ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS
Os últimos anos da década de 20 foram dramáticos na Vila Maria. Diz-se que, depois de uma morte, para os que ficam "a vida continua", mas a vida,
depois daquele dia 26 de julho, não continuaria igual ao que tinha sido para a família Aguiar, e alterou radicalmente o seu futuro. Para Maria Aguiar foi
como se o tempo tivesse parado no momento em que se abraçou ao corpo morto do marido. Na verdade, não sabia como continuar. Entre lágrimas e
desmaios, caía doente na cama, o médico tornara-se uma visita frequente e não havia remédios a dar-lhe para a falta de ânimo. Dois irmãos Alexandre
e Rosaura moravam muito perto, eram especialmente amigos. Ambos casados, sem filhos fizeram frente à situação, no imediato. O bébé de 2 meses,
Maria Madalena, a Leninha, ficou ao cuidado de Hermínia e Alexandre, que, alguns anos antes, tinham perdido a sua única filha. Como moravam do outro
lado da rua, era fácil à Leninha transitar da casa dos tios, onde preferia de passar os dias, para a casa da mãe, onde, ao longo dos anos, até à idade
adulta, praticamente apenas pernoitava.
Tempo de pesadelo, que deixou marcas.
O funeral fora cerimónia arrasadora, uma multidão juntou-se para dizer adeus a um amigo amável e encantador, de quem todos gostavam. No curto
trajeto que liga a Vila Maria à Igreja Matriz, atravessando o Largo doSouto, organizaram-se, segundo relato dos jornais de Gondomar, oito turnos para
transporte da urna, a fim de que muitos pudessem prestar-lhe essa homenagem, a família mais chegada, as elites da comunidade, as direções do Clube
Gondomarense, do Clube dos Caçadores, dos Bombeiros Voluntários, dos quais era associado ou benemérito. Pormenor tocante, num dos turnos, vem
mencionado, no meio de doutores. empresários e grandes lavradores da terra, o nome do seu criado, João Pereira, possivelmente um dos mais diretos
beneficiários da sua proverbial generosidade e bom trato.
Depois, foi o silêncio, por longos meses rompido pelo pranto incontido e coletivo. O testemunho mais direto r expressivo, chegou até nós sob forma de
um soneto escrito por menino de 11 anos, o filho António Maria:
Quem te levou, meu Pai?!...Quem te levou
Para esse mundo, assim tão azulado?
Responde... sim. Teu filho, um desgraçado
Para quem a tua ausência já chegou
Para esse mundo sem fim, quem te arrastou?
Partiste!... Fiquei só! Desventurado
Pede a Deus, a quem por ti tenho rogado,
Embora infeliz... para quem tudo se quebrou
Partiste, morreu tudo neste mundo...
E minha Mãe, oh Pai, sempre a chorar
E eu choro, desde o dia em que, moribundo,
Te segurei... morreste pai... Agora então
Depois de tudo, me vês, sempre a chorar,
Chorará eternamente, Senhor, meu coração!
Só as mais pequenas atravessaram o verão, negro como o luto, de 1926, num estado de imperfeita compreensão das coisas que estava a acontecer, e
delas não guardaram memórias.
Mariazinha recordava nitidamente apenas o dia do velório, a estranheza de ver o pai a dormir numa caixa comprida e estreita, de se ter aproximado e
e de ter tocado nas suas mãos e na face, e de as sentir geladas, de ter tentado acordá-lo e de ele não lhe responder. Contava, também, mas por ouvir
contar, a cena lancinante da saída da urna - o irmão Manuel deitou-se sobre o caixão fechado, e quis impedir que o levassem da sala. Foi preciso retirá-lo,
afastá-lo, tratar fele, antes de poderem prosseguir a cerimónia. Mais nada se sabe, por relatos de família. Da morte pouco se falava não se falava, e do
funeral menos ainda. A viúva punha, definitivamente, o acento na pessoa que fora, generosa, extrovertida e divertida, tão afetuoso com ela e com os filhos
e tão sociável, fazendo amigos com facilidade. A Vila Maria, no seu tempo, era uma festa, sucediam-se os convívios, de preferência ao ar livre, no jardim,
à volta das mesas redondas, nas cadeiras de ripinhas de madeira verde escuro, a mesma cor das venezianas, a contrastar com o rosa forte das paredes da casa.
Sobrevivem, ainda, as suas descrições dos hábitos tropicais, que ele conservou sempre - tomar um duche frio pela manhã, seguido de um almoço só de
frutas, nadar nas águas gélidas do tanque gigante, que ficava na zona de transição entre os jardins e a quinta agrícola, junto à chamada "casa da eira". Ou
o gosto pelas caçadas. E pelas partidas inofensivas, como a de oferecer aos amigos laranjas de aspeto magnífico, misturando umas muito doces, outras
muito azedas (de uma laranjeira exótica, que mandara plantar só para esse efeito). E por escacar pratos e canecas de barro à bengalada, nas feiras e
romarias de São Cosme, extravagância muito popular entre as louceiras, que, mal o viam, o chamavam : "Sr. Aguiar, venha partir a minha louça!".
Compreensível convite, porque ele pagava sempre tudo a dobrar...
É pelos jornais que ficamos a saber outros peculiaridades, como a do uso uma linguagem sempre correta, mesmo em ambientes de camaradagem
masculina, não soltava um palavrão. "Com os diabos!" era a exclamação mais heterodoxa que lhe arrancavam,... E, como monárquico convicto,
ouviam-lhe dizer, algumas vezes: "Talassa, passa, Buíça chiça"....
Mais de vinte e cinco anos de Brasil, com tanto sucesso, dezasseis de casamento, com tantas alegrias e apenas dois anos feéricos, com toda a
família na Vila Maria...
E depois?...Depois, a viúva, uma jovem de trinta e seis anos bonita e chique, moderna e sociável, perfeita esposa e mãe e perfeita anfitriã de infindável
das tertúlias, tão de agrado do marido, ficou transformada num vulto negro e severo. De um longo período de depressão, saiu para a igreja, refugiou-se
na fé e na religião, primeiro passivamente, para consolo da sua alma mas, à medida que recuperava forças, voltada para trabalho diário num campo novo,
o da beneficência. Fora a mulher de um prestigiado empresário, de seguida, enquanto dele a memória estava bem viva entre os da sua geração, a sua
respeitada viúva, e, por fim, ela própria, Maria Aguiar, voz influente, personalidade forte, líder no feminino, universalmente admirada, da sua terra.
Os filhos fizeram-se, certamente, muito diferentes do que teriam sido, com o pai, que lhes teria aberto outros percursos, oportunidades, escolhas, casamentos,
carreiras, alguns decerto associados aos seus empreendimentos. Todos com outros horizontes, entre São Cosme e Rio. Mesmo a viver em São Cosme, António Aguiar
planeava continuar presente em negócios de banca, com o inseparável amigo Cunha, que haveria de prosseguir sozinho um roteiro ascendente. Manteve sempre o
contacto com a família do velho companheiro. Era o padrinho da Lolita, e muito popular entre os meninos Aguiares. Anos depois, proporia casamento à lindíssima e
virtuosa viúva, feliz com a perspetiva de se tornar o segundo pai dos seus sete filhos, que vira crescer. Não conseguiu da mãe um "sim", que os filhos teriam dado, com
entusiasmo em uníssono. Tinham, todos, a noção de viver um estatuto menor, sentiam-se vítimas de uma oerda irreparável, como se tivessem sido, sem culpa nem
explicação, biblicamente expulsos do paráiso. Muitas décadas mais tarde, Maria Antónia escreveu, como era seu costume, numa folha solta, "Éramos felizes e não
sabíamos" . O pai deixara-lhes, por herança o pequeno paraíso pensado para eles, onde sonhara vê-los crescer: a Vila Maria, uma vila dentro da vila, com tantos e tão
variados espaços, o casarão, onde tudo era grande, à dimensão de uma família em crescimento, o jardim, o pomar, as vinhas, a casa do forno, onde dormia o criado, a
casa da eira, contígua ao maior dos tanques, o galinheiro, (para as crianças, uma espécie de pequeno zoo), e, do lado oposto, quase escondidas atrás do pomar, as
pocilgas, albergadas num comprido conjunto granítico, o chalet, com entrada independente para a rua, destinado a garagem e arrumos, os mirantes, o da frente, do qual
se poderia acenar, e até, verdadeiramente conversar, com apenas uma rua de permeio, para quem assomasse às janelas da residência do tio Alexandre, e um outro,
semelhante nos fundos da quinta, num idílico cenário campestre. Cenário há muito desaparecido, depois da abertura, no início da década de setenta, de uma nova via,
que cortou boa parte da propriedade. No preciso lugar onde existira, se construiu uma escola profissional, agora vizinha do auditório de Gondomar.
Não é de admirar que Mariazinha, como todos os manos, ali se sentisse tão absolutamente livre, mesmo estando, como as outras meninas, proibida de passar a linha
vermelha dos portões. Ela, que era a mais rebelde e desobediente, não precisava de desafiar essa ordenação materna, porque gostava mais de estar na Vila Maria do
que em qualquer outro lugar. Rapariga desportiva, pequena e ágil, ávida de ar livre e exercício físico, bastante criativa nas formas, mais ou menos radicais, de o praticar,
em companhia de Lolita, trepando às árvores mais altas, saltando a partir delas para telhados, o mais procurado dos quais era o da casa da eira, de cima do qual se
podia colher os araçás brancos. Tinha, porém, um ponto fraco – era visível das janelas da sala dos tios, e a tia Hermínia, sempre vigilante, quando as avistava,
obrigava-as a descer imediatamente, com brados e gestos frenéticos. Nem por isso as denunciava à mãe, por recear a sua tendência para uma excessiva severidade,
que era, talvez, a sua maneira de assumir o duplo papel de mãe e pai de crianças rebeldes. Por sorte delas, mostrava-se mais preocupada em as manter dentro dos
limites protetores da quinta e muito menos em as vigiar no seu interior. Ao longo do dia, ausentava-se constantemente, envolvidíssima na prática de boas obras, com
sede na paróquia. Por causa de um incansável voluntariado as deixava, assim, muito à vontade, e elas aproveitavam em pleno as virtualidade da situação. Podiam, sem
oposição, convidar primos e amigas, escolhidas, é claro, dentro de um seleto círculo de convivência, sob o olhar de autoridades mais benignas do que a materna, não as
criadas, pois não as havia com o perfil de uma velha governanta (raramente satisfaziam, por muitos anos seguidos o grau de exigência da empregadora), mas os
queridos tios, o tio Alexandre, convertido em figura tutelar masculina, em segundo pai e as tias Rosaura e Hermínia.
As fotografias, depois de um longo hiato, são já todas da década de 30, quando o ambiente se torna mais distendido, Mariazinha e Lolita posam para as câmaras com a
maior compostura, não deixando transparecer aquilo de que eram capazes quando não vigiadas pela objetiva, Erm todo, nota-se que a mãe toma a precaução de as
separar, Uma à sua esquerda, a outra à sua direito, não fossem tecer alguma partida... E, como se vê, não abandona os fatos negros, mostra-se de semblante triste e
nostálgico, embora tivesse recuperado o antigo hábito de captar em imagens momentos conviviais - nestas fotografias com o primeiro genro, a primeira nora, os primeiros
netos, António José e Mário, filhos de Carolina que casara, aos 18 anos, com Serafim Caetano Pereira, um empresário de Quintã, católico de comunhão diária e solista
do coro da igreja, e de Manuel Joaquim e Clara de Sousa, os pequeninos Margarida e António. Clara pertencia a uma conhecida família de São Cosme,era lindíssima e
muito viva, e por ela Manuel se apaixonou, a ponto de abandonar, aluno brilhante e quase doutor, o curso de Medicina, em Coimbra.
A foto em que Maria Aguiar está com as filhas Mariazinha e os netos António José e Mário é uma raridade, a única em que figuram, ao colo das crianças, três dos lendários
gatinhos franceses de olhos azuis e pelo branco, a que o marido era muito afeiçoado. E, em fundo, avista-se uma casa velha como uma série de janelas de guilhotina,
que se tornaram o alvo da pontaria do António Maria. O mais tranquilo dos rapazes, tão bem comportado em todos os demais aspetos, era um perigo de fisga na mão.
Nenhum dos numerosos quadadinhos de vidro lhe escapava. O vizinho, contudo, não protestava e era sempre compensado do incómodo, com o pagamento dos
estragos sempre por medida alta. .
A Mariazinha, em retrato oficial para as fichas de inscrição escolar, parece exatamente o que não era, uma menina melancólica e tristonha.
Da escola primária tem boas recordações, o que implica tê-las, também, da professora, Dona Aurora Montenegro, senhora muito distinta, pertencente ao
círculo de amizades da mãe. Já velhinha do ponto de vista da criança, o que possivelmente significa que era mulher de meia idade, vivia numa mansão
próxima da Vila Maria, uma pequena quinta, no caminho do Largo da Pedreira, onde morava a tia Rosaura e o seu padrinho tio Manuel.
O início do ano letivo coincidia com as festividade em honra de Nossa Senhora do Rosário, que eram, e ainda são, as mais importantes no calendário anual da vila (agora
cidade) de Gondomar, um composto de celebração religiosa, romaria, feira popular.. As meninas gozavam-nas, imparavelmente, Em nenhuma outra época do anos se
viam tanto por fora dos muros da Vila Maria, acompanhadas, sim, mas não lhes faltando nunca voluntários para esse papel,, entre tios, outros parentes e os confiáveis
pais das suas amigas. A mãe participava, de boa vontade, na sucessão de eventos, mais ligada à organização da vertente religiosa, mas olhando com a mesma simpatia
as diversões, talvez por se lembrar de igual condescendência da parte dos seus pais. O Largo do Souto, a dois passos da Vila Maria, e a rua espaçosa que o liga à Igeja,
transformavam-se em esplanadas cheias de gente, em constante vai vem entre tendas, onde se vendia de tudo, da doçaria tradicional a louças regionais, bordados, ou
brinquedos. A banda tocava no coreto. A restauração centrava-se em dois grandes pavilhões, o da Cruz Vermelha e o da Cruz Branca, ambos com fins beneficentes..
Recordação singular dos convívio e tertúlias em que todo o Gondomar se reunião nos dois pavilhões é um simples guardanapo de papel rendilhado e florido, com uma
quadra popular, que mais do que pelo valor poético, em verdade nulo, vale pela graça e por ser testemunho de outros modos de estar e de agradar ao seu público. A
dizer-nos, por exemplo, que as batatas fritas. como aperitivo, á estavam na moda.
Também não faltavam fotógrafos ambulantes e um deles retratou, em 1931, em grupo, as pequenas Mariazinha, Lolita e Leninha,com os primos José Joaquim e Tininha,
filhos dos tios Celestina, que eram os mais próximos na idade. Todos engalanados para a festa, como mandava o protocolo. Por muitos que fossem os de fora, a festa não
deixava de ser um ponto de encontro para a sociedade elegante de São Cosme, os pavilhões eram frequentados por famílias inteiras e o chá, os bolos, ou as batatas fritas
, servidos por meninas voluntárias.
Maria Aguiar, na senda de seus pais e irmãos, era uma apaixonada pelo folclore, música, tanto pela chamada "clássica"como pela popular, e pelo teatro. Todas as filhas
aprenderam piano, qualquer que fosse o seu grau de talento, mais elevado, por sinal, (quem diria?), na estouvada Mariazinha, ainda que só Madalena, menos fulgurante,
mas mais metódica, tivesse completado o curso do Conservatório.
E também lhes foi permitido pisar os palcos do Cine teatro Nun' Álvares, em récitas beneficentes, muito aplaudidas como vedetas de comédias. Mariazinha que sonhava
ser atriz, aí fez a sua estreia de sucesso e aí acabou uma a brevíssima carreira...
Um programa com correções feitas à mão, indicará que a colaboração da família Aguiar, não se limitava à representação, antes estaria no centro da organização
Maria Laura foi a outra prima, que entrou na iconografia da Vila Maria, onde era visitante muito frequente com a mãe Maria Isabel (Mimi), prima direita e a
melhor amiga de Maria Aguiar. Orfã, como elas, de um pai desaparecido na juventude. Um artista plástico, muito moreno, de quem filha herdou os traços e
a tez - tão morena que, a seu lado, a Lolita parece mais branca e a Mariazinha irremediavelmente pálida..
Enfim, uma fotografia das duas, em que, de algum modo, desafiam a câmara, com mais naturalidade, como se estivessem a magicar uma próxima golpada.
Estão atrás do poço, com a parede do mirante em fundo.