dois minutos e disse o essencial: falou, por exemplo, de um homem com grandes qualidades de caracter e de inteligência, que nunca quis sobressair e que, por isso, ficou àquem do que estaria ao seu alcance...
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Curioso que o Pai quisesse tão pouco para si próprio, mas sonhasse grandes feitos para mim.
Hélas! De alguma forma, saí mais ao lado dele do que ao dos competitivos Aguiares. Parece-me que sim...
Acompanhou, com entusiasmo, a minha incipiente incursão na política, que nunca foi longe, como ele gostaria que tivesse ido.
Achava que deveria ser mais prudente e cautelosa, mais hábil a tomar partido e a expressar opiniões contra-corrente. Era, porém, o preço de uma carreira política que eu não quis pagar, de todo...
Bem, o Pai seguia, a par e passo, os acontecimentos. Pelo visto, eu era tema frequente de conversa com os seus amigos do café (muito menos, certamente do que teria sido com Avô Manuel, fosse ele vivo nessa década de ouro de 80...).
Um dia, no Palácio, um dos amigos dizia-lhe que tinha lido o meu discurso feito na véspera em S.Paulo.
O Pai respondia que eu não estava fora, que estava em casa.
O amigo insistia: Não! Está em S Paulo. Vem no jornal.
E o Pai:
Que idéia! Estive há minutos com ela em casa!
E assim continuaram... O amigo acreditava mais no jornal do que no seu testemunho presencial.
A fonte do equívoco é fácil de explicar: eu enviei uma mensagem, para a inauguração de um busto de Sá Carneiro, que foi, a meu convite, descerrada por Cavaco Silva. Ele, sim, presente! Alguém foi mandatado para ler as minhas palavras, e os jornais reproduziram-nas, como se eu lá estivesse também...
O meu Pai contava a história com muita piada.
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Antes da política foi o futebol que mais nos uniu.
Com ele fui sócia do FCP desde 1952. Estive na inauguração do Estádio das Antas e ía quinzenalmente aos jogos - na bancada central. Recordo como um dia fantástico aquele em que o Porto de Yustrich venceu o 1º campeonato nacional da minha vida.
Foi dramático. O FCP necessitava de ganhar e a Académica fez-nos "a vida negra" - a táctica do autocarro em frente da baliza...
Os ânimos estavam exaltados, nervos à flor da pele. O Pai, coisa rara, "pegou-se" com o vizinho do lado. Quase chegaram a "vias de facto".
Depois, finalmente, um penalty claro sobre o Hernani. Fechei os olhos, sem coragem de ver o lance decisivo. Abri-os para contemplar o estádio em delírio e o Pai abraçado ao referido vizinho do lado, tão portista quanto ele.
Vencemos por 3-0, se a memória me não atraiçoa.
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Estive hoje em casa do Mário, na festa dos 14 anos da Francisca.
Foi muito divertido, sobretudo o filme da TV NABO, realizado pela Lisa, com uma espectacular participação da novíssima geração.
Francisca, nascida em 1996, o último ano do pai. Ainda a conheceu, foi ao baptizado, esteve com ela ao colo naquele seu último dia de vida - um dia de Páscoa.
Mas não há imagens, apenas de fugida, a manga do casaco e a voz.
A derradeira foto acabou por ser a que tirei de véspera, no "Nosso Café".
Como ele, a Meira, o Mário teriam adorado a festa deste 1º de Janeiro!
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Nesse sábado de Aleluia, de tarde, esteve de visita a Nónó com o Tózinho. A Tété nasceria uma semana depois.
Veio a conduzir, só com o menino e obviamente "muito grávida". À despedida, ele estava preocupadíssimo, com receio que acontecesse algum incidente, e ela sozinha num JEEP enorme...
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Lembro-me que nas vésperas ele andava a ler um dos policiais que eu lhe tinha oferecido - numa tradução brasileira. De princípio estranhou um pouco, mas garantiu-me que já estava habituado...
Íamos a caminho do café e o pai mostrou-me um pequeno buraco que, aparentemente, cinza de cigarro tinha aberto na sua bela gabardina.
Não faz mal- -respondi - é num sítio que não se vê...
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Amendoins, melancia ou grão de bico.
Eis o que sempre nos recorda o Pai.
Coisas de que gostava muito.
Sexta-feira, 01 Janeiro, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
O pai começou a sua vida profissional na Câmara de Gaia, nos serviços municipalizados de água - suponho!
Depois foi trabalhar num negócio do Avô Manuel, que era o sócio capitalista de uma empresa de venda de tecidos, onde um sócio gerente o iria vigarizar, alta e irremediavelmente. Situada na Praça Carlos Alberto, no Porto. Nada a dizer quanto à situação geográfica.
O pai era uma espécie de co-gerente, mas jovem e sem experiência...
Não percebeu as jogadas que o outro ia fazendo. Acabou em falência essa traumatizante aventura. Nem pai nem filho tornaram a envolver-se em negócios...
Depois de um hiato no desemprego, ou em empregos precários, o pai arranjou lugar razoavelmente promissor no Grémio dos Ourives, através do presidente, que era amigo do Tio Manuel: o Sr. Gabriel Ferreira Marques. Deve ser a esta situação que se refere o Tio Tónio, numa carta escrita em Castro Daire, em 3 de Novembro de 1951:
"Estimamos saber que o João já está colocado e oxalá seja para melhorar de vencimento e condições".
Foi pelo menos um emprego estável. onde foi sempre apreciado e onde, por isso, chegou ao topo. A secretário-geral, quando se reformou o ocupante do cargo, de quem já era adjunto - o Dr. Lobo).
Quinta-feira, 15 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Da revista do Clube de Avintes, pediram-me, há uns anos, um artigo para a revista "Caminho Novo" - sobre o meu pai e o seu livro póstuma de poemas.
E eu fiz este pequeno apontamento.
"João Moreira "Íntimo"
O autor e o livro".
Passo a reproduzir nos comentários seguintes.
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Na imagem que de si deu, quase até aos 80 anos, meu Pai era um homem extremamente discreto, mas muito cordial - um grande conversador em reuniões de família ou nas tertúlias de café, bem informado, bem humorado, sempre sóbrio nas palavras, nos gestos, nos seus fatos escuros de "tweed".
Ninguém diria que esse avintense tranquilo fora um poeta romântico, que transmutava em sonetos os sonhos, as alegrias, as mágoas da juventude...
A veia poética era, com certeza, herança do lado paterno, que é o originário desta nossa terra, numa cadeia de gerações a perder de vista.
A Avó Francisca ganhara aura de personagem lendária como contadora de histórias antigas e na arte de "cantar ao desafio", em que era mestra. O Pai, Manuel Dias Moreira, tocava d ouvido qualquer música clássica ou popular, e foi actor amador do "Grupo Mérito Avintense".
Ao filho, para seguir em rigor essa tradição, faltava-lhe a atracção pelo palco, que nunca sentiu. Mas versejador repentista foi-o, desde a adolescência. Os colegas do Colégio dos Carvalhos, ou do Liceu Rodrigues de Freitas, que lhe sobrevivem, ainda lembrarão os sonetos que compunha, de um ápice, a pedido, à mesa do café. Ou quadras jocosas que, do mesmo jeito, completava num minuto!
Porém, como aconteceu com os da Avó Francisca, quase todos os seus versos se perderam.
Restam os que dedicou a minha Mãe, quando se enamoraram,no início da década de 40.
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
E foi com base nesse pequeno acervo, que, depois da sua morte,organizámos uma publicação, com o título de um dos seus poemas: "Íntimo".
É uma recordação para amigos e, por isso, sendo Avintes a sua terra querida, a partilhamos no "Caminho Novo".
Para percorrer algumas páginas do livro, seleccionei estrofes de sonetos, todos eles escritos em Avintes, na velha casa da Rua 5 de Outubro.
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Vou imaginá-lo no seu quarto, no primeiro andar, de onde se lhe oferecia, emoldurado na janela de guilhotina,um quadro raro: sobre a cascata de telhados vermelhos, em fundo, as colinas do vale do Douro e as águas do rio, deslizando em curvas largas para o Porto, para o mar já próximo.
E escolho, sobretudo, as estrofes em que os encantos desse cenário - a todas as horas e em todas as estações - terá sido parte da obra de criação, como se o "espaço da natureza" nela se convertesse em "espaço de alma", de pressentimentos e desejos.
Assim:
"Quantas vezes, longamente,o olhar perdido
Em longínquas visões iluminadas, Eu pergunto às formas apagadas
Das sombras, pela noite, o seu sentido.
Quantas vezes me quedei de mãos tombadas,
Olhando o mar sereno e incompreendido,
Ou dando ao vento a prece de um gemido
Que o vento me levava p'las quebradas."
Ou, no soneto intitulado "Saudade":
"Um dia, ao fim da tarde, quando o luar
Vier morar nas sombras do meu peito,
Hei-de tomar-te as mãos, com muito geito,
E levar-te comigo, a ver o mar..."
A mesma sintonia entre os seres e o seu mundo se adivinha no instante auspicioso e mágico em que se cruzam os olhares dos namorados:
"Os teus olhos nos meus, o meu olhar
No teu olhar que, doce, se insinua,
Como um clarão brevíssimo de lua
No escuro de uma noite sem luar."
É que na sua poesia os olhos são sempre "o espelho da alma", onde o amor se reconhece e firma, onde os pactos de uma futura unção se celebram, já, onde o diálogo prescinde da palavra, onde se reflecte uma harmonia cósmica e divina:
"Até que Deus - o seu Amor - Maria
Me mostrou em teus olhos, certo dia,
Os olhos que eu, de sempre, andei buscando
E eu fui levar a Deus a minha prece,
P'ra que os fizesse meus, p'ra que mos desse...
- Um dia, eu sei lá onde, eu sei lá quando..."
(De "Onde? Quando?")
"Põe teu olhar no meu. Queda-te presa
De meus olhos que vivem para te amar!
A mágoa quer passar. Deixa-a passar,
E a dor também, o mal, a incerteza..."
(De "Anseio")
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
"Tudo entristece, as dormidas
Estrelas nos véus sedosos,
A esfera negra dos céus,
Só porque, de mãos unidas
- Olhos nos olhos, saudosos -
Nós nos dissemos Adeus!"
De "O Adeus")
"Então no meu olhar há-de nascer
De novo a luz, para melhor te ver
- Minha linda Senhora das Saudades!
(De "Anseio")
"Consente que te fite, assim, em prece,
Na adoração d'uma alma que te quer,
Que enquanto os olhos meus te estão a ver
A minha dor, no peito, se adormece."
(De "Prece")
"Ontem pus nos teus olhos, longamente,
Os meus olhos cansados. Que infinitas
Transformações - que não sei que diferente
Achei o doce olhar com que me fitas...
("Infinitas Transformações")
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Os seus versos parecem, assim, seguir, simplesmente, o curso de um olhar ou prender, fazer seus, por um momento, os ritmos e as formas contrastantes da natureza, em que, espontâneamente, se revê ou define:
"Reza, meu bem! E eu quedo-me a cismar
Na tua prece, serena como um lago,
No meu amor, revolto como o mar!"
(De "A prece")
"Vida, clarão que passa, sombra errante,
Que sempre se procura e, num instante,
Nos passa, pela mão, despercebida
Caminho que se segue e não se sabe
Onde conduz - sonho que, às vezes, cabe
Num sopro de ilusão da própria vida."
E, para terminar esta leitura selectiva, e tão subjectiva, de uma simples história de amor, contada em verso, darei a palavra ao seu Autor, quando confidencia:
"Porém, se não há frase, por melhor,
Capaz de definir-te o meu amor
É que ele é grande, é que não cabe nela!"
Dezembro 1999
Maria Manuela Aguiar
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Um problema técnico: Os versos mais longos, não cabem numa só linha - confundindo um pouco o leitor...
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Possivelmente hoje faria outra escolha - e outros comentários.
Tarefa de que poderei encarregar-me quando deixar este cargo e encargo super absorvente do pelouro numa Câmara Municipal.
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Ultimamente tem sido a correspondência dos anos 40, que me tem ocupado o tempo livre, um serão por outro. A que a Mãe conservou dos irmãos.
Depois, tenho de procurar a do Pai!
Dos tempos de namoro, não encontrei nada - para além
dos versos.
Creio que há, na fase seguinte de recém casados, alguns bilhetinhos, mandados a meio do dia - pelo pai à mãe!
Há que os procurar!
Terça-feira, 27 Abril, 2010
Maria Manuela Aguiar disse...
Quando eu estava em Coimbra, em Lisboa, em Paris - isto é, longe de casa - recebia, em abundância, postais e cartas. E, na esteira da mãe, guardei muitas delas. Estão, agora, numa pequena arca de madeira, num corredor, nesta minha casa de Espinho.
São precisas horas, só para separar o material por autores!!!
Terça-feira, 27 Abril, 2010
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quinta-feira, 11 de agosto de 2016
segunda-feira, 18 de julho de 2016
SOBRE O PAI
Depois da sua partida, isso tornou-se mais evidente, quando comecei a organizar álbuns de fotografias e a reunir em VHS todos os vídeos em que foi filmado connosco em festas e momentos especiais. E confirmou-se quando, com o advento da era digital, criei um blogue onde fui recolhendo histórias da sua história... para que as novas gerações dele saibam mais que que apenas o seu nome.
É muito o que fica por dizer, nesta luta contra o esquecimento, com armas que são, simplesmente, imagens e palavras... Destinadas aos mais jovens, sobrinhos- netos e bisnetos, os que ele amava e não viu crescer - ou nem sequer conheceu.
Textos e imagens que constituem esta segunda parte do "Intimo"
terça-feira, 17 de maio de 2016
Nos 90 anos da TIA LENA
Teria ido com a Marta e o Paulo a Londres, festejar
Londres, cidade de que gostava tanto.
Custa a aceitar que uma Tia tão querida já não esteja cá, sempre a lembrar-se de nós, a telefonar, a saber e a dar novidades. O grande elo de ligação entre a família, entre as gerações... Fantástica!
quinta-feira, 7 de abril de 2016
O PAI PARTIU HÁ 20 ANOS
Que saudades do meu Pai... Em 1996, o 7 de abril era dia de Páscoa.
Um texto meu de junho 2014
Pai é sempre intemporal. Está connosco até ao fim de nós próprios. Especialmente quando o Pai é comoqueremos que seja. Quando cada vez o compreendemos melhor e o achamos melhor. O que corresponde certamente à realidade, pois a experiência de vida só pode aprofundar as qualidades pré existentes. (vejo as fotografias: acho pouca graça ao menino que não ri para a foto de estúdio, em Espinho, pelos seus 7 ou 8 anos, e encanta-me o velho bonito e amável dos últimos retratos. Envelhecer bem, física e mentalmente, eis uma arte, ou, talvez, uma recompensa bem merecida...)
Ninguém o definiu melhor do que o nosso amigo Padre Manuel Leão. Em Espinho, na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, em Abril de1996. Dois minutos bastaram. Nunca vi pessoa capaz de dizer tanto em tão pouco tempo. Foi na chamada "missa de 7º dia" -o primeiro momento bom, depois da súbita morte do Pai no domingo de Páscoa. Pelas palavras do Padre Leão (que pena não as ter gravado, embora o essencial permaneça) - mas também pelo encontro com uma comunidade de igreja, a que o pai pertencia, naquela capela, e que, tanto a Mãe como eu, só conhecíamos de vista, pois em Espinho toda a gente se conhece, pelo menos assim - de vista... (família atípica, onde as mulheres se consideram católicas, mas é o homem que, no dia a dia, 3 vezes ao dia, ou mais, se recolhe, em meditação, nos bancos da capela).Ali mesmo, em frente ao altar de Nossa Senhora da Ajuda, onde rezava, a fila de cumprimentos, geralmente cerimonial lúgubre, de adensar tristezas, foi o contrário. Mulheres e homens que com ele tinham partilhado a missa de Páscoa, a comunhão, falavam da sua alegria, do seu sorriso. De um homem feliz. Gente de fé, exactamente como ele. Ficaram na memória, já sem rostos definidos. Memória da abertura à transcendência, da visão de outros reinos e destinos, que invadiu, por momentos, todo o nosso espaço, tão cheio da emoção pesada de muitas dúvidas e de uma perda definitiva. E ficou a imagem daquele seu amigo, já emaranhado ou desprendido de qualquer identidade sua ou alheia, definitivamente senil, que perguntava onde estava o João, que o queria dar-lhe um abraço, antes de ir embora. E ficou, sobretudo, uma síntese de 78 anos de vida ou de uma escolha de vida, na palavra breve e definitiva do Padre Leão. - um homem bem formado, culto, inteligente e justo, que sempre preferiu apagar-se, muito pensadamente, e nunca quis fazer o que podia ter feito ou ser o que poderia ter sido. E que nunca, também, e antes do mais, exibiu o que realmente foi realizando, à sua maneira discreta, com competência e com humor e simpatia, também.
20 anos mais tarde, por acaso, em Fânzeres, no Centro Republicano, um ourives, que com ele conviveu no "Grémio" da sua profissão (onde o Pai era secretário-geral), fechou, a seu modo, com uma simples frase, aquele desenho do perfil , em dois traços, rigorosamente esboçado num elogio fúnebre. "O seu Pai era excessivamente honesto!" (e mais não disse, mas repetiu várias vezes, com a força que lhe dava ter bebido uns copos - o Pai que gostava do seu latim, e raramente bebia, teria dito "in vino veritas"...),Aqui estava a chave para o meu completo entendimento do que deixara antever o Padre Leão. Demasiadamente honesto e demasiadamente inteligente…
2 - A família Dias Moreira é grande, mas não o nosso ramo. Desde o bisavô João, ao longo de mais de dois séculos, os nascidos em cada geração não passam de um ou dois. Há os que não tiveram filhos ou cujos filhos não sobrevivem até à idade adulta. No século XXI, apenas uma trine ta de 20 anos, fazendo, com distinção, um curso na McGill em Montreal - brilho não raro entre os parentes que chegaram à universidade ou fizeram carreira académica. Chloe Randle-Reis, é canadiana, nada e criada em Toronto, tão longe das águas matriciais do Douro. Ela tem hoje nas suas mãos, talvez sem o saber, como eu o sei, todo o nosso futuro... Não o nome, que já não chegou a ela, mas o resto, que conta mais.
O pai, esse recebeu o nome completo do Avô mítico - João Dias Moreira (com um apelido materno de permeio que só usava no BI).
O Avô imenso - imenso na estatura, avolumada pelos seus capotes largos de inverno, como o lembrava um dos seus antigos caseiros, que encontrei emigrado no Transval, nos anos 80 do século passado. Imenso na sagacidade de homem de bem, de bens e de negócios É em traje do dia e dia na sua casa, e não numa pose solene de estúdio, com um dos seus fatos completos, que o vemos nos únicos retratos, em que aparece sozinho ou com a mulher. Esperemos que algum parente, um dia, nos surpreenda com alguns outros).
A bisavó era do centro de Avintes. A casa de família era discreta e airosa na Rua 5 de Outubro, e, mais tarde pertenceu a duas gerações de artistas, o pai e o avô do Primo Francisco (Chico) Marques. Os Marques são escultores, entalhadores, desenhadores, arquitectos (na geração do meu Pai, o último, foi o Corinto, que casou com uma prima dele e nossa, a Maria Angélica). Parece que o pai da bisavó foi emigrante no Brasil, e, no regresso, investiu num pequeno estaleiro de barcos do rio. Não creio que fosse muito rico, não o suficiente para o padrão dos Dias Moreira…
Arrastou-se o namoro como o João até ao dia em que ela lhe lançou um ultimato: ou casavam em vida da mãe dele, ou não casavam nunca, porque não queria que todos julgassem que tinha estado à espera da morte da velhinha… Não queria facilidades, exigia dele a coragem que ela tinha. Mas não reclamava a vida em comum. Dava-lhe a liberdade de continuar em casa da mãe. Cada qual em seu sítio, se preciso fosse, mas casados na igreja, perante Deus e o mundo. E assim foi, até que a sogra adoeceu e lhe pediu auxílio. E a partir daí todos se entenderam surpreendentemente bem.
Está tudo dito sobre o carácter da pequena e enérgica Quitéria Francisca Pinto, a grande contadora de histórias, a protagonista de infindáveis horas de cantigas ao desafio… E, diz a lenda mais: que em menina se vestia de homem e ia para as feiras jogar varapau. Atendendo a que era muito pequena (1,50…) magra e franzina, é de espantar… Mas ela era de espantar – todos os relatos que chegaram até hoje vão no mesmo sentido
João Dias Moreira e Francisca Pinto eram os avós de meu pai que moravam ao lado. Não na mesma casa - cada um apreciava demais a sua independência - nem na quinta do Pena, ali em frente e , então, desabitada, mas na colina que vai descendo para o Douro e o Araínho e a que chamam Outeiro. Não sei precisamente onde ficava, nem se ainda existe - coisa improvável. Dela ouvi vagamente falar com alguma nostalgia e imagino uma alvura de paredes entre ramagens verdes e uma soberba vista de rio e de vale de espigas loiras (onde agora não há mais do que cimento hediondo e clandestino...). Enfim, um lugar romântico como os Avós recém casados, num casamento, que, tal como o dos bisavós, foi escolha só deles. Mais contrariado o primeiro do que o segundo (a trisavó era viúva, vivia com aquele filho e queria nora mais rica, se é que não queria, fundamentalmente, nora alguma....)
Essa moradia, onde nasceu o primeiro filho, de Olívia e Manuel era com certeza arrendada, pois não consta da lista de bens familiares - e, nesse tempo, gente abastada comprava, não vendia nunca propriedades. Parece que o bisavô fazia a sua contabilidade de novas aquisições, como num jogo, onde ganhava pontos, e essa vertente quantitativa, acabou fazendo o seu curriculum para a posteridade - com o nº auspicioso de 99. Mas vinha sempre junto à estatística um perfil de empresário agrícola, com o seu pioneiro recurso à mecanização e à compra a crédito - tão avessa à mentalidade rural da época... E crédito era o que menos lhe faltava - até sem papel escrito, porque a sua palavra era um seguro contra todos os riscos... Eram, de qualquer modo, os avós que moravam ao lado. Não na mesma casa - cada um prezava demais a sua independência - nem na quinta do Pena, ali em frente e , então, desabitada, mas no Outeiro, a colina verde, que vai descendo para o Douro. Não sei precisamente onde ficava, nem se ainda existe - coisa improvável. Dela ouvi vagamente falar, com alguma nostalgia, e imagino uma alvura de paredes entre pinhais e uma soberba vista de rio e de vale de espigas loiras (onde agora não há mais do que uma aridez de cimento clandestino...). Enfim, um lugar romântico, como os Avós recém casados, num casamento, que, tal como o dos bisavós, foi escolha só deles. Mais contrariado o primeiro (a trisavó era viúva, vivia com aquele filho e queria nora mais rica, se é que não queria, fundamentalmente, nora alguma....)
Essa residência, onde nasceu o primeiro filho, era com certeza arrendada, pois não consta da lista de bens familiares - e, nesse tempo, gente abastada comprava, não vendia nunca propriedades. O bisavô fazia a sua contabilidade de novas aquisições, como num jogo, onde marcava pontos, e essa vertente quantitativa, acabou fazendo curriculum - com o número auspicioso de 99, muitas compradas a crédito - um perfil de empresário agrícola mais do que de lavrador tradicional. O número sempre recordado, tal como o seu pioneiro recurso à mecanização e o recurso ao crédito - tão avessa à mentalidade rural da época...Crédito era o que menos lhe faltava e sem papel escrito, porque a sua palavra era um seguro contra riscos...
Foi o seu antigo empregado emigrante na África do Sul quem acabou por me dar aquilo de que fiz uma imagem mais próxima desse bisavô. Ele, atravessando os campos, com o seu largo capote de inverno. Ele ,presidindo aos almoços, com todo o seu pessoal, numa mesa de pedra retangular, que ainda hoje existe e é motivo de pasmo: talhada numa pedra com mais de 3 metros de comprido e mais de um de largo. Coisa tão rara, que era e é objecto de quase veneração... Mesa rara e mesa farta.
Corria o ditado, que o emigrante sabia ainda de cor:
Mais vale ser cão em casa do João Patrão do que criado na Quinta de...
(a maior de Avintes e eu não apontei o nome e agora só poderia inventar...)
Um homem que não receava confraternizar com os seu empregados, que os tratava bem, mas exigindo, com certeza, bom trabalho - tudo o que ainda hoje se exige de um gestor competente. O que os resultados provam que foi...
A faceta da generosidade, essa adivinho-o noutro relato de alguém da família, talvez a filha, Tia Francisca: nos seus últimos anos, já não passeava pelo meio das searas, o reumatismo, agravado pela humidade da beira rio, tornou-o praticamente entrevado. passava muito tempo à janela do seu quarto, com vista para as suas terras, que se estendiam no vale do Douro, no caminho do rio para a foz. Daí observava e dirigia ainda os trabalhos, certamente. E, quando passava um mendigo, a pedir esmola, lançava da janela, preso por um longo cordel, um cesto de pão (e o mais que ali tinha para dar), e logo o recolhia, até que viesse o próximo necessitado. Alguns seriam "os do costume"...
Mas dele não ficaram as suas palavras, expressões peculiares, tom de voz, os seus gostos na música, nas cores, nos fatos... Ficou muito pouco de uma vida tão cheia e di único grande empresário da família direta...(essa imagem levou o meu primo do canada, bisneto como eu, a dizer, quando arriscou um investimento na área de Toronto: "É preciso retomar o espírito empresarial, que anda perdido
bens familiares - e, nesse tempo, gente abastada comprava, não vendia nunca propriedades. O bisavô fazia a sua contabilidade de novas aquisições, como num jogo, onde marcava pontos, e essa vertente quantitativa, acabou fazendo curriculum - com o número auspicioso de 99, muitas compradas a crédito - um perfil de empresário agrícola mais do que de lavrador tradicional. O número sempre recordado, tal como o seu pioneiro recurso à mecanização e o recurso ao crédito - tão avessa à mentalidade rural da época...Crédito era o que menos lhe faltava e sem papel escrito, porque a sua palavra era um seguro contra riscos...
Foi o seu antigo empregado emigrante na África do Sul quem acabou por me dar aquilo de que fiz uma imagem mais próxima desse bisavô. Ele, atravessando os campos, com o seu largo capote de inverno. Ele ,presidindo aos almoços, com todo o seu pessoal, numa mesa de pedra retangular, que ainda hoje existe e é motivo de pasmo: talhada numa pedra com mais de 3 metros de comprido e mais de um de largo. Coisa tão rara, que era e é objecto de quase veneração... Mesa rara e mesa farta.
Corria o ditado, que o emigrante sabia ainda de cor:
Mais vale ser cão em casa do João Patrão do que criado na Quinta de...
(a maior de Avintes e eu não apontei o nome e agora só poderia inventar...)
Um homem que não receava confraternizar com os seu empregados, que os tratava bem, mas exigindo, com certeza, bom trabalho - tudo o que ainda hoje se exige de um gestor competente. O que os resultados provam que foi...
A faceta da generosidade, essa adivinho-o noutro relato de alguém da família, talvez a filha, Tia Francisca: nos seus últimos anos, já não passeava pelo meio das searas, o reumatismo, agravado pela humidade da beira rio, tornou-o praticamente entrevado. passava muito tempo à janela do seu quarto, com vista para as suas terras, que se estendiam no vale do Douro, no caminho do rio para a foz. Daí observava e dirigia ainda os trabalhos, certamente. E, quando passava um mendigo, a pedir esmola, lançava da janela, preso por um longo cordel, um cesto de pão (e o mais que ali tinha para dar), e logo o recolhia, até que viesse o próximo necessitado. Alguns seriam "os do costume"...
Mas dele não ficaram as suas palavras, expressões peculiares, tom de voz, os seus gostos na música, nas cores, nos fatos... Ficou muito pouco de uma vida tão cheia e de único grande empresário da família direta...(essa imagem levou o meu primo do canada, bisneto como eu, a dizer, quando arriscou um investimento na área de Toronto: "É preciso retomar o espírito empresarial, que anda perdido nas últimas 3 gerações."
Deixou, pois, o Bisavô João um exemplo que ainda agora nos desafia a fazer coisas...
Mas que pena tenho de não ter um registo de conversas, ao seu próprio jeito.... De um lado e outro da família é só a palavra das mulheres que resiste....e de uma palavra concreta se faz um retrato mais vivo.
A bisavó Francisca apenas em duas ou três pequenas quadras dos milhares que saíram da sua veia repentista... Ou a decisão que tomou de se opor a um dote excessivo para o casamento da filha Francisca, como exigia a família do noivo e que comunicou ao marido nestes precisos termos:
"Não assino, João Seria o mesmo que deserdar o nosso filho. Não assino, quero ficar de bem com Deus e com a minha consciência". E a escritura não se fez com aquela abundância de bens, mas com o que achou correto. E o casamente foi por diante nas condições que ela impôs,
A mulher tem no círculo familiar a força que tem, não a que lhe conferem leis e convenções A esta sobrava a coragem e pragmatismo e por isso levava a sua por diante. Coragem e bom senso em partes iguais. O homem. que era um grande homem, começava por lhe ter respeito....
Assim o Avô Manuel contava uma das história da Mãe que tão bem o soubera proteger e que ele admirava mais do que qualquer outra pessoa à face da terra
Ou aquela outra em que decidiu que o casamento dos dois havia de ser em vida da sogra:
"Não quero que esta gente diga que estive à espera que a tua mãe morresse, para me casar contigo. Ou é agora ou não é".
Sintética e precisa. Neste caso o filho terá ouvido a frase da sua boca. A grande anotadora de lendas e de crónicas, também, às vezes, falava de si.
A minha mãe, que vivia em conflito constante com os sogros e de pouca gente gostava em Avintes, simpatizava incondicionalmente com aquela velhinha prodigiosa. Só ela mesmo a poderia criticar.
"Menina, usas as saias muito curtas. Parece mal"
E a Mãe ria-se e respondia benignamente (muito ao contrário do seu estilo...):
"É a moda!"
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
GILBERTO FERRAZ SOBRE ERNESTO FONSECA
CRÓNICAS DE LONDRES - (Edição 1494 - 04/02/16)
Tributo Adiado. Até quando?
“A Guerra Colonial não acabou para os portugueses. Os que sofreram o avassalador esquecimento a que foram votados, o funesto desrespeito pelos seu direitos, a cruel ausência de apoio aos estropiados e às famílias dos mortos, o agravamento atroz das feridas sociais, que silenciosamente, consumiram destroços humanos um dia recrutados à força”. Jorge Ribeiro, em INHAMINGA O ÚLTIMO MASSACRE (Edições Afrontamento)
Mão amiga fez chegar às minhas mãos um livro fascinante. Uma obra de experiências, vívidas e vividas, pungente, emocional e minuciosamente narradas pelo próprio. Intitulado Por Xanas do Leste de Angola, embora não abertamente, uma autobiografia, obviamente que o é, mas romanceada. O autor, um então jovem militar com a patente de alferes, com nom de pen Montenegro, mas na vida real autor da obra, atualmente Engenheiro Ernesto Fonseca, relata pormenorizadamente não apenas os seus feitos, como dos colegas que chefiou, assim como de outros oficiais.
Tenho lido várias obras, igualmente experiências narradas pelos próprios intervenientes das chamadas Guerras do Ultramar, nomeadamente as do historiador Prof. Jorge Ribeiro. Esta, porém, é diferente pela descrição não apenas da ação, mas da clara descrição do meio em que se moviam e atuavam. Nela abunda o pormenor, o detalhe das carregadas emoções e expetativas. Eu próprio tenho um familiar que por ter sido igualmente ativo participante, evita falar das suas experiências, tal o trauma psicológico que o avassala. Extravasa os seus sentimento através da pintura, trasladando para a arte muitos dos sentimentos que não quer verbalmente expressar! O alferes Montenegro não as sufoca. Num exercício psicológico desta sua notável obra retrata as suas experiências, qual paciente recostado na sua poltrona metódica e paulatinamente as confessa ao seu psicólogo. Abomino o colonialismo e a maior parte do que dele deriva. Afinal nada mais é que um subproduto do inaceitável imperialismo. E, neste contexto, a imposição e consequente deposição noutros povos de hábitos e culturas que lhes eram estranhas. Psicologicamente a tortura da superioridade e do poder!
Ernesto Fonseca, que, tal como muitos outros lembra terem generosamente vertido a sua juventude, e nove milhares o seu sangue a favor não de um ideal, mas da Pátria, grita com compreensível azedume “este milhão de jovens não foi um milhão de fascistas que partiu para África, de armas na mão, para subjugar populações. Nenhum de nós era fascista!” E continua: “A juventude daquele tempo respondeu em bloco, impregnada de sentimentos patrióticos, por isso merece o respeito de todos nós”. Meio século volvido, é de acrescentar, não apenas respeito, mas admiração e orgulho! Admiração não por uma causa de outros tempos, que atual e mui apropriadamente se condena. Este milhão e os nove milhares que perderam a vida, incluindo o nativo colega do autor-soldado, por eles apenas referido pelo “62”, merecem a nossa gratidão. A gratidão de um País cuja história, com capítulos menos dignos, como o da colonização, mas pior, da escravatura, são atualmente condenáveis. Mas não eles, os intervenientes, cuja generosidade, que ele próprio não transparece, interpretando antes, como qualquer bom militar e líder, como irrefutável dever. Um débito ainda por saldar! Uma dívida que retarda! Quer em termos de homenagem e preito de gratidão aos ainda vivos, mas pior, aos que caíram para sempre e cujos restos permanecem negligenciados, abandonados, em vários locais espalhados no vasto e apenas definido por Ultramar. Tributo. Preito que retarda. É tempo que se faça justiça! É tempo que historiadores se debrucem e tracem o nosso historial, o historial de uma juventude generosa, para bem da memória futura. Que não o deixem a embora bem intencionados colegas estrangeiros, mas não suficientemente conhecedores das nossas profundas tradições e rica cultura. Como abominador da guerra e dos múltiplos ismos, mas vivente num país que todos os anos homenageia os que continua a considerar como seus heróis, e que nas duas Grandes Guerras, aqueles que nos campos de batalha caíram para sempre, são perenemente homenageados com lápide própria, em cemitérios próprios, e que quer nas freguesias de nascimento, assim como no rincão pátrio lhes é prestado o devido tributo, com os seus nomes gravados. Gravados para a História. Um país como o nosso, que se orgulha da sua história e que canta o “seu nobre povo” não pode, nem deve continuar a ignorar o saldo dessa enorme dívida dando aos poucos ainda vivos o respetivo tributo e aos restos mortais desses generosos jovens o digno lugar de repouso que há muito merecem.
“Por Xanas do Leste de Angola”, de autoria de Ernesto Fonseca, é uma edição de Chiado Editora. Um livro a não perder!
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
TIA LENA
Deixou-nos, mas está tão viva na nossa memória.
Extraordinária a forma como quatro gerações sentiram a sua partida - extraordinária, mas natural, também, porque ela se interessava tanto por todos e com todos tinha um relacionamento perfeito
Extraordinária a forma como quatro gerações sentiram a sua partida - extraordinária, mas natural, também, porque ela se interessava tanto por todos e com todos tinha um relacionamento perfeito
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
UMA FAMÍLIA ESTIMULANTE
1 - UMA FAMÍLIA ESTIMULANTE
Sou feminista desde que me lembro de ter opiniões sobre o assunto...
Comecei cedo, com 5 ou 6 anos, e para isso muito contribuiram as Avós,
especialmente a Avó materna Maria (Aguiar), uma verdadeira matriarca,
que ficou viúva, com 7 filhos, aos 36 anos e se tornou líder não só na
sua casa, como na sua terra. Pertencia à Obra das Mães, às
organizações da paróquia, às associações culturais. Era uma senhora
muito bonita, muito inteligente e muito conservadora. Em nome das boas
maneiras e do recato feminino, que tanto prezava, apesar da sua
respeitável proeminência, dizia-me, vezes sem conta, "as meninas não
fazem isso" - "isso" sendo por exemplo, subir às árvores, saltar dos
eléctricos em andamento ou jogar futebol com os primos... Eu sabia que
gozava do estatuto de neta favorita e gostava imenso da Avó, mas não
seguia esses seus conselhos.
O plural: "as meninas", levava-me a reagir. Achava que devia mostrar
que as "meninas" eram tão capazes como os rapazes de "fazer isso" e
partia para o demonstrar no dia a dia. Era, pois, uma feminista
praticante, com uma emergente consciência da existência das questões
de género ...
Curiosamente, os homens, Pai e Avó Manuel, eram fãs das minhas proezas
desportivas, tanto como das escolares. Sempre me incentivaram a
estudar e preparar o futuro profissional. Nunca o paradigma da "dona de casa"
esteve nos meus horizontes, ou nos seus.
Pelo contrário: punham em mim, a meu ver, excessivas expectativas....
E assim, graças a eles,o meu feminismo esteve "ab initio" na linha de
pensamento de uma Ana de Castro Osório, mesmo que, nesse tempo, não
conhecesse sequer o seu nome (como aquele personagem que fazia prosa
sem saber...). Os homens foram, de facto, aliados - muitos, incluindo
numerosos tios e primos, e, mais tarde, alguns dos meus professores da
Faculdade..
Tive uma infância divertida e feliz, numa família unida e convivial,
apesar de politicamente dividida. Uma tradição que vinha de trás -
houve, sucessivamente, regeneradores e progressistas, monárquicos e
republicanos, salazaristas e democratas, germanófilos e anglófilos
(como eram os meus Pais). A política estava bem presente, em acesas
discussões sem fim, mas nunca ninguém se zangava. Consideravam os
outros "gente de bem", por mais extremadas que fossem as suas
opiniões. Tendo a atribuir mais a essa experiência vivida do que à
idiossincrasia a ausência de preconceitos partidários em relação a
quem não pensa.como eu. E, possivelmente, também o gosto pela
pela entusiástica defesa de pontos de vista, a sensibilidade a formas
de injustiça e assimetrias regionais, o despertar para um saudável
regionalismo nortenho, a par da paixão pelo Porto (e pelo FCP)...
Outra forum de "convívio e debate" determinante foi a escola - dois
anos na pública, sete anos de Colégio do Sardão (um internato de
religiosas Doroteias). Costumo comparar o colégio a um quartel
mulheres, onde prestei uma espécie de "serviço militar obrigatório".
Não foi, de facto, uma opção voluntária, mas, com a excelência do
ensino e, sobretudo, das estruturas desportivas, ginásio, campos de
jogos, parques e largos espaços de recreio, posso dizer que lá passei
muitos bons momentos. Organizava competições desportivas (incluindo
de futebol clandestino), dirigia peças de teatro, escrevia crónicas e
romances, que partilhava com as colegas, dava largas à imaginação e à
energia. Uma dessas crónicas, que pretendia fazer humor à custa da
instituição, suas regras e poderes fáticos foi apreendida, e quase
provocou uma expulsão mesmo nas vésperas do exame do antigo 5º ano.
Não seria a primeira da família a passar por isso, mas escapei,
suponho que com a interferência do capelão e de algumas das Madres,
que me compreendiam e me achavam graça...Em qualquer caso, eu quis
mudar para o Liceu, no Porto, contra a vontade do Pai, que me
vaticinava toda a espécie de retrocessos escolares, como os que
experimentou quando, depois de 10 anos de Colégio dos Carvalhos,
se viu "à solta" no Rodrigues de Freitas. A história não se repetiu, bem
pelo contrário. Bati todos os recordes pessoais no exame de 7º ano e
ganhei, pelo bem-amado Liceu Rainha Santa Isabel, o prémio nacional.
O que me deu o Sardão? Desde logo, apurou a minha instintiva rebeldia,
vivida em constantes lutas de carater incipientemente político - ou
político-sindical. E o "enclausuramento" levou-me a prezar mais a liberdade,
gozada nos fins de semana e nas férias de verão, em Espinho, na Vila Maria
ou em Avintes...
Com o Pai ia ao futebol no estádio das Antas, com os Pais e o Avô os
cinemas e teatros e, também, os cafés do Porto, coisa invulgar na
época para o sexo feminino, de qualquer idade...
COIMBRA ANOS 60
Em Coimbra, era também à mesa dos café que estudava, que convivia e
bradava contra as discriminações em que continuava fértil a sociedade
portuguesa de 60. ..
No Tropical, no Mandarim, no bar da Faculdade de Letras ou de Farmácia
encontrava-me com colegas, com assistentes, pouco mais velhos do que
eu, embora bastante mais sábios, como era o caso do Doutor Mota Pinto,
que viria a ser o responsável pelo meu tirocínio na política. Eu falava,
abertamente, contestava leis e costumes. A leitura do Código
de Seabra era um pesadelo - tornando sempre presente a realidade da "capitis
diminutio" da mulher casada. A escravidão feminina subsistia em
2.000 anos de Direito Romano, revigorando um feminismo inspirado
na social-democracia sueca, por oposição à tirania portuguesa.
O tema da igualdade de sexos não estava na agenda política de 60 - e
ainda hoje não está suficientemente...
Em todo o caso, na altura soava mais a radicalismo e excentricidade.
Esperava tudo menos que, anos e anos mais tarde, essa faceta pudesse
pesar tanto, como creio que pesou, numa mudança de rumo, que pôs fim
a escolhas profissionais assentes (assistente de um Centro de Estudos
Sociais, assessora do Provedor de Justiça).
Sempre sonhei com uma carreira jurídica. A magistratura estava-me
vedada por ser mulher Queria ser advogada, uma espécie de Perry Mason
portuguesa. Era no terreno jurídico que queria competir, não no da
política. Direito era, então, um curso de perfil masculino, no corpo docente
não havia uma única mulher e mais de 80% dos alunos eram homens, 63
- e 12 mulheres. Entre elas há excelentes advogadas e juristas, mas, das 12,
na política só eu, e acidentalmente...
Dos 63, foram muitos os que, no pós 25 de Abril, se distinguiram em Governos
da República - Daniel Proença de Carvalho, Laborinho Lúcio, António Campos,
Luís Fontoura, João Padrão... Ou que são vozes autorizadas no domínio em que
se cruza o Direito com a Política, como Gomes Canotilho ou Manuel Porto,
ou com as Letras, como Mário Claudio ou José Carlos Vasconcelos...
Ao fim de 5 anos felizes, eu trazia de Coimbra apenas um pequeno
trauma: na única eleição a que concorri, pelo Conselho de Repúblicas,
para uma qualquer comissão, cujo nome nem recordo - só sei que dava
acesso à direcção da Associação Académica - perdi num colégio
eleitoral 100% feminino. Coisa natural, porque a maioria das
meninas era conservadora, mas eu assumi pessoalmente a derrota e
covenci-me de que não estava mesmo nada vocacionada para tais
andanças...
3 - A FORÇA DO IMPREVISTO
Na história dos antecedentes da minha relutante ocupação de cargos
políticos, estava já a força do imprevisto: primeiro uma proposta para
assistente de sociologia na Universidade Católica que veio da parte de
um professor que não conhecia, o Doutor Àlvaro Melo e Sousa ( um amigo
comum, Carlos Branco, indicou-lhe o meu nome). Na altura, acabava de
regressar de Paris, com uns certificados nesse domínio). Foi preciso ele
insistir, mas acabei por dizer o sim - e não me arrependi.
Esse passo tornou mais fácil aceitar um segundo desafio lançado pelo
Professor Eduardo Correia, convidando-me para a recém.criada Faculdade
de Economia em Coimbra da qual ele era o director.
Confesso que nem sabia da abertura dessa Faculdade... Foi um encontro
acidental, num colóquio. Quando me viu, achou boa ideia associar-me ao
empreendimento. Dessa vez, não houve hesitação da minha parte.
Que bom voltar a Coimbra! Tomei posse na véspera do 25 de
Abril de 1974. Na semana seguinte, Eduardo Correia era Ministro da
Educação do 1ª Governo Provisório e, pouco depois, um novo encontro
com outro dos grandes juristas do nosso século XX, o Professor Ferrar
Correia, em pleno pátio da universidade, à sombra da torre, levou-me
para a minha própria Faculdade. Ao saber que estava ali ao lado, na
Economia, instou-me, de imediato, a transitar para Direito e eu
aceitei tão depressa, que ele até julgou que eu julgava que ele
estava a brincar. Não era o caso. Decido assim, não sempre, mas às vezes.
muitas vezes.
Guardo boas memórias de todas as passagens pelas diversas docências, mas esta
tinha um significado muito especial - o convite chegava com dez anos de atraso,
mas chegava... Em 1965, as mulheres estavam barradas do ofício,
não por força da lei mas de misogenia secular. Entretanto, alguma coisa mudara.
Não muito, só me lembro de colegas homens, quase todos, óptimos colegas,
como o Fernado Nogueira, o Cordeiro Tavares, o Proença. Dez anos mais jovens do
que eu, naturaçmente, o que me ajudou a rejuvenescer. Fui assistente de dois
insígnes juristas, o Doutor Rui Alarcão e, por fim, o Doutor Mota
Pinto e integrei uma linha de investigação sobre Direito de Família, encabeçada
pelo Porf Pereira Coelho..
Os tempos agitados são-me favoráveis - como estudante dei-me bem em Paris,
no pós Maio de 68, e o mesmo posso dizer de Coimbra, no pós 25 de Abril.
Pude permitir-me coisas impensáveis fora de períodos revolucionários, sem oposição
de ninguém, como dar aulas "extra muros", aos voluntários do Porto ou aulas práticas,
a turmas naturalmente pequenas, no bar de Farmácia, ao ar livre, em dias
de sol. Saíamos, em cortejo, dos "Gerais#, já a falar das matérias,
como os peripatéticos. Esclarecia dúvidas, exactamente como se
estivessemos numa daquelas escuras e frias salas de aulas. E, depois,
analisávamos o PREC. Os rapazes (não recordo mulheres entre os fieis
frequentadores das minhas aulas práticas, (facultativas), eram, quase todos de
diversos quadrantes ideológicos de esquerda, mas isso não obstava ao ambiente
de tertúlia. Em 1975/76 dava aulas teóricas de "Introdução ao Estudo de
Direito", em salas cheias de simpáticos "caloiros". Um dever e um prazer!
E refiro tudo isto, porque julgo que foi esta segunda estada em
Coimbra que me abriu os caminhos que não esperava percorrer na
política: antes de mais, porque reatei, naquele preciso momento da
nossa História, o relacionamento próximo com amigos que estavam no
centro da fundação de partidos, em particular do PPD, e da construção de
um regime democrático, E, também, porque descobri que conseguia comunicar
em público - eu, que me considerava fadada apenas para trabalho de gabinete.
Anos mais tarde, ao fazer um levantamento do perfil profissional das
mulheres mais activas do PSD, descobri que, sobretudo a nível local,
havia um grande número de professoras. A meu ver, não era
coincidência, era a consequência de uma maior auto-confiança que se ganha
nesse relacionamento professor/aluno... No meu caso, não tenho dúvida de
que me transformou o suficiente para admitir a hipótese de enveredar
pela exposição nos palcos da política ...Nada que eu tivesse planeado....
Na verdade, o convite que o Primeiro Ministro Mota Pinto me dirigiu para a
Secretaria de Estado do Trabalho, uma daquelas que eram vistas como coutada
masculina, constituiu absoluta surpresa.
Mas o Doutor Mota Pinto usou o argumento decisivo: "se recusar, não haverá
mulheres no meu Governo". Depois da mera combatividade verbal, era a hora de agir....
Estávamos em fins de 1978. A ousadia da minha designação valeu ao Professor Mota
Pinto um rasgado elogio de Marcelo Rebelo de Sousa num editorial do Expresso, que
ainda guardo na pasta de recortes e na memória.
Sendo defensora do sistema de quotas, assumi-me como a "quota mínima" daquele
Executivo, que, por sinal, veio a integrar outra Secretária de Estado na área da Educação.
áreaben mais tradicionalmente ...
Sabíamos que a missão era de curto prazo - um governo de independentes
de nomeação presidencial, que não cedia nem a pressões de rua nem a
influência de náquinas partidárias, já então poderosas. Na minha
opinião, um governo que se impôs, ganhou credibilidades e, por isso,
durou ainda menos do que o esperado... Os partidos trataram de se
entender para o derrubar. Foram 9 meses intensos e formidáveis, findos
os quais,voltei para a Provedoria de Justiça, que, com o Dr José
Magalhães Godinho como Provedor, era o melhor lugar de trabalho à face
da terral. Para mim, o Dr Godinho representava um conjunto de
legendários tios republicanos, com quem nunca tive as conversas que
pude ter com ele. Era família - não aquela em que se nasce, mas a que
se faz tão raras vezes na vida.
Até que novo imprevisto sobreveio: em janeiro de 1980, logo depois da
posse do VI Governo Constitucional, um telefone do Primeiro Ministro
Sá Carneiro, que não conhecia pessoalmente, mas com quem me
identificada, porque, como afirmou numa entrevista a Jaime Gama em
que era "social-democrata à sueca".( É por isso que, sem ter filiação
partidária antes de 80, me considerava PPD "avant la lettre", ou seja,
Sácarneirista desde 1969).
Pelo telefone, Sá Carneiro, foi sintético e breve a marcar um encontro
para as 5.00 horas da tarde - audiência para o qual eu parti inquieta,
e mal penteada e mal vestida, como andava normalmente. E se ele fosse
pessoa distante e pouco simpática? Se com isso arrefecesse a minha
"condição de incondicional" de tudo o que dizia e fazia? Grande
preocupação... Quanto ao que me esperava, isso já não era assim tão
misterioso, porque os jornais falavam do meu nome para várias pastas.
Sá Carneiro recebeu-me à hora exacta - não cheguei a sentar-me na sala
de espera. Com um sorriso luminoso, que começava no seu olhar claro!
Assim sempre o recordo, em todos os encontros que se seguiram. Quando
a ele me dirigi pelo seu título de chefe do Governo, atalhou: "Não me
chame Primeiro Ministro". Ao que eu respondi: "Desculpe, mas é como o
vou chamar, porque me dá imensa satisfação que seja Primeiro-
Ministro,e esperei anos para o poder tratar assim".
Mas, tratamento cerimonioso àparte, a conversa tomou o rumo de uma
alegre informalidade.
Dei respostas um pouco insólitas, no tom que tantas vezes usei com
outros políticos de quem era amiga de longa data. Sá Carneiro fez-me
sempre sentir absolutamente à vontade. Parece que havia quem ficasse
inibido na sua presença. Eu, pelo visto, ficava eufórica.
O Doutor Sá Carneiro, ele próprio, era, assim, uma esplêndida surpresa
A outra surpresa veio do pelouro que me propô:s a emigração, num
Ministério onde nunca tinha entrado, o de Negócios Estrangeiros.
No governo da AD, em 1980, havia apenas três Secretárias de Estado,
uma de cada um dos partidos, a Margarida Borges de Carvalho pelo PPM,
a Teresa Costa Macedo pelo CDS e eu pelo PSD (num impulso, filiei-me
nessa altura). Ainda a "quota mínima" tripartida...
A emigração, ou melhor dizendo, a Diáspora Portuguesa,( porque falo da
que tem uma estrutura orgânica, uma vida própria, colectiva, imersa na
nossa cultura e um futuro que talha com a preservação da herança
cultural) foi uma esplêndida descoberta - andava de comunidade
distante em comunidade distante, sempre e reencontrar-me em Portugal -
um fenómeno por mim insuspeitado de extra-territorialidade da nação.
Um mundo associativo espantoso , mas um mundo de homens. Eu era,a
primeira mulher que junto deles representava o governo da Pátria.Se
tinha dúvida quanto à reacção que provocaria. logo os receios se
desvaneceram - receberam-me sempre com alegria, com simpatia. Não fiz
unanimidade, é claro, mas os afrontamentos que houve foram sempre
devidos a questões políticas, não a questões de género. Eles
trataram-me tão bem, que me deram o que mais me faltava: um superávide
de confiança. Mesmo nas hostes poíticas adversárias encontrei quase
sempre boa vontade para trabalho conjunto, até no, por vezes, agitado
Conselho das Comunidades, que me coube organizar e presidirdesde1981
(era então um forum associativo, de perfil masculino, politicamente
dividido entre uma Europa mais contestria e uma Diáspora transoceânica
mais próxima das posições do governo´).
Na verdade acredito que ser mulher tornou mais fácil a minha missão.
Logo em 82, quem me fez ver isso, de uma forma incisiva, foi um
jornalista de S Diego. Paulo Goulart. No fim de uma entrevista, ao
almoço, disse-me: "Sabe, aqui só há dois políticos de quem gostámos: é
de si e do João Lima", antigo SEE e então deputado pelo PS. Fez uma
pausa, como quem avalia e compara os seus dois eleitos e acrescentou:
Pensando bem, o João Lima até tem mais mérito, porque é homem e
socialista.
Achei muita graça à sua franqueza e foi aí que ganhei a certeza de que
em certas situações, mesmo na vida política,mesmo em ambientes
dominados pelo poder masculino, é uma vantagem ser Mulher! Porque e´a
exótica excepção? Porque há no fundo, um reconhecimento de que as
mulheres fazem falta? Muitas hipóteses, para uma só certeza: no meu
caso, senti adesão e apoio desde o 1º momento, de um sem número de
homens influentes e de algumas raras mulheres , que já então se faziam
ouvir.
Quando deixei o governo, depois de cinco sucessivas esperiências -
sendo a última aquela em que os Secretrários de Estado passaram a ser
considerdos "ajuntos de ministro"...eu não estava habituada nem queria
habituar-me ao degradado estatuto - o imprevisto estava, de novo, à
minha espera na AR, onde tinha o meu lugar pelo círculo do Porto.: Um
convite para ser candidata à 1ª Vice-Presidência da Assembeia.
Aceitei, como aconteceu anteriormente, não muito segura de conseguir
sair-me bem na representação feminina... Fui, assim, a 1ª Mulher a
presidir às sessãos plenárias do parlamento, à Conferência de líderes,
a Delegações parlamentares - ao Japão, para começar...
Após 4 anos nesse cargo que, quando não assumido por uma mulher, tinha
sido sempre discreto, apesar da sua importância protocolar (2ª figura
na linha da sucessãoo do Presidente da República, "en cas de
malheur"...),
Finalmente. em 1991, fui eleita para um lugar que me atraía, que
verdadeiramente queria: representante da AR na APCE (Assembleia
Parlamentar do Conselho da Europa). Aí, me mantive até abandonar o
Parlamento nacional em 2005. Fui bem mais feliz e bem sucedida lá fora
do que dentro de fronteiras (tanto na emigração como nas organizações
internacionais, como a APCE. e a AUEO..Ali havia menos jogos políticos
de bastidores, não se sabia o que era disciplina partidária, era larga
a margem de iniciativa pessoal, para intervir, para propor
recomendações... Presidi à Comissão das Migrações à Subcomissão da
Igualdade e a outras, fui relatora em inúmeras propostas, sobretudo
nestes dois domínios. Defendi a dupla nacinalidade, o estatuto dos
expatriados, a não expulsão de imigrantes, o reagrupamento familiar,
insurgi-me contra a guerra do Iraque, , denunciei a discriminação de
género no desporto... Acabei a presidir, entre 2002 e 2005, à
própria delegação Portuguesa à APCE e á Assembleia da UEO, uma
organização pioneira, cuja experiência e excelência em matéria de
defesa a Europa subestimou ao extingui-la recentemente.
Um outro inesperado e insistente convite me levou, depois, à vereação
da Câmara da cidade onde vivo, Espinho... Fui vereadora da Cultura no
ano do centenário da República e isso permitiu fazer coisas diferentes
e por o enfoque no movimento feminista e republicano. Não que eu seja
republicana hoje, mas tenho a crteza que o teria sido em 1910, na
companhia da Carolina Beatriz Àngelo, Ana de casro Osório ou Adlaide
Cabete. E feminista, sou, sem nunca ter tido medo da palavra. Sou-o no
sentido preciso que lhe davam as nossas sufragistas.
Também nunca tive o complexo de prencher o espaço aberto pela "quota"
, mais ou menos explicita. No meu caso, nunca explicita, nem mesmo no
cargo de VP da AR e sempre rejeitada pelos opositores das quotas como
tal. Qundo eu dizia: escolheram-me para Vice-Presidente da AR,
porque queriam uma Mulher (o que para mim era evidente, estava certo e
só pecava por ser decisão tardia), respondiam-me
"Manuela, não diga isso! Está nas funções pelo seu mérito"
O meu mérito não era coisa que eu fosse discutir!... Discutia, sim, o
mérito do sistema de quotas, que em nada contende com o valor ou
capacidade pessoal, antes pelo contrário o pressupõe, mesmo quando
porventura errando. Mas erros de "casting" não faltam também, e são
muito mais comuns, no caso de políticos promovidos pelas máquinas
partidárias, à maneira tradicional.
PELA PARIDADE, PELAS QUOTAS
Assim vou terminar.
Quando há avaliações objectivas dos candidatos, o sistema de quotas é
inaceitável. No acesso às universidades, por exemplo, são escolhidos
os melhores alunos, os que têm melhores notas. Por sinal, são
mulheres, mas aí, se não fossem, não seria justo e legítimo intervir .
A falta de educação, de formação seria, de resto, o único fundamento
de uma desigual participação feminina na vida pública. Onde a situação
é de igualdade ou supremacia, a ausência das mulheres impõe uma
presunção de discriminação. A Lei da Paridade torna essa presunção
inilidível e, a meu ver, é com base nela que determina uma quota
mínima em função do género.
A igualdade de mérito presume-se e a realidade tem vindo a comprovar a
presunção onde quer que o sistema seja praticado de boa fé e com
honestidade: no norte da Europa, onde o sistema nasceu, ou no sul,
onde chegou com atraso. E Portugal não é excepção.
Mas é da maior importância que a aplicação da Lei da Paridade seja
objecto de avaliação, como a própria Lei impõe, ao fim de cinco anos
(artº 8º)
. Estranho que 7 anos depois da entrada em vigor da lei, a obrigação
de cumprir o preceituado no artº 8º ande esquecida. Onde estão os
estudos sobre a progressão das mulheres, a nível do parlamento e das
autarquias locais?
Estranho, ou talvez não, porque as questões de género continuam
descentradas da agenda política em Portugal.
Aqui fica uma chamada de atenção ao Governo e ao Parlamento, seja para
eventualmente poderem pensar alterações à lei nº 3/2006, com vista a
mais paridade, seja para conferirem mais visibilidade ao percurso que
as mulheres vêm fazendo no caminho que a Lei lhe tem aberto, contra
regras não escritas e práticas diiscriminatórias vigentes nos
aparelhos partidários.
E quanto à frase com que comecei para me definir como feminista, devo
dizer que não a li nim livro, nem a ouvi num congresso - vi-a, há
muitos anos, numa placa de um carro que atravessava o centro de
Boston, iluminado pelo sol:
FEMINISM IS THE RADICAL NOTION THAT WOMEN ARE PEOPLE
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