quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

ISABELINHA 50 anos!

Bom, ela não gosta particularmente de celebrar estas datas... Como a compreendo! Partilho o sentimento... Mas não se importará se eu assinalar o 13 de fevereiro de 2018 apenas com algumas fotos de recentes festas de quem gosta de fazer anos.

Pai 1º versão mais completa A PARTIR DE UM SONETO

Maria Manuela Aguiar 4/02 (há 12 dias) para mim A PARTIR DE UM SONETO " Deixei, num voo pleno de ansiedade, Vogar, na asa do sonho, o coração" (in "Íntimo") Em 1995, o Pai e eu estávamos a preparar uma edição dos seus versos de juventude - sonetos dedicados a minha Mãe, no início dos anos 40, quando se conheceram. Havia muitos mais, mas só restam os que ela guardou. À época, anos 30 e 40 do século passado, era comum os namorados expressarem sentimentos, de preferência, em palavras que rimavam e podiam guardar-se, em bom papel, como recordação, numa gaveta ou num cofre. Foi exatamente o que fez minha Mãe - guardou-os e, por isso, os "versos para você, Maria" são praticamente os únicos de sua autoria, que chegaram até hoje. O Pai era um repentista, escrevia, com facilidade, os seus poemas e, muitas vezes, igualmente, outros para os amigos, que queriam passar por poetas. Em regra, à mesa de um café - os salões dos café foram sempre a sua segunda casa, no Porto ou em Espinho... Quando começámos o projeto, rapidamente mandei dactilografar os manuscritos e o Pai escolheu, logo, o título : "Íntimo", que é o do soneto a que pertencem as estrofes acima citadas. Ao Pai cabia fazer a definitiva revisão do texto, acrescentar ou cortar vírgulas, e eu trataria do resto - tipografia, capa, imagens, edição. Mas o Pai foi adiando, adiando... Reuniu as folhas soltas, uma para cada soneto, numa pasta de cartolina, e, às vezes, até saía com a pasta debaixo do braço, levava-a para o Café Palácio. A boa intenção era dar-lhe uma vista de olhos, enquanto esperava os amigos, depois da leitura vagarosa do seu jornal (estava sempre atualizado, sobretudo em matéria política - bem mais do que eu, então sempre de partida para as reuniões do Conselho da Europa ou para visitas às nossas comunidades transoceânicas). Contudo, os amigos não tardavam. ou encontrava-os já sentados numa das mesas redondas do novo Palácio ou. mais raramente, no bar do Casino. O tempo esgotava-se nas conversas, nos passeios à beira-mar, nos encontros com a família de Gondomar, diante do ecrã de televisão (horas...) ou na leitura pela noite fora - ultimamente biografias, os policiais de Sara Paretsky, Umberto Eco, humorísticos, como Guareschi, Jerome K Jerome, ("so british", o seu predileto), sem esquecer a missa e meditação diárias, as novenas na capela de Nossa Senhora da Ajuda. Era evidente que a pontuação dos versos não tinha prioridade nesta preenchida agenda de reformado, em Espinho, terra de tertúlias, esplanadas, praias e mar, de que tanto gostava, desde a sua infância. Não havia pressa. Contudo, a morte veio subitamente. O seu coração parou. Parou mesmo, coisa absurda, enquanto conversava connosco, a meio de uma frase... Sereno, bem disposto, a jantar, fazia um comentário sobre esse dia animado domingo de Páscoa, em casa do Mário, em São Cosme, onde nunca falhávamos o "compasso". Antes tinha discorrido sobre a crónica semanal de Marcelo Rebelo de Sousa, já nem sei em que jornal, talvez "O Expresso". Era um incondicional admirador de Marcelo, decerto apreciaria agora o seu estilo na presidência. Dou por mim, muitas vezes, a pensar nos diálogos que teríamos sobre vagas de acontecimentos que se sucederam na sua ausência - vitórias do Porto, derrotas do Porto, a "troika", a "peste grisalha", no dicionário dos medíocres políticos da nova geração, os atentados, a ameaça da hegemonia alemã na UE, o "Brexit", o Papa Francisco... Não estávamos sempre de pleno acordo, mas conversávamos longamente, a dois, ou no seu grupo de amigos, a que me juntava, de vez em quando. Éramos uma família pluralista - o Pai, um democrata de sempre, republicano, anglófilo, conservador, votava PSD, a Mãe, muito à direita, monárquica e militante do PPM, fazia "voto útil" no CDS e eu, à esquerda, "social- democrata à sueca" (embora também eleitora do PSD) e, se a questão de regime ainda se pusesse, monárquica, mas igualmente à maneira sueca. Quanto à coletânea, publiquei-a prontamente, sem mais revisões, com a ajuda de um dos mais jovens participantes da tertúlia do Café Palácio, o Fernando, que tratou da parte gráfica, numa tipografia dos Carvalhos O Pai teria apreciado esta ligação aos Carvalhos, onde viveu 11 anos felizes no famoso colégio, que é um "ex-libris" da terra, ainda hoje. Além dos versos, apenas algumas fotografias (de pouca qualidade, por sinal), e umas breves palavras da mulher e da filha. Agora, esta edição, no ano do centenário do seu nascimento, é uma ocasião para falar dele, da sua vida, família e amigos. Íntimo, nos seus versos e na nossa prosa. A VIDA QUE VIVE NA NOSSA MEMÓRIA Para mim, foi um Pai presente numa infância alegre, acompanhou-me nas crises e esperanças da juventude, e, depois, ainda por muitos anos, numa relação progressivamente mais equilibrada, mais igualitária, como se a diferença de idades se fosse esbatendo. E, por isso, quando assim é, o Pai não pode desaparecer, fica connosco até ao fim de nós próprios. Especialmente, se era como gostávamos que fosse. Se cada vez o compreendíamos mais e o achámos melhor, de facto, em correspondência com a realidade, porque quando as qualidades existem, o tempo e a experiência servem sempre a sua afirmação. Com ele, assim aconteceu, sobretudo, no respeitante àquelas qualidades que exercitava no dia a dia e o faziam ser sagaz nos seus juízos sobre as pessoas e o mundo, muito simpático para com toda a gente e competente no seu trabalho ("reliable", para usar a sua língua estrangeira preferida - para ele tudo o que era britânico era bom, da democracia aos seus bonés de "irish tweed"). Havia, sem dúvida, outros talentos inatos, de que desistiu cedo, fosse por descrença nas vantagens de os cultivar, por lucidez sobre a relativa insignificância de atingir objetivos que outros prezavam demais , ou (quem sabe?) por não se achar fadado para os alcançar. Faltava-lhe ambição, agressividade competitiva, instinto empresarial (que ambos os seus avós tinham de sobra, e, por isso, ambos fizeram fortuna). mas não lhe faltavam preocupações, com coisas grandes e pequenas. Preocupava-se demais, era excessivamente dado à ponderação de prós e contras de uma decisão, abordava as questões por todos os ângulos possíveis, levava o seu tempo (muitos anos mais tarde, quando o Dr Silva Leal, que foi seu professor no ISCTE, e meu "chefe" num Centro de Estudos, referindo-se a um político ascendente no fim do velho regime, o classificou como "suficientemente ignorante das matérias, para tomar decisões rápidas e eficazes", lembrei-me do meu Pai, que estava nas antípodas). Isto no que respeita a sucesso material, não na vida que há para além da procura do lucro e da "glória", nem em matéria de aventuras sentimentais, inicialmente simples namoros de juventude, depois, dois casamentos românticos, aos 19 e 22 anos, o primeiro breve e trágico, com a morte da noiva, o outro longo - mais de meio século - até à sua morte. Duas mulheres belíssimas, de forte personalidade, sempre vestidas pelo último figurino, inteligentes e audaciosas, que trouxeram, certamente, "glamour" e intensidade à sua vida. Dizem os entendidos na matéria que os nativos de gémeos são eternamente jovens. Não sei se se comprova, se é coisa escrita nas estrelas, sei que, no caso do Pai. era certamente verdade. Talvez por isso, voltou à universidade depois dos quarenta e foi colecionando bacharelatos e licenciaturas. Começou com um recém-criado curso de Política Social no ISE e acabou, entre os primeiros licenciados em Sociologia pelo ISCTE. Tudo em Lisboa. Fez muitos amigos, sobretudo, entre os que eram, como ele, do Porto. Iam para aulas de fim de semana (gesto simpático dos professores) e para os exames em excursão de camionete. Uma festa! Gostava de conviver com jovens. Era tolerante e divertido, embora discreto, nas tertúlias. Tinha sentido de humor, graça e simpatia, que o tornavam popular junto de todas as gerações. Seria um bom político, se tivesse vocação, mas não tinha. NASCIDO EM AVINTES "Deixa aqui escrito o seu nome O célebre João de Avintes" (in " Apresentação") João. O menino que nasceu em Avintes, numa casa com vista para o Douro, numa colina verde, a que chamam, justamente, "o outeiro". A 6 de junho de 1918. O nome dificilmente poderia ter sido outro. O Avô paterno era João Dias Moreira, o Avô materno João Capela. Era o primeiro neto de ambos. Um herdeiro robusto, branco, loiro: assim o mostram as fotografias tiradas num estúdio do Porto. Não tinha os olhos azuis do Avô Capela, mas prometia a compleição nórdica do Avô Dias Moreira, com os seus imponentes quase dois metros de altura. A mesma estatura do meio irmão, o Tio Padre Manuel Pinto da Silva. Família de gigantes, que parecia vinda dos "Highlands" da Escócia. E, talvez, remotamente, viesse, fruto do encontro de povos que provocaram as invasões francesas, mais a aliança luso-britânica. Soldados inimigos e aliados, todos andaram por ali. Gramido fica em frente ao Outeiro, do outro lado do Douro. Sempre achei curioso que em Avintes, nos tempos da minha infância, ainda se pronunciasse o "L" à francesa.... Mas sobre essa possível ascendência nada sei em concreto, para além desses traços fisionómicos pouco latinos, e de anglofilia declarada, que passou de geração em geração, atravessando as duas guerras europeias do século XX, a que então terminava e a que havia de acontecer duas décadas depois. De concreto, sabe-se que eram chamados os "patrões", provavelmente descendiam de antigos donos de estaleiros que existiram na ribeira de Avintes. Foram-se os estaleiros, mas não a alcunha. O menino era o "Joãozinho Patrão", filho do Manuel Patrão e neto do João Patrão. Na primeira imagem, possivelmente de fins de 1918, é um bébé gordo, a olhar em frente, olhos bem abertos, muito sério, entre os pais, Olívia e Manuel. Tem a mesma expressão, um pouco depois, já sozinho, sentado nos veludos de um estúdio, face à câmara, vestindo apenas uma diáfana camisa de cambraia branca, o cabelo escondido numa touca de renda. Era coisa comum, então, fotografar os meninos nus, como os anjinhos do céu, mas imagino que a Mãe o quis poupar a tamanha exposição... O traje escolhido, sumário, leve e gracioso é, em todo o caso, mais etnográfico do que a nudez. (Tão religiosa a Avó! Creio que, se pudesse, vestiria até os anjinhos, tanto nas esculturas como nos óleos das igrejas...)
Quatro ou cinco anos passados, é um rapazinho, que continua a não sorrir para a câmara, de pé, em poses artificiais, ensaiadas pelo retratista; de perfil, com calção curto e "blazer", encostado a uma coluna, ou de frente, com indumentária semelhante, junto a um brinquedo de praia. Praia de Espinho, estúdio da Fotografia Evaristo.
O assim retratado não desperta uma grande empatia, não sendo, nessa fase, particularmente bonito ou expressivo, sem sinais da beleza exótica da mãe (dir-se-ia oriental, embora não o fosse) ou da pose natural de um pai bem parecido, que, para além de ator de teatro (no "Grupo Mérito Avintense"), podia bem ter sido ator de cinema. Estaria, talvez, contrariado, desconfortável sob a luz dos holofotes. Ou, talvez, refletisse o ambiente triste, em que terá crescido, depois da morte ainda recente dos irmãos mais novos, os gémeos, Alberto e Manuel e a irmã Maria, os três vítimas de complicações que hoje a medicina resolve facilmente. Saudável e forte só mesmo ele, o primogénito. Foi criado entre adultos, objeto de todas as atenções e de todos os cuidados, mas brincou, com certeza, muitas vezes, com os primos Reis e os primos Marques, nas casas deles, ou na sua, nos campos tranquilos da beira rio e em passeios de barco. Nos meses de verão, encontravam-se em Espinho, onde os avós maternos tinham casa de férias. E a relação fraterna, entre todos, manteve-se ao longo da vida. O Pai não falava muito dessa infância mais remota, nem das pessoas, nem dos lugares - o que é normal, sempre que nada corre particularmente mal. Mas abria uma exceção para a Avó Quitéria Francisca, que era uma fascinante contadora de histórias e declamadora de poesia popular - ela própria, quando jovem, imbatível na arte das "cantigas ao desafio". Grande mulher de pequena estatura, que acumulava bom senso e imaginação, frontalidade e gentileza e tanto sabia, trabalhar, infatigavelmente, como divertir-se. Impressionou o neto mais do qualquer outra figura tutelar, sem sombra de dúvida. ONZE ANOS FELIZES NUM COLÉGIO Aos 6 anos, grandes mudanças, que o levaram de casa de seus Pais para um colégio interno. Primeiro, a escolinha do Padre Luís, em Oliveira do Douro, e,logo de seguida, o colégio dos Carvalhos. Decisão paterna, pela certa. O Pai valorizava, acima de tudo, uma excelente educação, e o sucesso académico. Tinha as suas razões... Ele próprio, não pode formar-se, em Coimbra, no curso de Direito, porque, como único filho varão, estava destinado a tomar conta das muitas terras que iriam ser suas, Não era o que queria - prezava mais a cultura das Letras do que a agricultura. A mim, lembro-me bem de que me dizia: "a melhor herança que podes ter é um curso universitário". Obviamente, ao filho disse o mesmo, muitas vezes. Não creio que a ideia agradasse à mãe, que, parecendo dócil e serena nos retratos, não era fácil de contrariar no dia a dia. Mas te-la-ão convencido os senhores padres - o Padre Luís, que era um verdadeiro santo, o abade de Avintes, visita assídua da casa e a falta de argumentos, porque em Avintes não havia colégio e porque o filho gostava do internato, que via como um mundo lúdico, cheio de companheiros da sua idade. Na época do Colégio dos Carvalhos, o Pai já tem, enfim, algumas parecenças com a pessoa de que eu me lembro, noutra idade, naturalmente. Já sorri, no meio de muitos amigos, todos irradiando boa disposição. Podia ser fingimento, encenação, "fazer de conta", mas não era! Aquele colégio foi mesmo, para ele, um lugar perfeito. As amizades que aí fez, perduraram. Era um excelente desportista (futebol, atletismo) um aluno despreocupado, que cumpria os mínimos em ciências e se dedicava de bom grado às letras, com uma inclinação para os autores latinos (para meu espanto, contava que lia Virgílio e Ovídio no original, por gosto - exemplo esse que eu não fui, nem de longe, capaz de seguir
). Do ciclo do colégio eram inúmeros os episódios engraçados que recordava - coisas de rapazes, partidas que pregavam uns aos outros, escondiam os pacotes de doce ou os queijos regionais que alguns guardavam nos cacifo, e, também, passeios, excursões, bailes locais em que conseguiam introduzir-se, não sei se quebrando as regras da instituição, ou não. Numa dessas festas, à porta do salão havia um cartaz que dizia: "Pede-se às excelentíssimas damas para virem calçadas". Nas feiras, o pai representava facilmente o papel de um inglês, que como estrangeiro, então uma raridade, recebia as melhores atenções. Os outros faziam de conta que traduziam... Uma vez correu mal, tropeçou, lançou um brado em português e pouco faltou para que todo o grupo, o falso inglês e os falsos tradutores, fossem linchados... Os onze anos de Carvalhos tiveram, contudo, o hiato de uma época, justamente no último ano. Influenciado, certamente, por amigos de Avintes, talvez mesmo pelos primos, quis ir para o liceu Rodrigues de Freitas e os pais fizeram-lhe a vontade. Tomava a camionete para o Porto mesmo à porta de casa, onde havia uma conveniente paragem, e seguia num grupo animado de colegas, Foi um tempo divertido, possivelmente até demais, porque chumbou. Para tudo há uma primeira vez. Queixava-se de perseguição de um dos professores... Parece que partilhavam idêntica atração por uma jovem portuense, que foi fonte potencial de conflitos alheios ao curriculum liceal. Paixões juvenis, devaneios românticos, não não eram mencionadas pelo Pai como matéria de que se fazem histórias para rir ou sorrir - só esta e "en passant", como justificaçãom digamos, um pouco incomum do "insucesso escolar". Ficou a impressão de que era precoce nesse capítulo e que encontrava boa recetividade no sexo feminino. Aos 17, 18 anos era já um rapaz vistoso e comunicativo, alto e loiro e, se isso era fator atendível para algumas meninas, com fama de herdeiro rico. Perante o desastre académico, não hesitou, pediu, sensatamente, aos Pais para voltar ao colégio. No Porto, as coisas não prometiam a correção de trajetória, que facilmente conseguiu na branda e lúdica clausura dos Carvalhos. Não sei se foram desse tempo do Liceu Rodrigues de Freitas, mas devem ter sido, outros divertidos episódios, protagonizados em parceria com o primo António (Reis). O Tio Reis era funcionário superior das Finanças e vinha diariamente de carro para a cidade. O automóvel ficava o dia inteiro estacionado por perto, na rua e quem, secretamente, o utilizava era o filho, Com o seu talento para toda a espécie de engenharias, mesmo sem chaves, conseguia abrir portas e acionar o motor Convidava o primo e alguns amigos para um passeio até à Foz ou outro sítio aprazível e, depois, retornava o veículo ao lugar de estacionamento. Mesmo que não fosse rigorosamente o mesmo lugar, o Pai era um senhor distraído e não notava o desvio. Reparava, sim, no consumo excessivo de gasolina e trocou de carro por causa desse defeito. Não sei se também trocou o seguinte, ou se os rapazes passaram a dar umas voltas mais curtas... Uma vez, apareceu um polícia, quando o António estava se preparava para abrir a porta sem chave... Nada que o embaraçasse. Chamou a autoridade e pediu ajuda, dizendo que tinha perdido a chave. O polícia amavelmente tentou ajudar. O António tinha, definitivamente, ar de dono daquele carro. Não se pode dizer que a sua infância e juventude fossem pontuadas por acontecimentos espetaculares. Foi sempre demasiadamente bem comportado, pois com comedidas e inofensivas transgressões se contentava. Espetacular, bombástico, embora, segundo alegava, não doloso, só o caso de uma experiência laboratorial do António no Colégio João de Deus, contando com a desastrada colaboração do colega José Aguiar, que alguns anos depois, seria cunhado do primo João. Na altura em que ambos fizeram explodir parte do laboratório, nenhum parentesco, nem mesmo por afinidade, os ligava, Os pais pagaram o prejuízo, e parece-me que foram expulsos (a expulsões de colégios portuenses estava o José já habituado, facto agravante que terá pesado na sanção de ambos).
De Avintes, as narrativas mais divertidos começam com a chegada dos novos "vizinhos do lado", donos da quinta que confinava com os terrenos da casa dos pais: o Coronel Novais e Silva, a mulher Haydée Genelieu (descendente de um dos engenheiros que acompanharam Eifel na construção da ponte sobre o Douro) e os filhos, Maria Beatriz e António Júlio. Uma família encantadora, da alta burguesia portuense, que trocou a cidade por aquela aldeia milenária e tranquila, numa colina com esplendorosa vista sobre casas rurais, campos de milho e uma larga curva do Douro ao longe. A mesma vista que se desfrutava das janelas do 1º andar da casa do Pai (ou dos seus Pais) na Rua 5 de outubro, a primeira que se encontrava à vinda do Porto ou de Oliveira do Douro, depois de atravessar o Febros, afluente do Douro, no início de uma subida íngreme. As propriedades eram separadas por uns metros de declive, cada vez mais acentuado, à medida que se descia vários lances de escadas da casa da quinta para o interior da quinta. Entre as casas, a divisória era apenas um muro alto, onde colocaram, de ambos os lados, escadas de madeira para um trânsito fácil, quando a relação de vizinhança se transformou em grande amizade. Os três adolescentes, a Maria Beatriz um pouco mais velha e o António Júlio um pouco mais novo do que o João eram tratados como irmãos pelas duas famílias. O Coronel era, naturalmente, mais severo com eles do que com ela e o João tinha de cumprir ali reagars de disciplina, a que não estava nada habituado. Gostando embora do Coronel, o Joãozinho sentia-se bastante intimidado na sua presença, gaguejava mais do que o costume para se justificar, quando era preciso, atrapalhava-se e, por isso, várias vezes as coisas lhe corriam menos bem. Era, de facto, ligeiramente gago, caso que não se explicava pela genética. Constava que teria sido consequência de um grande susto, quando, por brincadeira, uns rapazotes, talvez moços da lavoura das terras dos Avós, fizeram de conta que o deixaram sozinho dentro de um barco, aparentemente à deriva, fugindo da margem do rio. Ninguém tinha certezas, nem os pais nem ele, mas o problema surgiu, de repente, aí por volta dos 3 ou 4 anos. Certo é que não tinha medo da água, nem do mar, nem do rio, nem de correr pelas terras ribeirinhas, onde se lembrava da figura imponente do Avô João, agigantado nos seus capotes alentejanos e da avó de um metro e meio, que o deliciava com histórias, provérbios e lenga -lengas. Os primos diletos (Reis, Capelas e Marques) moravam, todos longe (o "longe" das aldeias pequenas, na outra extremidade da rua 5 de outubro, que é a "avenida de Avintes"), muito mais comprida do que larga, ter, ali, quase em comunidade, aqueles "novos irmãos" foi uma sorte para um filho único, tão sociável e divertido. E a relação havia de manter-se, sempre, mesmo depois dos Novais e Silva se mudarem para o centro do Porto, na Boavista. A quinta foi comprada por um casal minhoto, sem filhos, que manteria as escadas de ligação por sobre o muro e uma relação de vizinhança muito amistosa, mas isso aconteceu vários anos depois. Nos relatos do Pai, rapazes e raparigas do seu círculo eram referidos no mesmo plano, um plano de igualdade, o que nos deixava, a minha irmã e a mim, um pouco surpreendidas. Contava, por exemplo, como conviveu, no colégio dos Carvalhos, no fim do curso do liceu, com colegas raparigas, não sei porque razão, nesse ano, admitidas, a título excecional. Poucas, é claro, uma delas, se não me engano, Virgínia de Moura. Vi-as com simpatia, tal como as primas ou a Maria Beatriz (nunca falou, porém, de namoradas, sendo certo que nós também nunca perguntámos). A mesma atitude parece ter tido o António (Reis), que reagiu, até onde pode, às limitações que eram impostas à irmã, por exemplo à proibição de conduzir carro e tirar carta. Ensinou-lhe a guiar, às escondidas, e deixava-a levar o carro, pelas estradas cheias de curvas perigosas, subidas ou descidas, das saídas de Avintes. E, em compensação, ela deixava-o tocar o seu piano. Para o conservadorismo dos tios Reis, o volante do automóvel era para mãos masculinas, tal como o piano para as femininas. Na verdade, o pianista mais talentoso era mesmo o António, que sem nunca ter tido professor, tocava, de ouvido, excelentemente, música clássica... O João também quis, em vão, aprender piano. O Pai, que era melómano, e até também tocava de ouvido vários instrumentos, ofereceu-lhe um pequeno violino no lugar de um grande piano, como a Jacob, ao qual"em vez de Raquel lhe davam Lia". Ao contrário de Jacob conformou-se. Nunca se converteu em grande executante, mas sentiu a falta do violino depois de o ter, imprudentemente, emprestado a um amigo de um amigo, que lhe deu sumiço... Com ou sem violino, em Avintes, ou ao som do piano, ou com o coro familiar a cantar à capela, os nossos serões eram muitas vezes animados, pela música. (Todos cantavam bem, exceto eu, que em coro tratava de não sobressair). Outras vezes, eram estas histórias de juventude que nos entusiasmavam, mesmo que fossem repetidas, porque havia sempre um novo pormenor. Arrepiante só a tragédia dos saguís do António, que era situada no seu exato contexto, com uma infinidade de detalhes e de protestos de inocência, de facto, credíveis porque os dois primos eram amigos de todos os animais conhecidos. Resumindo: os pequenos macacos engraçados, trazidos do seu habitat por um tio, que era médico de bordo de navios, em longas viagens intercontinentais, estranhavam, naturalmente, o frio dos invernos europeus. O tio, e os macaquinhos, as brincadeiras eram descritos com enorme realismo - e também o desconforto de bichinhos de outras paragens, no comparativamente escuro, frio e confinado horizonte de um casarão de Avintes. Solução, com a marca mais do António do que do João: estágios de alguns minutos numa fornalha, bem temperada para os aquecer, mas não demais. Os saguís davam espetáculo, coitados, saltitando lá dentro, até serem libertados, de novo, para o exterior, à temperatura ambiente. Morreram rapidamente de pneumonia... "LOVE STORY" NAS MARGENS DO DOURO Avintes era terra de boa agricultura e de pinhais, de lavradores, uns mais ricos do que outros, de gente pobre também, trabalhadores rurais e operários, e de elites intelectuais - um grupo alargado de artistas, académicos, gente de profissões liberais, empresários, quase todos ligados ao Porto, naturalmente. E, alguns, até ligados ao Brasil, com os seus palacetes ao longo da rua 5 de Outubro. O ciclo era de remanso económico e político, entre duas grandes guerras fratricidas, Cá dentro uma ditadura, aparentemente branda, consolidava-se a olhos vistos e para muitos portugueses, como os pais do António e do João, era uma boa resposta à agitação política e social da 1ª República. Os pais eram mais salazaristas do que os filhos, que, contudo, não andavam pelas trilhas da luta revolucionária. Com prioridades mais ligeiras, para eles, em Avintes, o tempo era de festa. Os jovens estudantes estavam unidos pelo parentesco, ou eram "primos dos primos" e, em qualquer caso, conviviam como família. Para muitos, bastava andar uns metros na mesma rua, para se encontrarem nas casa uns dos outros. Uma maioria morava acima do Cruzeiro, onde a rua que vem da Igreja entronca na 5 de Outubro, à vista da elegante mansão que acolhe o Clube Avintense, na altura um clube luxuoso, fechado, só para alguns, só para homens. (As portas abriam-se às senhoras apenas para bailes de gala). A casa dos Tios Reis (onde está agora instalado o teatro dos "Plebeus Avintenses") era junto à dos primos Marques (herdada de um avô comum do Francisco, do Corinto, do João, do António, da Maria Angélica). Um pouco abaixo, a vivenda da Maria Argentina, prima dos Reis e a da Celina Viana. Mais a cima, as meninas da quinta da Gândara, que pertenciam ao grupo, dentro do qual alguns casamentos românticos foram tecendo (como o da Hilda da Gândara com o Carlos Reis, o da Çelina com o João Moreira, ou muito mais tarde, o da Maria Angélica com o Corinto Marques). De facto, da amizade também nasceram paixões... De todas, a que mais marcou o imaginário daquela geração, foi, certamente, a que teve no centro a personalidade forte, a grande beleza, e o destino de Celina.
A vida parecia tê-la favorecido em tudo. Sabia conseguir o que queria, de uma forma sensata e determinada, que os outros aceitavam com a força dos seus argumentos e do seu encanto pessoal, a começar pelo "inner circle" da própria família. Com amável camaradagem, afastava os pretendentes, que eram bastantes, e, por fim, fez a sua escolha - o João. Amor correspondido. Quando casaram, ela tinha 21 anos e ele 19. Por Celina, desistiu do curso Letras em Coimbra. A Faculdade de Letras do Porto, tinha sido encerrada pela ditadura, para correr com todos os vultos (oposicionistas) que tanto a prestigiavam. Ciências que era o que a cidade podia oferecer-lhe e aí se matriculou. Talvez só para satisfazer a vontade do pai. Como era previsível, rapidamente abandonou as aulas, por declarada falta de vocação científica. E procurou emprego por perto - na Câmara de Gaia. Havia uma boa razão para um enlace tão prematuro. A "doença do século", ou do início do século, que era ainda a tuberculose, não poupou aquela fascinante mulher, em plena juventude. Não se deixou vencer pelo medo, não quis esperar pelo veredito incerto sobre a doença, não hesitou, quis viver com o homem que amava, nem que fosse por um breve futuro de felicidade. Ele também não hesitou e ambas as famílias se empenharam, em tornar possível uma verdadeira "love story" de fins da década de 30. Quando vi o filme com esse título, tantos anos depois, lembrei-me daquela história antiga, que eu, ainda criança, fui reconstituindo e recriando na minha imaginação, como um "puzzle", ouvindo comentários daqui e dali, ou discussões ciumentas, por parte da minha Mãe, sem nunca ter questionado diretamente ninguém, e muito menos o meu Pai. Os contornos sociais eram bem diferentes dos da trama "made in USA" - ali tudo e todos giravam à volta dela, como sujeito de admiração universal. Todavia, na ficção americana e numa realidade, onde Celina ocupava graciosamente o centro de cena, o papel principal, a essência era a mesma: a vivência efémera de um sentimento eterno. O casamento durou sete ou oito meses de felicidade. Valeu, certamente, a pena. E a imagem de Celina, que partira, continuava intensa e luminosa na memória da terra. Uma memória venerada contra a injustiça da sorte. Os sogros, que a adoravam, como uma filha querida, conservavam o seu retrato na sala de visitas, numa enorme moldura de prata. Uma foto de meio corpo, cabelos escuros, soltos, compridos, uns olhos expressivos, um sorriso e um luxuoso vestido de seda, sem colares nem adereços. Parecia-me uma princesa, ou uma estrela de Hollywood. Encantava-me a senhora do retrato, queria saber mais sobre a sua vida. Impossível, porque minha Mãe não suportava o que chamava "o culto" de Celina, as fotos expostas na casa, as "romagens" ao seu túmulo, as recordações e os sentimentos os sogros dela guardavam. Pode ter ocupado um lugar igual no coração do marido, mas não no deles! As disputas sobre a exposição do retrato duraram anos, e, por isso, me foi acessível até uma idade, 7 ou 8 anos, em que ficou bem gravado na memória . Mas um dia, a minha ciumenta Mãe levou a melhor, a moldura desapareceu, depois de uma última discussão, e fez-se silêncio. Nunca consegui aceitar, ou melhor, compreender a razão dos ciumes de alguém que já não estava ali - sou e, já em menina era, instintivamente favorável ao absoluto respeito por uma diacronia dos afetos, em que cada tempo tem o seu império - a simultaneidade de relações amorosas é o que não tolero, no que me diz respeito, embora reconheça, racionalmente, que é possível estar dividido entre dois amores atuais. Ainda por cima, a segunda mulher era também elegante e bonita, diziam até que parecida com a primeira. Mais pequena e mais magra, é certo, mas não menos arrebatada e voluntariosa. Só mais de meio século depois destes incidentes, que me desgostavam, mas que não tinha com quem comentar, encontrei um interlocutor inesperado: o primo António Reis, em Toronto, numa das minhas frequentes visitas ao Canadá (para onde ele emigrou a meio dos anos 60, com a Mulher Amélia e o filho pequeno). Quando podia, prolongava a visita e ficava em casa deles, perto do aeroporto. Foi numa dessas ocasiões que o tema surgiu, a propósito da produção poética do meu Pai, que se perdeu, como já disse, quase toda. Os versos dedicados a Celina foram rasgados, durante uma crise de ciúmes. Na verdade "abismus abissum invocat" (espero ter acertado no dito latino, que o Pai saberia aprovar ou corrigir...). São atitudes de fácil contágio - o Pai fez exatamente o mesmo a uma composição musical inédita do pianista Marques Ribeiro dedicado à Mulher, com quem tivera um princípio de romance... Foi então que, na sua casa de Martha Eaton Way, o António "agarrou" o tema de conversa. Primeiro, tentou lembrar-se dos sonetos escritos para Celina, mas só conseguiu recitar um, e incompleto. Depois, falou dela, infindavelmente - de uma jovem moderna, um ícone da última moda, alta, lindíssima, muito divertida, e sempre cercada por uma corte de admiradores. Entre estes, ali o confessava perante uma Amélia complacente, ele próprio! Com dezasseis, dezassete anos, sentia-se perdidamente apaixonado. Os dois primos, cada qual o mais atraente, numa disputa pouco fraternal pela mesma mulher - jamais imaginaria! Celina, obviamente, não levava a sério o mais novo, novo demais. Essas confidências foram uma revelação, trouxeram-na, da distância de um Olimpo, da figura recriada a partir de uma pose teatral, que a fazia parecer mais velha, com um "glamour" de "mulher fatal" para uma jovem extrovertida, com eu própria tinha sido, irreverente, iconoclasta, ágil, desportista. O que mais me ajudou a reconverter o mito na pessoa real, foi o episódio da sua chegada a uma reunião de amigos pelo telhado - estavam, elas e eles, à conversa num sotão e ela surpreendeu-os entrando por um postigo do telhado. Mas que bem! Tão parecida com a minha Mãe, que fazia coisas perigosamente na mesma linha, como subir ao telhado da "casa da eira" e inclinar-se na esquina para apanhar os araçás mais inacessíveis, ou saltar do 1º andar da casa por sobre canteiros de roseiras de pé alto, só para vencer apostas... Na geração seguinte, eu fiz o mesmo. Do primeiro casamento do Pai não existem imagens - deve ter havido muitas, mas perderam-se, nunca as vi, nem mesmo nos álbuns dos Avós - e, assim, tudo quanto sei foi o que o António me contou nessa tarde - foi um casamento de estadão, a noiva de vestido branco, sumptuoso, banquete nos salões da grande mansão dos Viana e uma multidão de convidados. Memorável. O António descrevia a cerimónia com todos os detalhes,inclusive o discurso eufórico e emotivo do Avô Manuel, que parece ter sonhado tanto com aquele casamento como os próprios noivos. Ele próprio não quis participar da festa, sentia-se demasiadamente preterido e infeliz. Mas, como não se falou de outra coisa durante os dias que se seguiram, ficou a par do que se passara, como toda a gente, entre presentes e ausentes. Pouco foram os meses, as semanas, os dias que os noivos viveram "num voo pleno de ansiedade", o "coração vogando nas asas do sonho". O desaparecimento de Celina, uniu as famílias à volta da sua memória - pais. sogros. cunhados, tios e primos conviviam intensamente depois, como antes. O Pai tinha 20 anos, o seu emprego rotineiro, muitos amigos. Faltava-lhe o ânimo para recomeçar estudos, ou para procurar profissão mais interessante. Entre os seus melhores amigos, amigos de infância, estavam dois irmãos, os Padres Eduardo e António. Foi através deles que conheceu, em Outubro de 1940, a família Aguiar, a Maria Antónia, que iria ser a sua segunda mulher. Na capela do Monte da Virgem, no domingo da "missa nova" do Padre António. A Maria Antónia, no colégio, foi colega e grande amiga da Maria Luísa, irmã dos futuros padres, que eram, nessa altura, colegas e grandes amigos do João. E, por isso, uns anos depois, todos estavam presente na primeira missa do mais jovem dos padres - a Avó Maria Aguiar, com as filhas solteiras (difícil já, então, levar os filhos à igreja...) e a Avó Olívia Capela, com o filho viúvo. Conta a Mãe que o bonito rapaz alto e loiro, apesar de muito devoto, se distraiu o suficiente para a olhar, repetidas vezes. E tendo ela sentido esses repetidos olhares, é claro que também não prestou à missa a devida atenção. Cá fora no adro, antes mesmo de serem formalmente apresentados, já ele lhe pedia para aceitar uma lembrança do dia da "missa nova" do amigo comum, comprada numa tendinha, que vendia terços, imagens da Virgem e anjinhos, a par de pequenas peças de artesanato - reduto em que o Pai escolheu a sua simbólica oferta. Presente estava também a Tia Arminda (que não era bem tia, mas sim tia da Nucha Aguiar, professora de piano das primas mais novas), que era de Avintes, íntima da Avó Olívia, e, igualmente, da Avó Maria, que visitava, sempre que passava férias em Gondomar. Foi tempo de saudações e conversa entre as três cristianíssimas senhoras e entre Maria Antónia e João, que estava entusiasmado com a perspetiva de uma excursão a Lisboa, com o primo António, para verem a exposição do "Mundo Português". De lá iria escrever-lhe e mandar-lhe um soneto, o primeiro que discretamente falava de amor que se procura. O que começa assim: "Lancei o meu olhar sobre esse imenso Tejo, À noite semeado de um encanto vago E vi em cada onda uma sombra, um lampejo Dessa história de heróis, que no meu peito trago" Dir-se-ia que toda a inspiração vem da temática da "expo", mas não, na última estrofe o A. sente o irreprimível desejo de lançar às ondas o seu coração em busca de um amor... No verão seguinte fazem férias em Branzêlo, a Avó, as filhas e a primas Capela, que são da mesma idade numa quinta de amigos da Avó Maria e o João num quarto de pensão, convenientemente perto. Já são namorados, sem oposição alguma...
Muito mais tarde,já trintão, numa estada em Lisboa, António conheceu a Amélia Soares de Albergaria, que seria a sua duradoura paixão - o casal nunca passava despercebido, onde quer que fosse, Ela era e ainda é, com mais de 80 anos, muito bonita, alta, loira, atraente e simpática, com seu sorriso doce, sempre impecavelmente vestida e penteada. Amélia tornou-se, de imediato, uma prima muito querida, família nossa, como se sempre o tivesse sido. Os padrinhos do casamento, celebrado na Sé do Porto, foram os meus pais. Do Porto, o cortejo nupcial regressou, numa longa fila de carros, a Avintes, para o banquete no casarão dos tios Reis, no cimo da Rua 5 de Outubro, onde é agora a sede e, suponho, o auditório do grupo de teatro "Os Plebeus". Horas deliciosas passámos ali, em ruidosas reuniões de família. Havia sempre muitos cães - a Maria Angélica , irmã do António, chegou a fazer criação de "pequinois" do mais puro "pedigree" (quando fiz 7 anos, ofereceu-me um cachorrinho, que eu escolhi de uma ninhada numerosa, um inesquecível presente). Atrás, o jardim acabava na parte de quinta agrícola, que era guardada por cães, nem sempre afáveis. A cave da casa era toda ela reservada à adega, ao lagar, onde me lembro de ver grupos de homens de calças arregaçadas acima do joelho a pisarem as uvas, cantando em coro. Parecia-me sempre uma cena de teatro, uma coreografia, embora a prova do vinho novo mostrasse o contrário. Da principal porta de entrada para dentro todas as salas estavam, tão acolhedora e urbanamente decoradas,tão cheias de bonitos quadros e estatuetas, jarrões "deco", veludos escuros, que ninguém adivinharia o mundo rural que coexistia, lá em baixo! Nada de raro,contudo, nessa época, nas vilas e aldeias rurais, à volta do Porto. Embora num estilo arquitetónico diferente, a casa em que nasci, em Gondomar, também somava as duas realidades. mas a festa do lagar não era tão popular com a dos Tios Reis- uma verdadeira romaria Do mesmo lado da rua, a poucos metros, para sul, morava o Francisco (Chico) Marques, numa casa branca, que tinha sido dos meus tetraavós, da mãe do Avô Manuel, onde passaram a infância alguns dos Marques, que viriam a notabilizar-se como entalhadores, escultores e arquitetos. Não é difícil imaginar os primos João Moreira, António e Maria Angélica Reis, Francisco e Corinto Marques (que viria a casar com Maria Angélica, já ambos na "meia idade") em constantes convívios numa e noutra dessas casas, E é provável que Celina se juntasse a eles muitas vezes, porque era prima de primos dos Reis, como a Maria Argentina - (através da qual consegui duas fotografias de Celina. Todos vizinhos e apar De Celina, na residência dos meus Avós, ficou, para além das memórias, um retrato, numa enorme moldura de prata, que se destacava em cima de uma mesa oval. A sala de visitas era mesmo só para visitas de " cerimonia", e não usada no dia a (ao contrário do que acontecia em casa da outra Avó, sobretudo, suponho, por causa do piano, que a convertia em "multiusos", sala de estudos de música, de ensaio de coros, de concertos das meninas, ou, simplesmente, de festa, com muita música e canto à mistura. Estava sempre aberta , até para as crianças, que, só por milagre não destruíram, por completo, os aparentemente frágeis, mas muito resistentes, sofás e cadeiras "arte nova" de nogueira clara e estofos de veludo verde. Não assim em Avintes, pelo que essa sala, que se nos oferecia raramente - recordo-o como sendo cinzento, numa atmosfera de penumbras, melancolia e mistério, simbolizados naquele retrato de uma mulher fascinante, num vestido de gala, de amplo decote, com os longos cabelos escuros, soltos, caindo, num penteado artístico, sobre os ombros. Dir-se-ia uma rainha, ou um vedeta de Hollywood, fitando a posteridade com uns olhos expressivos. Mas eu sabia que uma doença fatal a tinha derrotado aos 20 anos... E não parecia uma jovem assim tão jovem, mas uma Senhora... Sempre que se esqueciam de fechar a porta, eu entrava e ficava a olha-la, com tristeza, porque ali estava tão cheia de graça e de vida e, afinal, tinha partido deste mundo, pouco depois. A minha mãe era muito ciumenta e não partilhava das emoções que o retrato me despertava, e ainda menos dos sentimentos dos meus Avós por essa outra nora, tão querida. Havia outras fotografias de Celine, que foram sendo guardadas, face aos reiterados protestos da minha Mãe e, mesmo aquela, ali resguardada do convívio quotidiano, acabou por ser retirada, no auge de uma crise maior. Eu, com os meus 6 ou 7 anos, achei tudo isso muito mal. A casa, a sala, o retrato e as memórias - tudo era dos meus Avós. Uns anos depois, quando contava esta história a alguém, mais consonante com as reações de minha Mãe do que com as minhas, ouvi esta pergunta, que não precisava de resposta: "Tens a certeza de que não és filha da Celina"? Náo sou, nem preciso de ser para ver as coisas assim. Morrer aos 20 anos, que absurdo! Iria acontecer com a minha irmã Madalena, em 1964. Lindíssima, cheia de vida! Leucemia, no seu caso. Toronto. O António confirmou o que eu pressentia, uma vida tão breve de uma mulher que tanto amava a vida e que tinha tudo o que queria para ser feliz. Desportiva, divertida. Contava-me o António, de um dia ela apareceu, de repente, aos amigos reunidos no sotão da casa, entrando pelo telhado. Curiosamente, minha Mãe seria bem capaz de fazer o mesmo..., Tal como na geração seguinte, a minha irmã, primas e eu própria - todas useiras e vezeiras em saltar das árvores, dos terraços, das janelas do 1º andar da "Villa Maria", por sobre canteiros de rosas de pé alto (exercício arriscado...). Deslizar nos telhados da "casa do forno" ou da "casa da eira", para olhar em volta ou apanhar araçás de outro modo inacessíveis - araçás brancos, araçás vermelhos, que tinham vindo do Brasil, com o Avò Aguiar.... Celina, Maldalena...Por duas vezes, o Pai viu partir pessoas tão especiais, tão próximas, a mulher, uma filha, aos 20 anos, quase do mesmo modo, com doenças, cuja cura estava em vias de ser descoberta. A dimensão dos grandes desgostos e das maiores alegrias, a dimensão de "sonho" foi preenchida pelo meu Pai no círculo da família e dos amigos, na paixão pela música e pelo desporto, pelo mar, pelas artes, pelo cinema, pelo estudo, pelo debate - não certamente na vida profissional, como funcionário público, e, depois, dirigente de uma agremiação (a Associação ou Grémio dos Ourives do Norte). Não eram cargos muito empolgantes, nem davam remunerações milionárias, mas ele cumpriu-os de forma exemplar . Há pouco tempo, por acaso, encontrei num colóquio em Gondomar, terra da filigrana, um ourives que o tinha conhecido e me veio falar dele com toda a simpatia, mas acrescentando: "Só tinha um defeito, era excessivamente honesto". Se a honestidade pode ser excessiva, se a figura existe, ninguém cabe melhor nela do que o meu Pai. Em síntese: no dia a dia. o ambiente de trabalho era tranquilo, a burocracia uma constante, as pessoas simpáticas, mais mulherea do que homens. entre elas a Dona Corina. excecional funcionária, que se tornou grande amiga nossa e a Fernanda Lobão, que era de Gondomar, prima da minha mãe, muito inteligente e viva, embora me parecesse naqueles trabalhos de secretariado. E, a espaços, havia alterações das rotinas, que agradavam ao Pai, como organização de exposições de ourivesaria, de, catálogos, parcerias com o vespertino Diário do Norte, do qual na última fase, o Pai chegou a ser administrador, e, por via do qual, uns anos antes, porque o jornal era patrocinador da corrida, participara numa "Volta a Portugal" em bicicleta, integrado num qualquer "comité". Não sei porque razão, também o Tio Manuel Aguiar, pertenceu à mesma instância. Andaram juntos e muito divertidos. Por duas ou três vezes, a Mãe foi ao seu encontro, e a Madalena e eu tivemos a sorte de ir com ela, ficámos nos mesmos hotéis, fascinadas com a dinâmica e o frenesim, que cercava os ciclistas, de quem bem gostaríamos de nos aproximar - coisa que não foi possível. Tínhamos de nos contentar com os relatos do Pai. Só me recordo de pormenores sobre a alimentação - muita!- , a ponto de espantar o Pai, que, nessa altura,por sinal, comia bastante ( parco só no vinho....). REPETIDO??? NASCIDO EM AVINTES "Deixa aqui escrito o seu nome O célebre João de Avintes" (in " Apresentação") João. O menino que nasceu em Avintes, numa casa com vista para o Douro, numa colina verde, a que chamam, com propriedade, "o outeiro" . No dia 6 de junho de 1918. O nome dificilmente poderia ter tido outro. O Avô paterno era João Dias Moreira, o Avô materno João Capela. Foi o primeiro neto de ambos. Um herdeiro robusto, muito branco e loiro, como se pode ver na sua primeira fotografia, tirada num estúdio do Porto, como era, então, costume. Não tinha, é certo, os olhos muito azuis do Avô Capela, mas prometia a compleição nórdica do Avô Dias Moreira, com os seus imponentes quase dois metros de altura - a mesma estatura do seu meio irmão, o Tio Padre Manuel Pinto da Silva. Essa família de gigantes parecia vinda dos "Highlands" da Escócia. E, talvez, remotamente, viesse, fruto do encontro de povos que provocaram as invasões francesas, mais a aliança luso-britânica. Soldados inimigos e aliados, todos andaram por ali. Gramido, note-se, fica face ao Outeiro, do outro lado do Douro. Sempre achei curioso que em Avintes, nos tempos da minha infância, ainda se pronunciasse o "L" à francesa.... Mas sobre essa possível ascendência nada sei em concreto, para além desses traços fisionómicos pouco latinos, e de uma anglofilia declarada, que passou de geração em geração, com o seu ponto alto nas duas guerras europeias do século, a que então terminava e a que havia de acontecer duas décadas depois. De concreto, sabe-se que eram chamados os "patrões", provavelmente descendiam de antigos donos deestaleiros que existiram na ribeira de Avintes. Foram-se os estaleiros, mas ficou a alcunha. O meu Pai ainda foi o "Joãozinho Patrão", filho do Manuel Patrão e neto do João Patrão. A linha terminou comigo, pois que mesmo em Avintes, sou simplesmente Manuela Aguiar. Na era digital, em que me alfabetizei já depois de ter deixado a Assembleia, em 2005, iniciei-me com um blogue sobre a família, para que os mais novos saibam sobre todos estes antepassados alguma coisa mais do que o seu nome. E é ao blogue que vou buscar, para estaa "memórias" as imagens e os textos em que lembro meu Pai... É muito mais o que ficou por dizer, do que aquilo que escrevi, para lutar contra o esquecimento, com armas que são,apenas, fotografias e palavras. A primeira imagem, possivelmente de fins de 1918, mostra um menino gordo, a olhar em frente, olhos bem abertos, muito sério, entre os pais, os meus Avós Olívia e Manuel. Tem a mesma expressão, poucos meses depois, já sozinho, sentado nos veludos de um estúdio, face à câmara, vestindo apenas uma diáfana camisa de cambraia branca, o cabelo escondido numa touca de renda, a cara redonda . Era comum, então, os meninos posarem nus, como os anjinhos do céu, mas imagino que a Avó Olívia o quis poupar a tamanha exposição e fez bem. O traje escolhido, sumário, leve e gracioso é mais etnográfico do que a nudez. (Tão religiosa a Avó... Se pudesse, vestiria até os anjinhos, tanto nas esculturas como nos óleos das igrejas...) Quatro ou cinco anos passados, vemos um rapazinho, que continua a não sorrir para a câmara, de pé, em poses artificiais, pouco convincentes - de perfil, com calção curto e "blazer", encostado a uma coluna, ou de frente, com indumentária semelhante, junto a um brinquedo de praia, artesanal. Nos estúdios da famosa Fotografia Evaristo, em Espinho (havia, depois, de manter a tradição, levando as filhas ao mesmo estúdio).. Não é criança que desperte uma empatia imediata - nem é particularmente bonito ou expressivo, apesar de ser filho de uma mãe de beleza exótica (dir-se-ia indiana, oriental, embora fosse) e de um pai que, para além de ator de teatro (no "Grupo Mérito Avintense"), podia bem ser ator de cinema. O menino estaria, talvez, contrariado, farto de seguir as instruções do fotógrafo, desconfortável sob os holofotes (como a Madalena e eu, 30 anos depois...). Mas também podemos pensar que refletisse o ambiente triste, em que terá crescido em casa, com a morte ainda recente dos irmãos mais novos, os gémeos, Alberto e Manuel e a irmã Maria, os três vítimas de complicações que hoje se resolvem facilmente com transfusões de sangue. Saudável e forte só mesmo ele, o primogénito. Criado entre adultos, objeto de todas as atenções e de todos os cuidados, até ao dia de ir para a escola, Mais precisamente, para um excelente colégio privado. Decisão paterna, pela certa. O Avô Manuel, que não teve autorização do seu pai para fazer estudos académicos (único filho varão, estava destinado a tomar conta das muitas terras que iriam ser suas), prezava mais a cultura das Letras do que a agricultura. A mim, lembro-me bem do que me disse, por mais do que uma vez: "a melhor herança que podes ter é um curso universitário". Ao filho, terá dito precisamente o mesmo... Na altura, não sei se a ideia agradou à Avó Olívia, que, parecendo dócil e serena nos retratos, não era fácil de contrariar na vida real. Terá sido convencida pelo Padre Luís, um grande amigo do casal - e um santo, que eu ainda conheci, muito velhinho, no Colégio do Sardão - ou pelo Abade de Avintes, que era, como foram todos, sucessivamente, visitas da casa... Na época do Colégio dos Carvalhos, o Pai já tem, enfim, algumas parecenças com a pessoa de que eu me lembro, noutra idade, naturalmente. Já sorri, no meio de muitos amigos, todos irradiando boa disposição. Podia ser fingimento, encenação, "fazer de conta", mas não era! O internato, onde passou onze anos, foi mesmo para ele, um lugar perfeito. As amizades que aí fez, duraram para o resto da vida. Era um excelente atleta, um aluno despreocupado, que cumpria os mínimos em ciências e se dedicava de bom grado às letras, com uma inclinação para os autores latinos (recordo o pasmo com que o ouvia dizer que lia Virgílio e Ovídio, por gosto, no original - eu não, faltava-me, em partes iguais o saber e a satisfação). Do seu tempo do colégio são inúmeras as histórias engraçadas que nos contou. De Avintes, os relatos divertidos começam com a chagada dos novos vizinhos, donos da quinta que confinava com a sua casa: a família Genelieu - Novais e Silva. O Coronel Novais e Silva, a mulher (de origem farncesa, descendente de um dos engenheiros que acompanhara Eifel na construção da ponte sobre o douro) e os filhos , FALTA UM PARÁGRAFO É um bonito homem, com o seu ar britânico, na fase do namoro com a minha mãe (que nunca permitiu a sobrevivência de fotos de outros namoros e, ainda menos, de um primeiro casamento romântico que terminou com a lindíssima noiva a morrer aos 20 anos de tuberculose) e, depois, connosco, as duas filhas, e a família da mulher, bem mais numerosa do que a sua, onde foi prontamente adotado, Mas as imagens que mais me encantam são as do velho senhor amável e comunicativo dos últimos retratos. Envelhecer bem, física e mentalmente, eis uma arte, ou, talvez, uma recompensa que mereceu numa caminhada de 78 anos, Ninguém o definiu melhor do que o nosso amigo Padre Manuel Leão. Em Espinho, na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, em 14 Abril de 1996. Dois minutos bastaram. Nunca vi pessoa capaz de dizer tanto em tão pouco tempo... Foi na chamada "missa de 7º dia" - o primeiro momento bom, depois da súbita morte do Pai no domingo de Páscoa. Pelas palavras do Padre Leão (que pena não as ter gravado, embora no essencial permaneçam em memória) - mas também pelo encontro com uma comunidade de igreja, a que o pai pertencia, naquela capela, e que, tanto a Mãe como eu, só conhecíamos de vista, pois em Espinho toda a gente se conhece, pelo menos assim - de vista... (família atípica, onde as mulheres se consideram católicas, mas é o homem que, no dia a dia, 3 vezes ao dia, ou mais, se recolhe, em meditação, nos bancos da capela). Ali mesmo, em frente ao altar de Nossa Senhora da Ajuda, onde rezava, a fila de cumprimentos, geralmente cerimonial lúgubre, de adensar tristezas, foi o contrário. Mulheres e homens que com ele tinham partilhado a missa de Páscoa, a comunhão, falavam da sua alegria, do seu sorriso. De um homem feliz. Gente de fé, exatamente como ele. Ficaram no quadro global da cerimónia, já sem rostos definidos. Sensação da abertura à transcendência, da visão de outros reinos e destinos, que invadiu, por momentos, todo o nosso espaço, cheio da emoção pesada de muitas dúvidas e de uma perda definitiva. E ficou a imagem daquele seu amigo, já emaranhado ou desprendido de qualquer identidade sua ou alheia, definitivamente senil, que perguntava onde estava o João, que o queria dar-lhe um abraço, antes de ir embora. E ficou, sobretudo, uma síntese de 78 anos de vida ou de uma escolha de vida, na palavra breve e definitiva do Padre Leão. - um homem culto, inteligente e justo, que sempre preferiu apagar-se, muito pensadamente, e nunca quis fazer o que podia ter feito ou ser o que poderia ter sido. E que nunca, também, e antes do mais, exibiu o que realmente foi realizando, à sua maneira discreta, com competência e com humor e simpatia. 20 anos mais tarde, por acaso, em Fânzeres, no Centro Republicano, um ourives, que com ele conviveu no "Grémio" da sua profissão (onde o Pai era secretário-geral), fechou, a seu modo, com uma simples frase, aquele desenho do perfil , em dois traços, rigorosamente esboçado num elogio fúnebre. "O seu Pai era excessivamente honesto!" (e mais não disse, mas repetiu várias vezes, com a força que lhe dava ter bebido uns copos - o Pai que gostava do seu latim, e raramente bebia, teria dito "in vino veritas"...), Aqui estava o fio condutor para o meu completo entendimento do que deixara antever o Padre Leão. Demasiadamente honesto e demasiadamente inteligente… 2 - A família Dias Moreira é grande, mas não o nosso ramo. Desde o bisavô João, ao longo de mais de dois séculos, os nascidos em cada geração não passam de um ou dois. Há os que não tiveram filhos ou cujos filhos não sobreviveram até à idade adulta. No século XXI, apenas uma trineta de 20 anos, fazendo, com distinção, um curso na McGill em Montreal - brilho não raro entre os parentes que chegaram à universidade ou fizeram carreira académica. Chloe Randle-Reis, é canadiana, nada e criada em Toronto, tão longe das águas matriciais do Douro. Ela tem hoje nas suas mãos, talvez sem o saber, como eu o sei, todo o nosso futuro... Não o nome, que já não chegou a ela, mas o resto, que conta mais. O pai, esse recebeu o nome completo do Avô mítico - João Dias Moreira (com um apelido materno de permeio que só usava no BI). O Avô imenso - imenso na estatura, avolumada pelos seus capotes largos de inverno, como o descrevia um dos seus antigos caseiros, que encontrei emigrado no Transval, nos anos 80 do século passado. Imenso na sagacidade de homem de bem, de bens e de negócios É em traje do dia e dia na sua casa, e não numa pose solene de estúdio, com um dos seus fatos completos, que o vemos nos únicos retratos, em que aparece. Sozinho ou com a mulher. Esperemos que algum parente, um dia, nos surpreenda com alguns outros). A bisavó, Quitéria Francisca Pinto, era do centro de Avintes. A casa dos seus pais era discreta e airosa, no início da Rua 5 de Outubro, (mais tarde pertenceu a duas gerações de artistas, o pai e o avô do Primo Francisco (Chico) Marques). Os Marques são escultores, entalhadores, desenhadores, arquitetos (na geração do meu Pai, o último, foi o Corinto, que casou com uma prima dele e nossa, a Maria Angélica). Parece que o trisavô Pinto foi emigrante no Brasil, e, no regresso, investiu num pequeno estaleiro de barcos do rio. Não creio que fosse muito rico, não o suficiente para o padrão dos Dias Moreira… Arrastou-se o namoro de Francisca e João até ao dia em que ela lhe lançou um ultimato: ou casavam em vida da mãe dele, ou não casavam nunca, porque não queria que todos julgassem que tinha estado à espera da morte da velhinha… Não queria facilidades, exigia dele a capacidade de afrontamento que ela tinha. Mas não reclamava a vida em comum. Dava-lhe a liberdade de continuar em casa da mãe. Cada qual em seu sítio, se preciso fosse, mas casados na igreja, perante Deus e o mundo. E assim foi, até que a sogra adoeceu e lhe pediu auxílio. E a partir daí todos se entenderam surpreendentemente bem. Está tudo dito sobre o carácter da pequena e enérgica bisavó, a grande contadora de histórias, a protagonista de infindáveis horas de cantigas ao desafio… E, diz -se mais: que em menina se vestia de homem e ia para as feiras jogar varapau. Atendendo a que era muito pequena (1,50…) magra e franzina, é de espantar… Mas ela era de espantar – todos os relatos que chegaram até hoje vão no mesmo sentido João Dias Moreira e Francisca Pinto eram os avós de meu pai que moravam ao lado, aqueles com os quais foi criado. Não na mesma casa - cada um apreciava demais a sua independência - nem na quinta do Pena, ali em frente e , então, desabitada, mas na colina que vai descendo para o Douro e o Araínho e a que chamam precisamente "Outeiro". Não sei com exatidão onde ficava, nem se ainda existe - coisa improvável. Dela ouvi vagamente falar com alguma nostalgia e imagino uma alvura de paredes entre ramagens verdes e uma soberba vista de rio e de vale de espigas douradas (onde agora não há mais do que cimento clandestino...). Enfim, um lugar romântico como os Avós recém casados, num casamento, que, tal como o dos bisavós, foi escolha só deles. Mais contrariado o primeiro do que o segundo (a trisavó era viúva, vivia com aquele filho e queria nora mais rica, se é que não queria, fundamentalmente, nora alguma....) Essa moradia, onde nasceu o primeiro filho, de Olívia e Manuel era com certeza arrendada, pois não consta da lista de bens familiares - e, nesse tempo, gente abastada comprava, não vendia nunca propriedades. Parece que o bisavô fazia a sua contabilidade de novas aquisições, como num jogo, onde ganhava pontos, e essa vertente quantitativa, acabou fazendo o seu curriculum para a posteridade - com o nº auspicioso de 99. Mas vinha sempre junto à estatística um perfil de empresário agrícola, com o seu pioneiro recurso à mecanização e à compra a crédito - tão avessa à mentalidade rural da época... E crédito era o que menos lhe faltava - até sem papel escrito, porque a sua palavra era um seguro contra todos os riscos... Eram, de qualquer modo, os avós que moravam ao lado. Não na mesma casa - cada um prezava demais a sua independência - nem na quinta do Pena, ali em frente e , então, desabitada, mas no Outeiro, a colina verde, que vai descendo para o Douro. Não sei precisamente onde ficava, nem se ainda existe - coisa improvável. Dela ouvi vagamente falar, com alguma nostalgia, e imagino uma alvura de paredes entre pinhais e uma soberba vista de rio e de vale de espigas loiras (onde agora não há mais do que uma aridez de cimento clandestino...). Enfim, um lugar romântico, como os Avós recém casados, num casamento, que, tal como o dos bisavós, foi escolha só deles. Mais contrariado o primeiro (a trisavó era viúva, vivia com aquele filho e queria nora mais rica, se é que não queria, fundamentalmente, nora alguma....) Essa residência, onde nasceu o primeiro filho, era com certeza arrendada, pois não consta da lista de bens familiares - e, nesse tempo, gente abastada comprava, não vendia nunca propriedades. O bisavô parece ter gerido sua contabilidade de novas aquisições, como num jogo, onde marcava pontos, e essa vertente quantitativa, acabou fazendo curriculum - com o número auspicioso de 99 propriedades, muitas compradas a crédito - um perfil de empresário agrícola mais do que de lavrador tradicional. O número sempre presente, tal como o seu pioneiro recurso à mecanização e ao crédito - tão avesso à mentalidade rural da época...Crédito era o que menos lhe faltava e sem papel escrito, porque a sua palavra bastava... Foi um seu antigo empregado, emigrante na África do Sul quem acabou por me dar aquilo de que fiz uma imagem mais precisa desse bisavô: Ele, atravessando os campos, com o seu largo capote de inverno. Ele, presidindo aos almoços, com todo o seu pessoal, numa mesa de pedra retangular, que ainda hoje existe e é motivo de pasmo: talhada numa pedra com mais de 3 metros de comprido e mais de um de largo. Coisa tão rara, que era e é objeto de quase veneração... Mesa rara e mesa farta. Corria o ditado, que o emigrante sabia ainda de cor: Mais vale ser cão em casa do João Patrão do que criado na Quinta de... (a maior de Avintes, mas eu não apontei o nome e agora só poderia inventar...) Era m homem que não receava confraternizar com os seu empregados, que os tratava bem, mas exigindo, com certeza, bom trabalho - tudo o que ainda hoje se exige de um gestor competente. O que os resultados provam que foi... A faceta da generosidade, essa adivinho-o noutro relato de alguém da família, talvez a filha, Tia Francisca: nos seus últimos anos, já não passeava pelo meio das searas. O reumatismo, agravado pela humidade da beira rio, tornou-o praticamente enfermo. preso a uma cadeira. Passava muito tempo à janela do quarto, com vista para as suas terras, que se estendiam no vale do Douro, no caminho do rio para a foz. Daí observava e dirigia ainda os trabalhos, certamente. E, quando passava um mendigo, a pedir esmola, lançava da janela, preso por um longo cordel, um cesto de pão (e o mais que ali tinha para dar), e logo recolhia o cesto, até que viesse o próximo necessitado. Alguns seriam "os do costume"... Mas dele não ficaram palavras concretamente ditas, expressões peculiares, tom de voz, os seus gostos na música, nas cores, nos fatos, cartas suas, escritos... Ficou muito pouco da vida tão cheia do único grande empresário deste ramo da família ...(essa imagem levou o meu primo do Canadá, bisneto como eu, a dizer, quando arriscou um investimento na área de Toronto: "É preciso retomar o espírito empresarial, que anda perdido na família há 3 gerações" Deixou, pois, o Bisavô João um exemplo que ainda agora nos desafia a fazer coisas... Mas que pena tenho de não ter um registo de conversas, ao seu próprio jeito.... De um lado e outro da família é só a palavra das mulheres que resiste....e de uma palavra concreta se faz um retrato mais vivo. Como o da bisavó Francisca, apenas em duas ou três pequenas quadras dos milhares que saíram da sua veia repentista... Ou na decisão que tomou de se opor a um dote excessivo para o casamento da filha Francisca, como exigia a família do noivo e que comunicou ao marido nestes precisos termos: "Não assino, João! Seria o mesmo que deserdar o nosso filho. Não assino, quero ficar de bem com Deus e com a minha consciência". E a escritura não se fez com aquela abundância de bens, mas com o que achou correto. E o casamente foi por diante nas condições que ela impôs. A mulher tem no círculo familiar a força que tem, não a que lhe conferem leis e convenções A esta sobrava coragem e pragmatismo e por isso levava a sua por diante. Coragem e bom senso em partes iguais. O homem. que era um grande homem, começava por lhe ter respeito.... Assim o Avô Manuel contava uma das história da Mãe que tão bem o soubera proteger e que ele admirava mais do que qualquer outra pessoa à face da terra. Outra tirada que sobreviveu foi a que pôs termo a um período de namoro que se arrastava: "Não quero que esta gente diga que estive à espera que a tua mãe morresse, para me casar contigo. Ou é agora ou não é". Sintética e precisa. Neste caso o filho terá ouvido a frase da sua própria boca. A grande anotadora de lendas e de crónicas, também, às vezes, falava de si.... À casa do lugar do Paço chamava "o torrão". A partir do núcleo inicial de uma casa de pedra pequena e antiquíssima (do sec XVI ou XVII), se acrescentara outra bem maior, cujas obras terminaram em 1901. E depois se comprara a vizinha Quinta da Pena, as Nogueiras e muitas das terras da ribeira do Douro, para poente... E há ainda o insuspeito testemunho da minha mãe, que vivia em conflito constante com os sogros e de pouca gente gostava em Avintes, mas simpatizava, incondicionalmente, com aquela velhinha prodigiosa, de olhos grandes e azuis. Só ela mesmo a poderia criticar. "Menina, usas as saias muito curtas. Parece mal

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A C NÉRY

  Caríssima Amiga

A iniciativa da Associação Mulher Migrante de comemorar, em abril, o dia da comunidade luso-brasileira, com colóquios, exposições, etc é uma organização da Associação e não de uma ou outra das associadas. Este ano, eu não quis levantar a questão da omissão da "Mulher Migrante" como organizadora (ou, quando muito, co-organizadora) do evento,até porque o programa já estava impresso. Mas a Associação não vai aceitar futuramente essa exclusão. Não é a mesma coisa a participação de dirigentes, a título individual, seja a Arcelina, ou eu, ou qualquer outra. O título "Brasil/Portugal - a Descoberta contínua" pertence à "Mulher Migrante" e eu não posso cede-lo, não tenho esse direito. 
Por isso, parece-me muito bem alterar a designação, Contará, evidentemente, sempre com a minha colaboração, a título individual, tal como aconteceu este ano,  E não tenho qualquer dificuldade em me deslocar a Aveiro - é perto e é barato (de comboio). Ótima escolha!
Bjinhos

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A SETA DEIXOU-NOS

1 - ERA UMA VEZ. UMA GATINHA LINDA...
Um dia, no verão de 2001, encontrei no pequeno jardim das traseiras da casa da Rua 7, em Espinho uma ninhada de gatinhos lindíssimos, trazidos pela progenitora, também ela muito bonita, preta e branca, sociável, grande. Já minha conhecida, pois, como vários outros gatos vadios, passeava de telhado em telhado, (telhados de anexos térreos, que abundam nesta parte norte da cidade) e descia, facilmente, para o muro baixo, robusto e largo, que separava a vivenda dos meus Pais, o nº 307, da da família do famoso fotógrafo espinhense, Sr Evaristo, o nº 115 (ele morou décadas no prédio onde tinha o estúdio, na Rua 8, e, já reformado, mudara-se-se para aqui). Gente boa, amiga dos animais, que eram igualmente bem recebidos dos dois lados do muro. Em cima dele faziam fila, quando pressentiam que eu estava por perto, disposta a alimenta-los. A dita ninhada foi alojar-se na arrecadação dos fundos do quintal, que, de dia, estava sempre de porta aberta. Contudo, ficaram muito tempo. Quando contei à minha Mãe que tínhamos visitantes ela quis logo ir vê-los, e não só vê-los, mas também agarra-los, todos, de uma só vez, com as mãos. Coisa que eu não teria tentado, porque, é claro, eles assustaram-se e reagiram vigorosamente, apesar da pouca idade, arranhando-a... E gata-mãe tratou logo de os levar consigo para sítio mais tranquilo. Todos menos uma pequenina, cinzenta e branca, magríssima, que decidiu, definitivamente, abandonar. A boa surpresa é que já comia de tudo, com apetite. Ninguém procurava pegar-lhe, porque era esquiva, brava, bufava, escondia-se. Só deixava aproximar-se o nosso gato amarelo, o Mandarim, que manso e amável. Quem lhe levava a paparoca era eu - ou a Olívia, nas minhas ausências de Espinho. A bichana parecia-me muito frágil, pouco saudável. Comecei a desconfiar que a razão do abandono materno podia ser essa. Embora fugisse de mim, eu ficava, de longe a observa-la e falava-lhe, continuamente, em longos monólogos. De dia para dia, fui-me aproximando, mais e mais, até ficar com a mão sobre a sua cabeça, mas sem lhe tocar. Por fim, numa inesquecível manhã, ela mesma se soergueu até à palma da minha mão e eu pude fazer-lhe festas. Momento mágico! Sabia que desse momento em diante éramos amigas, me faria inteira confiança. Peguei-a aos colo e trouxe-a para dentro da casa. A gatinha triste e solitária, de repente, tornou-se alegre e prazenteira, aprendeu a brincar, com bolas de borracha e a correr loucamente, por debaixo de cadeiras, mesas e qualquer móvel que estivesse um palmo acima do chão. Impressionadas com os seus "sprints" e a sua estonteante velocidade, a Mãe e eu decidimos chamar-lhe seta ou flecha. Seta soava melhor, SETA ficou.
2 -UMA GATA TIPO GENTE E OS OUTROS GATOS O ciclo de vida dos felinos é como o nosso, só mais curto. Mas nem todos são como a Seta, que parecia gente - na inteligência, nas emoções, até na sua evolução da infância à idade adulta e à velhice. Os outros de pequenos e brincalhões, tornaram-se simplesmente mais gordos e pachorrentos, mais dados a longas sestas. Ela não. De uma infância que se pode resumir em três "efes" (Formosa, feliz e frágil), tornou-se uma adolescente caprichosa, temperamental, pronta a zangar-se se era contrariada.... Incrível. Os olhos revelavam exatamente o sentimento dominante em cada momento. Eram lindos, verdes, olhos verdadeiramente humanos, por onde perpassava toda a gama de estados de alma, que vai da indignação à complacência ou satisfação. Cada vez mais senhora de si. Um porte imperial. Solitária, afastada de todos os outros gatos da casa, numa relação exclusiva com as pessoas - e poucas. Uma "loner"! Contrariada, fugia e desaparecia até que a fúria passasse. Havia que falar-lhe em tom cordato, sobretudo para a remover do inconveniente lugar onde estivesse. "Parece a reencarnação de uma dama de duvidoso passado, que anda a penar pecados velhos", dizia eu quando a víamos mal-disposta com tudo e todos. Era tão independente e imprevisível connosco, quanto distante com os companheiros. Ignorava-os, nunca tomou a iniciativa de atacar, mas era poderosa a defender-se...
Depois que os filhos cresceram, só condescendia na aproximação do Mandarim, que, desde a primeira hora, a recebeu bem, educando-a "paternalmente", nos seus tempos de menina - gata e, logo que a viu chegada à idade adulta - cedo demais, hélas! - procriou com ela duas formosas ninhadas. Tão cedo que, da primeira vez, ela nem sequer sabia como amamentar o único gatinho que sobreviveu - um preto, todo preto. Mistérios, pois o Mandarim era um de um lindo amarelo e ela de uma cor muito branca, sobre a qual se estendiam, num perfeito design, manchas cinza, irregulares. Escondeu-se para o parto, no fundo do sotão, no canto mais inacessível e inesperado. Só tarde demais nos apercebemos, depois de uma busca em que foi a Olívia que encontrou o tesouro... Estava já a Seta deitada sobre um bébé desastradamente morto (igual a ela, esse!), e sem saber como cuidar do outro. Tínhamos de ser nós (eu, sempre que estava em Espinho) a colocá - lo a jeito para a mamada, colaboração que a Seta aceitava de bom grado.
Não me surpreende nada que esse seja, ainda hoje, já velhinho, com o seu focinho negro matizado de pelos branco, a criatura mais chegada a mim... Chamo-lhe o meu gato "tipo cão". Segue-me para onde quer que vá. Responde ao chamamento que os demais ignoram, olimpicamente. Seu nome, Guilherme (como o Guilherme Gayoso): Willy- Willy, no dia a dia.
No ano seguinte, nos fins de primavera de 2003, a família aumentou: um menino gordo, cinza e branco, muito mais branco do que ela, o Deco (homenagem ao "Mágico" do futebol), e um tigrado, ágil e magro, com um desenho perfeito de estrias escuras, o Jão-Jão. Nasceram a 31 de maio, dia de anos do João Miguel, que, em criança recebeu dos irmãos esse diminutivo. Duo encantador!
Distintos de temperamento e atitude perante a vida, o Jão-Jão, dócil e manso, como nenhum dos outros, mas um vadio, sempre pronto a desaparecer nos telhados, de onde só voltava, cansado das guerras, à noite, depois de a Olívia berrar por ele, durante uma hora. O Deco era caseiro, sociável, sempre pronto a dialogar através de sons imaginativos e estranhos, que pareciam de outros animais (um poliglota?). Uma equipa da RTP, que veio, por duas vezes, fazer uns apontamentos filmados no jardim e o ouviu, sem o ver, da segunda vez, insistia que eu tinha ali, para além dos gatos, um papagaio. Eu dizia que não e eles respondiam-me que o som se ouvia na gravação. De facto, ouvia-se, mas era o Deco...
Entretanto, uma gata branca, selvagem, refugiara-se no quintal, com a cumplicidade dos animais da casa e recusava-se a sair. E nunca mais saiu. E outra, delicada, elegante, muito pequenina (nunca haveria de crescer, é quase anã) também veio para ficar. Tal como a Seta, de pelo branco, com manchas cinza sobre o dorso, e os olhos rasgados, com traços quase orientais. Enigmática, insinuante. A Tita, como a famosa Tita da Avó Olívia, uma majestosa gata francesa. Esta de majestoso não tem nada. Dá uns passinhos curtos e, se for surpreendida a fugir, deixa uma pata no ar, hesitando no passo seguinte. É muito esperta, embora desastrada. parte coisas na passagem e, quando escapa para os telhados, há que ir tirá-la de lá, porque, aparentemente, tem medo de descer. Pede festinhas, procura colo, e, se a deixarem, mama, disfarçadamente, nos tecidos das camisolas, calças ou saias (a Maria do Carmo deixava-a sempre, à noite, lamber o seu roupão azul - gostava tanto dela que a queria levar para Olhão). No dia em que aqui se refugiou, debalde a Olívia a tentou expulsar, colocando-a, de 5 em 5 minutos, em cima do muro, de onde proviera. Ela reaparecia, de imediato, miando de inspirar dó. Ganhou um teto. Meses depois, encheu a casa com mais mais um gato residente, o super-inteligente e beligerante Dragão Derlei (honra o nome, mesmo sendo mais conhecido apenas por Dragão).
3 - O FIM DA ERA DOS NAMORADOS... A conselho do Paulo foram todos "neutralizados", menos a selvagem em que nunca mão humana assentou. Foi melhor assim, para evitar dar a pílula às meninas e numa tentativa de tornar os meninos mais sedentários. Resultou com todos menos com o Jão Jão, gato manso, que apanhava sovas terríveis dos gangsters dos telhados, que lhe apareciam na disputa do território. Não creio que a Seta tenha apreciado o povoamento excessivo do espaço que partilhava com o patriarca amarelo, antes pelo contrário. Nem com os filhos era compatível, depois que eles cresciam. Só mesmo com o Mandarim, amável com todos e, em particular, com a selvagem. A Branquinha era, como viemos a descobrir, uma albina, de olhos azuis, uma perfeição! Acabaria por morrer, ao fim de uns anos, de cancro da pele. Domesticada, protegida do sol, dentro de casa, teria sobrevivido, mas para tanto nunca confiou na raça humana e era impossível te-la presa numa loja, o dia inteiro. Como não pode ser castrada, e nem sempre tomava a pílula, teve descendência de gatos de fora, que atravessavam o muro para namorar a beldade. Nenhum sobreviveu, porque ela não sabia cuidar deles- er a louca, mesmo! A Seta, embora não apreciasse muito a maternidade, melhorou muito da primeira para a segunda vez. No extremo oposto, a Tita era uma excelente progenitora, por pura vocação. Que bem tratava o seu filho lindo, todo preto, salvo por umas manchas brancas nas patinhas dianteiras, que pareciam luvas, e por um um triângulo branco no peito. Dir-se-ia que anda sempre de "smoking". Não sei se isso tem a ver com o processo educativo, a verdade é que continuam a manter uma relação excelente de proximidade. Sempre juntos, de preferência, noite e dia. Depois da morte do Mandarim, o Dragão disputava o cetro do comando com a Seta e o Willy. Uma inquietação! Havia que mantê-los sempre separados, de contrário o Dragão atacava, ainda que acabasse sempre a perder. O Willy tem o dobro da seu peso e a Seta era, quando provocada, uma guerreira poderosa. Num último confronto, antes do seu definitivo declínio, o ano passado, deixou-o quase cego de um olho - tão expressivamente verde!. A pálpebra fechou, sobre um globo ocular raiado de sangue. (Um susto...). A paz entre os dois só foi estabelecida quando ela já cambaleava pelos corredores. 4 - A VIDA POR UM FIO O estranho abandono da gatinha por uma mãe que tão bem cuidava do resto da ninhada, tinha que ter alguma explicação. Depressa havíamos de descobrir o porquê, quando a vimos acabrunhada, a fungar, com dificuldade respiratória e cheia de tosse. Ficou assim durante uns dia em que fui a Lisboa. A minha mãe mandou a Olívia por-lhe a cama na lavandaria, que é o compartimento mais frio de todos. Sabe-se lá porquê, toma decisões muito bizarras. De tempos a tempos, clama que os gatos são para estar à solta, fora de casa, dando os exemplos da sua infância na Villa Maria. Não era um grande exemplo, porque toda uma geração de gatos persas desapareceu assim - o último foi roubado durante as festas da Senhora do Rosário, os outros tambem terão tido o mesmo destino. Não sendo de raça, não era este o risco que corriam os nossos, mas a lista de outros perigos não tem fim. Apercebi-me da gravidade do estado da Seta quando a levei para a minha cama e ela não saltou em cima da protuberância que os meu pés formavam sobre a coberta branca, quando eu os movia, em ar de desafio... Falei a uns amigos, a Andreia e o Fernando, a perguntar o nome de um veterinário, Deram.me o número do Paulo, que atendeu a chamada prontamente, Examinou-a e não deu grandes esperanças. Se fosse a pneumonia típica dos gatos vadios não tinha salvação. Se fosse coisa menor, talvez... Foi um mês de batalha. Vinha todos os dias dar-lhe antibióticos injetáveis e soro. Salvou-lhe a vida e, em seguida, os olhos, que estavam encovados, e cobertos por uma membrana. O primeiro filhote teve problemas semelhantes, constipação e um olho sumido por detrás da membrana. A certa altura, houve que o operar. Mais um sucesso. Idem, com as castrações. E com a gravíssima pneumonia do Deco, que lhe afetou um dos pulmões. Tinha, então, pouco mais de um ano e, ainda hoje, quando piora, ouve-se ao longe a sua ruidosa respiração. Todavia, é um bem disposto, sempre de cauda no ar, e pronto para o diálogo , com os sons heterodoxos, que inventa criativamente, para chamar a atenção. Como era dado a travessuras e desastres, ao contrário do seu gémeo, sempre mais bem comportado eu coloquei-lhes alcunhas condizentes: Jão-Jão "o gato todo bom", e Deco- Deco o "gato todo mau". Exagerando... Um dia a Docas observou: "Não é bem assim, o Jão-Jão também faz muita asneira. Sim, e o Deco, por seu lado, é simpático, cordial e engraçado. Mas o JJ tinha um outro porte e era de uma suavidade sem igual. Escondia-se para saltar sobre as pernas das pessoas, enlaçando-as com as patas dianteiras. E, com a patinha direita dava sapatadas inesperadas na minha cara, contudo, sempre de unhas encolhidas, para não arranhar. Um querido! Não era assim com todo o mundo, só com a dona. Já o Deco andava atrás de qualquer um. Quando tive de reconstruir a casa do lado, a do Sr Evaristo que, por pressão da Mãe, fui praticamente obrigada a comprar logo que se soube estar à venda, (porque ela não queria vizinhos desconhecidos), o meu medo era que os oito gatos fossem molestados. Não houve incidentes nem acidentes, porque todos os trabalhadores estavam avisados que se tratava de animais de altíssima estimação. Aliás, nenhum deles se aproximava das obras, enquanto decorriam, salvo o Deco, que passava lá o dia, em confraternização. Um verdadeiro "gato operário". Sobre a saúde de todos velava o Paulo - gripes, vacinas, faltas de apetite, parasitas, lesões (o Willy rasgou a cauda num espeto qualquer num telhado, a Tita, durante uma fuga, quase sofreu uma perfuração de intestinos, numa outra saliência de metal, depois o Willy apareceu a mancar, com uma pata inchada...).
Entre eles, o Paulo não era, como é óbvio, muito popular, mas passou a pertencer, definitivamente, ao círculo da família Aguiar. 5- ESPLENDOR NA RELVA Nada a ver com o filme, que tinha esse título e que vi, há uma eternidade. A Seta era mesmo esplendorosa e adorava o seu jardim, de onde nunca quis fugir, e onde tinha a sua árvore favorita, a primeira das japoneiras (quatro) que ocupam todo um quintal demasiado exíguo para tantos ramos e folhagem.
Pedia companhia para brincadeiras, para os exercícios de salto em altura, junto ao tronco dessa japoneira: um pauzinho ou uma fita colorida, colocada nos ramos se cima, que ela procurava alcançar, em escalada vertiginosa, ou pulando. Ai de nós, se não retirássemos a mão a tempo, largando pau ou fita! Nunca se cansava. Pedia mais e mais, ainda que poucas vezes atingisse o alvo.. Dentro de casa, bolas de borracha ou de papel serviam o mesmo propósito. Era a viva imagem da felicidade.! Depois, mudou (com a maternidade, a traumática cirurgia?), mostrava o mau feitio, a má disposição, o desagrado connosco, na intensidade do olhar - como nunca vi em gato algum. Mas se não fosse contrariada ( e até a minha mãe fazia muita cerimónia com ela), socializava amavelmente, sentava-se ao colo, ou em cima das nossas camas, onde dormia as sestas. Quando nos apanhava a jeito, nos sofás, vinha sorrateira por detrás, junto á parede, e mordia-nos os cabelos. Nova metamorfose na velhice: mais de bem com a vida, mais meiga, até também com as visitas, que selecionava (a Xana, a Docas, a Zé). Teimosa e obstinada era muitíssimo. Ia para onde lhe apetecesse, e até portas abria, saltando com as patas dianteiras fechadas, em arco, sobre os puxadores - só mesmo os redondos lhe escapavam. 6- O PRAZER DA SUA COMPANHIA
Foram 16 anos cheios de boas recordações, de boa companhia. Tinha personalidade e beleza! Era ainda pequena, quando a mâe viu num jornal uma notícia sobre "a gata mais bonita do mundo". Recortou e mostrou à Olívia, perguntando: "Sabes quem é?" Resposta pronta: "É a Seta!" Não era, mas parecia. Não há fotos da sua infância, talvez porque foi breve e logo marcada pela doença, mas, depois,desabrochou, fez-se uma beldade, e conservou o aspeto quase até ao seu desaparecimento. O princípio do fim, os últimos onze meses, foi desencadeado por súbitos ataques e convulsões. O Paulo veio logo e levou-a à clínica veterinária onde dá colaboração. Fez análises - tudo bem. Com a idade que já tinha, optei por não a submeter a um TAC, com a inevitável anastesia. Ou era epilepsia, doença bem mais rara nos gatos do que nos cães, ou um tumor cerebral. Nunca saberemos, mas eu inclino-me para o tumor fatal. Tomou "luminal" (metade menos um terço de pastilha, de manhã à noite, que lhe dei pontualmente, durante onze meses, disfarçado na pasta da suas latinhas preferidas) e, de começo, melhorou. Os ataques desapareceram, até data muito recente. No mês passado, ainda ninguém diria que lhe restava tão pouca vida. A sua paixão pelo jardim manteve-se até ao último dia, quando deixou de se alimentar, mas não deixou de se arrastar para perto das roseiras. Mal abria a porta da sala, era a primeira a sair. De tarde, tentei dar-lhe soro, a desafia-la para uma 7ª vida. Adormeceu no meu quarto. Está agora no jardim sob uma japoneira, junto ao Mandarim. Não longe do Jão- Jão e da Branquinha. Restam quatro, todos, em boa verdade, já velhotes. Até o Dragão, que será sempre "o pequenino" anda nos 13 anos. Quando o solto no jardim, não manifesta grande vontade de arejar nos telhados. Mas eu vigio, porque em gatinhos "nunca fiando"... A imprevisibilidade é parte do encanto desta espécie. O facto da Seta ser menos imprevisível do que todos os outros, mais tranquila e estável, nos seus hábitos e manifestações, no seu trato muito "civilizado" (nada de pular para cima das mesas, ou de assaltar os pratos de comida alheios, ou até de disputar os dos companheiros, ou de fugir do seu sítio, à falsa fé) era parte da sua quase humanidade. Uma de nós...